A Bruxa

abruxa

– (para ser lido por quem já viu o filme, ou por quem não se importa com spoilers)

Em seu obrigatório livro Hollywood From Vietnam to Reagan… And Beyond, Robin Wood passa pela teoria psicanalítica segundo Gad Horowitz (após Freud, Marcuse e Reich), para indicar que o cinema de horror americano, a partir da década de 1960, exemplificava à perfeição a tese do eterno retorno do reprimido. O que é reprimido, nos diz a psicanálise, tende a retornar sempre. Os diretores do gênero a partir dessa década passaram a construir filmes em que o mal não pode ser destruído, ao contrário do horror predominante até então, em que o mal é destruído e um par romântico é formado e consolidado em seu final.

Lembrei disso ao ver o curto, direto e eficiente A Bruxa, longa de estreia de Robert Eggers. Na metade do filme, até mesmo antes, já percebemos que os personagens estão diante de algo invencível, uma força que os rege e os leva ao caminho da discórdia. A trama se passa em 1630, mais ou menos 60 anos antes do julgamento do famoso caso das bruxas de Salem, também ali, na Nova Inglaterra, costa leste dos EUA.

Pensando em cinema, e só nele, a trama que Robert Eggers costura com alguma habilidade não tem nada de nova. Vemos uma bela garota na puberdade, idade em que ela já pode conscientemente tomar contato com o mal. Ela é Thomasin, a mais velha dos cinco filhos do casal William e Katherine. O mais novo, Samuel, ainda bebê, desaparece sob seus cuidados. Katherine, principalmente, começa a suspeitar da culpa da menina. Outras coisas estranhas começam a acontecer, mas Thomasin é sempre poupada. Não acreditamos que ela tenha alguma culpa, mas suspeitamos de que ela é escolhida para algum tipo de feitiçaria ou seita satânica, provavelmente por sua beleza e seu poder de sedução não exatamente sexual, mas quase (bem, Polanski nos anos 70 certamente cairia por ela). Caleb, o segundo filho, tem seu despertar sexual observando o volume dos seios por baixo da blusa da irmã. Logo, ela introduz inocentemente o pecado na família. E se pode introduzir o pecado no seio de uma família religiosa, pode também ter contato com o tinhoso.

É um aspecto inteligente do filme deixar essas coisas meio enevoadas. Percebemos claramente o interesse sexual de Caleb. Mais tarde ele será atraído pela bruxa da floresta em sua personificação mais bela e sensual. Mas o filme não explicita o que acontece com seu desejo, com seu corpo, e mesmo porque ele virá a falecer. Apenas indica que o conflito interno que passou a fazer parte de sua constituição, o velho conflito entre o Bem e o Mal, é que o matou, porque intensificado, turbinado pela magia da bruxa. No mais, todos temos esse conflito, e a própria conversão de Thomasin no final só é facilitada porque ela não encontrou no pai e nos demais familiares um possível apoio contra o mal que cercava a casa e a plantação de milho da família. Abandonada, ela aceita a companhia do único ser vivo que sobrou, o bode Black Philip, e vende sua alma ao demônio.

O terço final lembra mesmo o horror dos anos 1970, sobretudo O Homem de Palha e Salem’s Lot, de Tobe Hooper (ou o que lembro deste último), possíveis referências para Eggers. A fotografia do até então pouco conhecido Jarin Blaschke aproveita ao máximo a luz natural e compõe imagens de baixa saturação, quase descoloridas; é um ingrediente importante na construção do clima de terror.

O filme foi rodado no formato 1.66:1, talvez para reforçar o aspecto horror europeu (ou europeizado) dos anos 70. Mas tenho minhas dúvidas de que o 1.66 seria mais efetivo nesse caso do que o 1.33:1, que reforçaria a composição na vertical e a estranheza dos enquadramentos. Para Blaschke, o 1.66 é suficientemente retangular para enquadrar a família toda junta. Mas não são muitos os momentos em que todos aparecem juntos no mesmo plano, de modo que a escolhe me pareceu um tanto arbitrária.

Ainda assim, se no ano passado tivemos o surpreendente Corrente do Mal em nossos cinemas, este ano somos brindados com um outro filme forte de horror, ainda que não possamos falar em surpresa, já que o hype em torno de A Bruxa é alto desde o ano passado, após passagens por Sundance, Karlovy Vary, Sitges e outros festivais.

3 Respostas

  1. Comecei não gostando muito do filme, mas terminei adorando. Acho que o diretor conseguiu mesclar a força e o horror da película tanto em suas imagens quanto em seus significados. Aliás, talvez por isso o filme tenha dividido tanto o público. Quem esperava um filme de terror explícito e cheio de sustos se decepcionou; já quem atentou mais para as representações e os subentendidos gostou bastante.

  2. Disseram que o diretor não soube o momento de terminar, discordo, o final foi sensacional, foi a catarse que o filme precisava.

    1. acho que faltou um final mais forte, que impulsionasse o filme ainda mais. Mas o que ficou não é fraco, não.

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