A Nova Hollywood em DVD

Sai só em março, mas é tão marcante que não resisto em comentar. A Versátil (quem mais poderia ser no Brasil?) vai lançar três coleções diretamente relacionadas à Nova Hollywood, momento do cinema americano que pesquisei com prazer durante três anos, mais ou menos.

Uma das coleções é temática, chama-se simplesmente O Cinema da Nova Hollywood, com seis filmes importantes para o período. Corrida Sem Fim (1971), de Monte Hellman, é o grande achado. Inédito em DVD no Brasil, é obrigatório para entendermos esse momento do cinema americano. Dois músicos, Dennis Wilson (dos Beach Boys) e James Taylor (que se casou com duas das melhores cantoras/compositoras americanas, Carole King e Carly Simon), andam por estradas americanas conquistando mulheres e apostando corridas.

Monte Hellman dizia que seu filme é verdadeiramente transgressor, porque em Easy Rider, de Dennis Hopper, os motoqueiros têm de lidar com rednecks e outros tipos de gente preconceituosa, enquanto os corredores de Hellman lutavam contra o sistema, a sociedade capitalista. Não precisarei mais passar a versão original sem legendas em minhas aulas sobre o assunto. Apesar de que o final, com aquela câmera incrivelmente lenta, não precisa de legenda alguma.

Notável também, e igualmente inédito em DVD no Brasil, é A Outra Face da Violência (1977), de John Flynn. É um dos filmes fundamentais, que me fizeram estudar a fundo o período. Tem roteiro de Paul Schrader e cenas violentíssimas, que ilustram bem o clima barra pesada da sociedade americana nos anos 1970 (o filme foi realizado em 1977, mas a história se passa em 1973). Os soldados que lutaram na Guerra do Vietnã não encontravam mais lugar. Viviam num limbo da sociedade, mesmo sendo recebidos como heróis. Eram na verdade “heróis esquecidos”, como dizia o título brasileiro de uma outra obra-prima, de Raoul Walsh, sobre o deslocamento de combatentes de um outro conflito, a Primeira Guerra Mundial.

Completam a coleção o fenomenal O Comboio do Medo (1977), de William Friedkin, releitura muito talentosa de O Salário do Medo (Clouzot); Procura Insaciável (1970), primeiro filme americano do tcheco Milos Forman (que onze anos depois faria o grande Na Época do Ragtime); Essa Pequena é uma Parada (1972), diversão screwball de Peter Bogdanovich; e o raríssimo Voar é Com os Pássaros (1970), um dos melhores, mais estranhos e mais desconhecidos filmes de Robert Altman.

Faltam obviamente diretores fundamentais para a constituição do que chamamos de Nova Hollywood, figuras como Coppola, Scorsese, Cimino e De Palma. Mas os melhores filmes desses mestres já foram lançados por distribuidoras grandes. Mesmo com essa limitação, a escolha foi bem acertada. Seria possível substituir uns dois filmes da coleção, mas dificilmente ela ficaria melhor.

A segunda caixinha é uma homenagem àquele que Bogdanovich considerava o pai da Nova Hollywood: John Cassavetes. Dele, vemos sua estreia na direção com o independente Sombras (1960), o inacreditável Maridos (1970) e Uma Mulher Sob Influência (1974), talvez seu filme mais conhecido. O primeiro e o terceiro já existiam em DVD no Brasil, mas em cópias apenas razoáveis. Maridos passava nas madrugadas da Globo, mas dublado e com as cores esmaecidas não é a mesma coisa. Rever Cassavetes é fundamental para o tipo de câmera que muitos tentam usar hoje, mas quase sempre sem sucesso.

Finalmente, a última coleção é dedicada a um dos diretores mais injustiçados de Hollywood, mesmo dentro desse período. Arthur Penn fez um dos filmes precursores daquele momento em que a tradição encontrava a modernidade da época: Mickey One (1965), o mais godardiano dos filmes de Penn, está presente na caixa. Marca presença também sua estreia no cinema, Um de Nós Morrerá (1958), e seu último grande filme, Amigos Para Sempre (1981).

