Arquivos Mensais: julho \24\UTC 2016

Oscar Wilde

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Trechos do essencial ensaio em forma de diálogo “O Crítico como Artista” (tradução de João do Rio, de 1911, adaptada para o português atual para a edição da Imago, 1992):

Sem o espírito crítico não há criação artística alguma digna deste nome.

Em uma época que não possui crítica de arte, a arte não existe, ou então é hierática, confinada à reprodução de tipos antigos. Certas idades da crítica não foram criadoras no sentido usual do termo; bem o sei: o espírito do homem buscava nelas inventariar os próprios tesouros, separar o ouro da prata e a prata do chumbo, avaliar as jóias e nomear as pérolas. Porém, todas as idades criadoras foram também críticas. Pois que é o espírito crítico que engendra as formas novas. A criação tende a repetir-se. Ao instinto crítico é que se deve cada nova escola que se ergue, cada fôrma que a arte encontra pronta para seu pé.

Para conhecer o valor de uma colheita e a qualidade de um vinho é inútil beber toda a pipa! Em meio pode-se com facilidade dizer se um livro é bom ou não presta. Se se tem o instinto da forma bastam dez minutos.

Mais difícil fazer alguma coisa que falar dela? Absolutamente não! Isto é um grande erro habitual. É muito mais difícil falar de uma coisa que praticá-la. Na vida, nada de mais evidente. Quem quer que seja pode fazer história, mas somente um grande homem poderá escrevê-la.

Quando um homem se agita é um títere. Quando descreve é um poeta.

[Gilberto] Porém a crítica é também uma arte! E, assim como uma criação artística implica o funcionamento da faculdade crítica, sem o que ela não existiria, assim também a crítica é na verdade criadora na mais elevada acepção do termo! Ela é afinal criadora e independente.

[Ernesto] Independente?

[Gilberto] Sim, independente. A crítica não deve ser, assim como a obra do poeta ou do escultor, julgada por não sei que baixas regras de imitação ou semelhança. O crítico ocupa a mesma posição em relação à obra de arte que o artista em relação ao mundo visível da forma e da cor, ou o invisível mundo da paixão e do pensamento.

Sim, da alma. Porque a crítica elevada é na realidade a exteriorização da alma de alguém! Ela fascina mais que a história pois que não se ocupa senão de si própria. É mais deliciosa que a filosofia, porque o seu assunto é concreto e não abstrato, real e não vago. É a única forma civilizada da autobiografia, pois se ocupa não dos acontecimentos, porém dos pensamentos da vida de alguém, não das contingências da vida física, porém das paixões imaginativas e dos estados superiores da inteligência. Sempre achei graça na tola vaidade desses escritores e artistas da nossa época que acreditam ser a função primordial do crítico o discorrerem sobre suas medíocres obras. O melhor que se pode dizer da arte criadora moderna em geral é ser ela um pouco menos vulgar que a realidade, e assim o crítico, com a sua fina distinção e sua delicada elegância, preferirá olhar no espelho argênteo ou através do véu e desviará os olhos do tumultuoso caos da existência real, se por acaso o espelho estiver embaciado ou dilacerado o véu. Escrever impressões pessoais, eis o seu escopo único. Para ele é que são pintados os quadros, escritos os livros e cinzelados os mármores.

(…)

… alguém de quem nós reverenciamos todos a graciosa memória (…) declarou que o fim da Crítica consiste em ver o “objeto” como na realidade ele é. Mas é grave erro; a crítica, na sua elevada forma, na forma perfeita, é essencialmente subjetiva; busca revelar o próprio segredo e não o segredo de outrem: serve-se da Arte não pela deterioração, mas pela emoção.

E é por esta mesma razão que a crítica à qual fiz alusão é a mais elevada; porque trata a obra de arte como um ponto de partida para uma criação. Não se limita-pelo menos assim supomos –a descobrir a real intenção do artista e a aceitá-la como definitiva. E o erro não se acha nela, pois o sentimento de toda a bela obra criada reside pelo menos tanto na alma que a contempla como na alma que a criou.

A obra de arte serve ao crítico simplesmente para sugerir-lhe uma nova obra pessoal, que pode não ter semelhança alguma com a que ele critica. A característica única de uma bela coisa é que pode emprestar-se a ela, ou nela ver aquilo que se deseja; e a Beleza, que dá à criação seu estético e universal elemento, faz do crítico um criador a seu turno, e segreda mil coisas que não existiam no espírito daquele que esculpiu a estátua, pintou a tela ou gravou a pedra.

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De Bazin para Truffaut

oharu

A Vida de Oharu (Mizoguchi, 1952)

“Lamento não ter podido rever com vocês, na Cinemateca, os filmes de Mizoguchi. Coloco-o tão alto quanto vocês e acho que o amo ainda mais amando também Kurosawa, que é a outra vertente da montanha: pode-se conhecer o dia sem a noite? Detestar Kurosawa para amar Mizoguchi não passa de um primeiro estágio de compreensão. Por certo, quem preferisse Kurosawa seria um cego irremediável, mas quem só ama Mizoguchi é um caolho. Há em toda a arte um veio contemplativo e um veio expressionista…”.

