Arquivos Mensais: junho \26\UTC 2016

Mais pensamentos corriqueiros

superman2

– Nunca entendi direito a grita contra a decadência da TV Cultura. De que decadência falam? Nunca vi muita TV, mas hoje, sempre que passo pelo canal, vejo algo minimamente interessante. Anos atrás eu passava e via, com frequência, Castelo Ra-Tim-Bum, que pode até ter suas qualidades, mas nunca me interessou muito. Me pergunto então se a grita não é uma espécie de protesto automático contra o horrível governo do PSDB. Se for, é tolo demais, mas não me surpreenderia. Se não for, e a decadência existir de fato, me desculpem. É que realmente não vejo muita televisão.

– Revendo Superman II num dos canais Cinemax me deparo com algo que costuma fazer rir os espectadores de hoje, a precariedade dos efeitos especiais. Capaz que numa sessão desse filme no cinema as pessoas dessem mais risadas disso do que do humor que existe na vilania caricatural de Lex Luthor e de seu ajudante, ou das caras de enfado que faz Zod, o supervilão interpretado por Terence Stamp, cada vez que um de seus comparsas se deleita com os superpoderes que ganharam na Terra. O filme tem muitas breguices, mas a direção de Lester mostra seu apuro visual (raro em filmes de super-heróis deste século), o que compensa bastante.

– Outro dia lembrei de um diálogo digno do cinema clássico americano. Reproduzo de memória. Uma menina pergunta para o pai se ele é comunista. Ele diz que provavelmente sim, e pergunta o que ela faria se tivesse em sua lancheira um delicioso sanduiche e sua amiga não tivesse nenhum e estivesse com fome. Ela responde que compartilharia seu sanduíche com a amiga. Ele sorri e diz: “temos então uma pequena comunista na família”. Ela sorri também. Claro que esse diálogo não seria possível num filme dos anos 50, e seria improvável num dos anos 40 (dos anos 30 até poderia). Acontece que é de um filme recente, Trumbo, de Jay Roach. Não é um bom filme por causa da maneira como se desencadeia a trama. Mas tem cenas fortes como essa, a nos lembrar da fórmula mágica que Hollywood no todo perdeu, mas resgata vez ou outra, como que por acidente, em partes de seus filmes recentes.


P.S. Sandra Mara Bombicino e Alfredo Sternheim fizeram comentários pertinentes ao meu tópico sobre a TV Cultura. Reproduzo ambos aqui:

Sandra Mara Bombicino:

Eu sinto muita falta do jornalismo de qualidade do 60 Minutos apresentado ao meio dia por Madeleine Alves e Carlos Henrique Correia e do Jornal da Noite apresentado pelo na falecido Rodolfo Konder e Valeria Grillo.
Era um jornalismo diferente… Nada burocrático ou previsível… Parece que tinha “alma”…
E a programação infantil então… Tinha o Glub Glub que mostrava várias formas de animação de várias partes do mundo, algumas inesquecíveis, como ” Os Amigos”… Pura delicadeza!
E tinha também o Caillou, muito “pedagógico” para pais e filhos, o X-Tudo,
Som Pop, Mundo da Lua, Confissões de Adolescente…
E o Roda- Viva! Ótimos apresentadores, entrevistadores e entrevistados…
Era certamente mais plural!
Enfim, acho que houve sim uma perda considerável de qualidade na programação.
E acho que faz muita falta, ainda mais sendo uma TV pública.
Alfredo Sternheim:
É decadência, sim, considerando o alto custo pago pelo povo, pelas leis do mecenato oficial e (ainda) as receitas de publicidade que, pelos estatutos de sua criação, não deveriam existir dessa maneira. É decadência considerando o farto espaço que dá para a produção estrangeira, para seriados como Sherlock, Mad Men e Downtown Abbey, já exibidos a exaustão em canais pagos e existentes em DVD (Enquanto isso, nada de dramaturgia brasileira). É decadência pelo pouco espaço que dá ao cinema nacional do passado; é decadência pelo amplo espaço que dá para achismos políticos (quase sempre tendenciosos), quando deveria manter a neutralidade. É decadência pela pouca atenção que dá a cultura do interior de SP. ; é decadência visível no site da emissora. Procuro saber o repertório e os integrantes do programa Clássicos, o site nunca informa assim como quem fez os filmes brasileiros jogados para a meia noite de sábado. Um site preguiçoso como a a emissora atual que precisa de revisão e transparência. Enfim , Sérgio Alpendre, uma decadência que a mídia não aponta, apesar de sair do bolso dos paulistas.