Mas o destaque vai para a obra-prima máxima Deixem-nos Viver (1969), mais conhecido pelo título original, Alice’s Restaurant. É um dos filmes que eu mais passei em aula por um motivo notável: sua leitura do que estava acontecendo no momento da contracultura, com seu eventual ocaso e sua iminente ruína nunca foi igualada. Richard Rush fez Psych Out um ano antes, e não é difícil perceber o quanto os dois filmes se comunicam, até mesmo pela autocrítica contida no retrato daquela geração. Mas Penn foi mais longe. Numa cena inesquecível (ver vídeo no topo do post), promove o enterro da Era de Aquário ao som de Joni Mitchell (cantada por uma atriz do filme). No plano que fecha o filme, um zoom in combinado com um travelling out na diagonal, mostra o “último olhar de Alice para os anos 60”, como disse Jean-Baptiste Thoret em seu incontornável livro sobre o cinema americano dos anos 70. O espectador vai entender o porquê ao ver o filme. E vai se impressionar com o modo como Penn promove mudanças drásticas de ritmo, tom e humor sem prejudicar a construção dramática e a unidade de estilo.

Não tenho receio de cravar Alice’s Restaurant como um dos maiores filmes do cinema americano e o maior de todos os filmes apresentados aqui. Claro que isso é muito pessoal. São poucos os filmes que me tocam como esse. O que não diminui a excelência de Corrida Sem Fim, A Outra Face da Violência, Maridos e Uma Mulher Sob Influência, as outras obras-primas incontestáveis do pacote.

10 Respostas

  1. Não sei se é nova Hollywood O Sicário. Vi ontem. Como disse uma comentarista, não sou professor de cinema. Aprendo com você, embora a técnica predomine. Voltemos ao Sicário, palavra latina. Descaradamente usada como se mexicana fosse. A sicários desde a Roma antiga. Mas, esse é o Benício Del Toro, excelente ator, quase sempre desclassificado como um mexicano despudorado. Em O Sicário não é diferente. Bem faz o Darin que diz que não filmará em Hollywood porque vai virar sicário, ou assemelhado. O filme é extremamente racista, a meu juízo romântico. Com uma curiosidade os bad guys e os good guys (O sicário, himself)são mexicanos. O pecado mora ao lado, aliás do outro lado. Como se o tráfico não me remetesse a metáfora medíocre do cachorro correndo atrás do rabo! A personagem da Emily Blunt (será que acertei a grafia) é da fada madrinha. Ridícula! Não a atriz, que se esforça para não parecer a H. Clinton. O diretor me pareceu que é francês. Acho até que já correu na fórmula 1. Garantiu com essa produção “chicana” seu lugar para os próximos filmes da nova Hollywood. Lamentável, reduzir uma cultura, de antes de Colombo, a pó de merda. A cena final é atentatória ao pudor do povo mexicano.

    1. Teixeira, o diretor é canadense. E Sicário passa bem longe, em espírito e realização, do que é chamado de Nova Hollywood (basicamente o período que vai de meados dos anos 60 ao começo dos anos 80, principalmente 69-77).

      1. Um ou dois adendos. Primeiro um erro ortográfico. “Há sicários…”. Segundo. Sei que não é nova Hollywood. Mas, tinha que enquadrar o comentário em algum post. Quase que acertei a nacionalidade do realizador! É da parte francesa do Canadá.

      2. rs… compreendo.

  2. Fernando José Gomes | Responder

    Boa sorte Sérgio, que seu blog seja um sucesso.
    Confesso meu pouco conhecimento sobre os filmes da NOVA HOLLYWOOD, embora tenha sido sempre um admirador de Arthur Penn, Altman, Forman, Friedkin, Schrader e do irregular Bogdanovich. Hellman, Cassavetes e outros eu preciso conhecer. Sempre me falaram muito bem de Cassavetes, mas nunca “calhou” de eu poder assistir um filme dele. Stuart Rozemberg fez um bom filme de presidio com Paul Newman que pode ser considerado da NOVA HOLLYWOOD, assim como filmes de Martin Ritt, M. Nichols, Peckimpah, Bob Fosse, Sidney Lumet e outros. Até os primeiros filmes de Mel Brooks me parecem ligados a NOVA HOLLYWOOD. Os citados fizeram filmes que jamais seriam produzidos pela VELHA HOLLYWOOD. Me corrija se estou errado. Um abraço.

    1. Não está errado. Não coloco Martin Ritt, Mel Brooks e Lumet no bloco da Nova Hollywood, mas não se pode dizer que eles não tenham sido afetados pelo que rolava na época. obrigado, Fernando. abraço

  3. Agora sim, vou tomar vergonha na cara e assistir Alice’s Restaurant!!
    😀 😀

  4. Ual!!! Excelente texto!! E o vídeo é impactante mesmo!

    1. Obrigado, Marcelo.

  5. Eu que sugeri pro Fernando, curador da Versátil, este Corrida sem Fim do Hellman.

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