Pensamentos

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– Roy Andersson amargou um terrível fracasso com seu segundo longa, Giliap, de 1975. Passou então a se dedicar a comerciais de TV, atingindo grande sucesso com a campanha para a seguradora Trygg-Hansa, depois para a Lotto, entre outras. Nesses pequenos filmes burilou o estilo que seria visto em seu esplendor no curta Mundo de Glória (1991) e no longa Canções do Segundo Andar (2000 – foto). Entre os fãs dos comerciais de Andersson, dizem, estava Ingmar Bergman. Será esse um caso raro de autoria, uma versão mais talentosa de Oliviero Toscani? Vendo os comerciais (muitos deles estão no YouTube), podemos dizer que sim.

– Li muita gente elogiando que Capitão América: Guerra Civil não tem vilão. Como assim? Tem um vilão óbvio no estilo Cai o Pano, o último mistério desvendado por Hercule Poirot, que só foi desvendado porque tornou-se o último mesmo (é um dos melhores livros, senão o melhor, da subestimada Agatha Christie). O pior vilão: aquele que incita a maldade, que provoca ressentimentos e divide grupos anteriomente coesos. Isso mais o sentimento de culpa que cai nos heróis pelas mortes causadas nas lutas homéricas fazem o filme crescer. Mas a insuportável roupagem de videogame joga o filme no chão.

Irreversível, de Gaspar Noé, não é ruim por ter uma cena de estupro. É ruim pelo modo como é filmada essa cena e pelo modo como são filmadas quase todas as outras cenas. A luta é justa e necessária. Existe mesmo uma cultura do estupro e essa cultura precisa ser dizimada (sou pessimista: levará gerações para que isso aconteça, se vier a acontecer). Mas filmes que mostram exemplos de conduta e virtudes humanas apenas apaziguam, enquanto filmes que mostram toda a dimensão humana, com a podridão e o que tem de patológico nessa dimensão, nos perturbam, fazem-nos pensar e querer mudar as coisas, ao menos algumas coisas, mesmo que pequenas, aquelas que estão ao nosso alcance. Fassbinder sabia disso e realizou alguns dos melhores e mais fortes filmes sobre a crueldade humana, com absoluto destaque para o tortuoso e genial Num Ano com 13 Luas. E o que dizer de Noites de Circo, de Ingmar Bergman? Enfim, seria melhor não se fazer o que sempre se faz, misturar alhos com bugalhos.

6 Respostas

  1. José Navarro de Andrade | Responder

    Aí, Sérgio, seria excelente se um dia você fizesse uma postagem com um listão ou uma listinha de livros acadêmicos que você considera essenciais para um aspirante a crítico cinematográfico.

    1. de certa forma já fiz. Veja os dois posts da série Críticos de cabeceira. Mas na maioria não são livros acadêmicos. Crítica é crítica, academia é academia.

  2. Boa tarde Sérgio. Tenho uma dúvida. Como você definiria essa roupagem de video game atribuída ao Capitão América? Já havia visto você criticar esse tipo de visual em um texto sobre Homens de Preto 3 no Chip Hazard.

    1. Basicamente, essa mania de inserir o espectador à fórceps no meio da ação. Muita movimentação da câmera no espaço interno onde se desenrola as lutas, por exemplo.

  3. Sérgio, Roy Andersson possui alguma obra-prima? Qual? Ele pode ser considerado o maior cineasta sueco pós-Bergman?

    1. seu primeiro longa, A Swedish Love Story, é o que mais se aproxima de obra-prima, e talvez seja.

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