 

 

 

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Mostras, mostras e mais mostras

saragoca

– Acabo de voltar de Curitiba, onde passei cinco dias acompanhando o 5º Olhar de Cinema. Fora os clássicos exibidos em DCP, ótima oportunidade para rever Mouchette, Como Era Verde Meu Vale e O Manuscrito de Saragoça, entre outros, tive ao menos três boas surpresas: o chinês Um Outro Ano, o paraguaio A Última Terra e o curdo/canadense Gulistan: Terre de Roses. Dois desses filmes, o primeiro e o terceiro, são dirigidos por mulheres. Gulistan, de Zaynê Akyol, tem sua força na maneira como mostra as soldadas que lutam contra o ISIS nas montanhas do Curdistão. Belas e fortes mulheres, brilhando num mundo ainda dominado pela brutalidade masculina. A Última Terra, de Pablo Lamar, é tudo que Lisandro Alonso tenta fazer desde o começo de sua carreira, chegando perto apenas em La Libertad. Um Outro Ano, de Shengze Zhu, é uma das raras felizes incursões pelo filme-instalação, porque parece instalação, mas nunca deixa de ser cinema. O balanço da edição virá em breve, na Interlúdio.

– Já está rolando em diversos cinemas a 5ª Mostra Ecofalante (outro festival em sua quinta edição, por coincidência). Suas duas principais atrações acontecem na Cinemateca, e são O Diabo Provavelmente, penúltimo filme do gigante Robert Bresson, e Le Joli Mai, o melhor filme de Chris Marker (com co-direção de Pierre L’Homme). Fora isso, os filmes naturistas de Jean Painlevé são ótimas pedidas, assim como duas raras pepitas de Jean Epstein.

– Em julho será a vez de Thom Andersen, que ganha retrospectiva de sua carreira no CCSP graças aos incansáveis Aaron Cutler e Mariana Shellard. Não sou muito entusiasta de seu filme mais famoso, Los Angeles Plays Itself. Parece coisa de Rosenbaum e Sadoul com seu desprezo ao Cecil B. De Mille (chamado de reacionário) e repete-se um tanto, como no longo trecho sobre Chinatown. Mas sua carreira é curiosa, com curtas interessantes e o inusitado e jornalístico Red Hollywood. Goste-se ou não, o que importa é que sua obra precisa ser vista e, se for o caso, questionada.

Pensamentos

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– Roy Andersson amargou um terrível fracasso com seu segundo longa, Giliap, de 1975. Passou então a se dedicar a comerciais de TV, atingindo grande sucesso com a campanha para a seguradora Trygg-Hansa, depois para a Lotto, entre outras. Nesses pequenos filmes burilou o estilo que seria visto em seu esplendor no curta Mundo de Glória (1991) e no longa Canções do Segundo Andar (2000 – foto). Entre os fãs dos comerciais de Andersson, dizem, estava Ingmar Bergman. Será esse um caso raro de autoria, uma versão mais talentosa de Oliviero Toscani? Vendo os comerciais (muitos deles estão no YouTube), podemos dizer que sim.

– Li muita gente elogiando que Capitão América: Guerra Civil não tem vilão. Como assim? Tem um vilão óbvio no estilo Cai o Pano, o último mistério desvendado por Hercule Poirot, que só foi desvendado porque tornou-se o último mesmo (é um dos melhores livros, senão o melhor, da subestimada Agatha Christie). O pior vilão: aquele que incita a maldade, que provoca ressentimentos e divide grupos anteriomente coesos. Isso mais o sentimento de culpa que cai nos heróis pelas mortes causadas nas lutas homéricas fazem o filme crescer. Mas a insuportável roupagem de videogame joga o filme no chão.

Irreversível, de Gaspar Noé, não é ruim por ter uma cena de estupro. É ruim pelo modo como é filmada essa cena e pelo modo como são filmadas quase todas as outras cenas. A luta é justa e necessária. Existe mesmo uma cultura do estupro e essa cultura precisa ser dizimada (sou pessimista: levará gerações para que isso aconteça, se vier a acontecer). Mas filmes que mostram exemplos de conduta e virtudes humanas apenas apaziguam, enquanto filmes que mostram toda a dimensão humana, com a podridão e o que tem de patológico nessa dimensão, nos perturbam, fazem-nos pensar e querer mudar as coisas, ao menos algumas coisas, mesmo que pequenas, aquelas que estão ao nosso alcance. Fassbinder sabia disso e realizou alguns dos melhores e mais fortes filmes sobre a crueldade humana, com absoluto destaque para o tortuoso e genial Num Ano com 13 Luas. E o que dizer de Noites de Circo, de Ingmar Bergman? Enfim, seria melhor não se fazer o que sempre se faz, misturar alhos com bugalhos.