Carta de 1958, no alto da polêmica Kurosawa vs Mizoguchi na redação da Cahiers du Cinéma. Bazin morreria pouco depois, em novembro do mesmo ano.

Está no prefácio do livro O Cinema da Crueldade, que alguma editora deveria relançar.

Top 10 Kiarostami e Babenco

oliveiras

Através das Oliveiras (no alpendre)

Para retomar uma prática que me diverte (e, descobri, serve para muitos como um guia pela obra de determinados diretores), e ao mesmo tempo homenagear dois diretores que se foram, seguem dois tops 10 de supetão.

* brincadeira da legenda: meu nome completo é Sérgio Eduardo Alpendre de Oliveira

ABBAS KIAROSTAMI

1) Gosto de Cereja (1997)

2) Através das Oliveiras (1994)

3) Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1989)

4) E a Vida Continua (1992)

5) Dez (2002)

6) Five (2004)

7) O Vento nos Levará (1999)

8) Close Up (1990)

9) Cópia Fiel (2010)

10) Shirin (2008)

Gosto muito de todos os dez filmes, e também de alguns que ficaram fora (ABC África, o curta O Coro, os trabalhos anteriores à aclamação da crítica). Os cinco primeiros me deixaram estatelado na poltrona do cinema, o oitavo eu admiro muito, mas com certa distância, algo mais racional mesmo.

HECTOR BABENCO

1) Lúcio Flávio – Passageiro da Agonia (1977)

2) Brincando nos Campos do Senhor (1990)

3) Ironweed (1988)

4) O Beijo da Mulher Aranha (1985)

5) Pixote (1980)

6) Carandiru (2003)

7) Coração Iluminado (1998)

8) O Passado (2007)

9) Meu Amigo Hindu (2016)

10) O Rei da Noite (1975)

Aqui acontece algo diverso dos meus tops costumeiros. Há uma clara divisão entre a metade de cima da lista, formada por cinco filmes bem fortes (senão no todo, ao menos em alguns momentos) e dois que se aproximam da excelência, e a metade de baixo, com quatro filmes de força similar que se enquadram na qualificação “interessante”, ou, se preferirem, gosto com reservas (às vezes muitas ou grandes reservas), e um de que não gosto.

Cimino, Spencer, Kiarostami

cereja

O Gosto da Cereja

2016 caminha a passos largos para ultrapassar 2015 como um ano de perdas terríveis. Fico aqui pensando se essas grandes perdas não estariam relacionadas a uma frustração enorme com o que o mundo está se tornando, que faria com que alguns entregassem os pontos e desistissem de lutar pela vida. Não suicídio, mas um deixar-se levar.

Conheci o cinema de Michael Cimino por meio de O Ano do Dragão, visto num VHS que não me impediu de achá-lo um dos grandes policiais que pude ver até então. Era começo de cinefilia e logo depois eu veria, no cinema, Horas de Desespero, que na época considerei frustrante. Thunderbolt and Lightfoot passava na TV e sempre me pareceu coisa de diretor de peso. O Franco Atirador e O Portal do Paraíso foram gostos adquiridos, filmes alcançados com revisões, insistências de minha parte, e assim aconteceu também com Sunchaser. Hoje considero esses três últimos, mais O Ano do Dragão, verdadeiras obras-primas do cinema. Falta rever O Siciliano, do qual nunca gostei muito. Cimino, enfim, foi um cineasta que descobri depois, nunca enquanto ele fazia milagres.

Com Kiarostami foi diferente. Lembro de um texto do Inácio Araujo que apresentava Kiarostami ao espectador paulistano na época em que Kiarostami não era ninguém. Fui ver o filme – E a Vida Continua – no Belas Artes, durante uma edição da Mostra SP, se não me engano com legendas em inglês ou espanhol, e os filmes do diretor passaram imediatamente a serem esperados ansiosamente por mim, e os que vieram nas mostras seguintes, Através das Oliveiras, O Gosto de Cereja e também o anterior, Onde é a Casa do Meu Amigo?, de 1989, me trouxeram ainda mais admiração. Estava descobrindo um gênio, junto de um monte de outros frequentadores da Mostra (bem, alguns torciam o nariz para o que entendiam como neo-realismo requentado). E as pauleiras continuariam, sempre na Mostra SP: O Vento nos Levará, Dez, ABC África, Five. Um gênio, um dos últimos.

A admiração por Bud Spencer vem da infância. De ver os filmes da série Trinity (ele e Terence Hill) na televisão e morrer de rir, com a cumplicidade salvadora (aos meus olhos infantes) dos meus pais. Muito mais tarde, já nesta década, é que vi o belo filme que fez com Ermanno Olmi, Cantando Dietro i Paraventi. Representava, como cômico, um cinema que parece não existir mais, de diversão descompromissada e inteligente.

Esses foram os grandes. Peter Hutton era bom e também se foi, mas não estava à altura deles.

Para aliviar a dor, volto aos discos que embalaram minhas paixões juvenis. Música é a melhor droga que existe.