Cimino, Spencer, Kiarostami

cereja

O Gosto da Cereja

2016 caminha a passos largos para ultrapassar 2015 como um ano de perdas terríveis. Fico aqui pensando se essas grandes perdas não estariam relacionadas a uma frustração enorme com o que o mundo está se tornando, que faria com que alguns entregassem os pontos e desistissem de lutar pela vida. Não suicídio, mas um deixar-se levar.

Conheci o cinema de Michael Cimino por meio de O Ano do Dragão, visto num VHS que não me impediu de achá-lo um dos grandes policiais que pude ver até então. Era começo de cinefilia e logo depois eu veria, no cinema, Horas de Desespero, que na época considerei frustrante. Thunderbolt and Lightfoot passava na TV e sempre me pareceu coisa de diretor de peso. O Franco Atirador e O Portal do Paraíso foram gostos adquiridos, filmes alcançados com revisões, insistências de minha parte, e assim aconteceu também com Sunchaser. Hoje considero esses três últimos, mais O Ano do Dragão, verdadeiras obras-primas do cinema. Falta rever O Siciliano, do qual nunca gostei muito. Cimino, enfim, foi um cineasta que descobri depois, nunca enquanto ele fazia milagres.

Com Kiarostami foi diferente. Lembro de um texto do Inácio Araujo que apresentava Kiarostami ao espectador paulistano na época em que Kiarostami não era ninguém. Fui ver o filme – E a Vida Continua – no Belas Artes, durante uma edição da Mostra SP, se não me engano com legendas em inglês ou espanhol, e os filmes do diretor passaram imediatamente a serem esperados ansiosamente por mim, e os que vieram nas mostras seguintes, Através das Oliveiras, O Gosto de Cereja e também o anterior, Onde é a Casa do Meu Amigo?, de 1989, me trouxeram ainda mais admiração. Estava descobrindo um gênio, junto de um monte de outros frequentadores da Mostra (bem, alguns torciam o nariz para o que entendiam como neo-realismo requentado). E as pauleiras continuariam, sempre na Mostra SP: O Vento nos Levará, Dez, ABC África, Five. Um gênio, um dos últimos.

A admiração por Bud Spencer vem da infância. De ver os filmes da série Trinity (ele e Terence Hill) na televisão e morrer de rir, com a cumplicidade salvadora (aos meus olhos infantes) dos meus pais. Muito mais tarde, já nesta década, é que vi o belo filme que fez com Ermanno Olmi, Cantando Dietro i Paraventi. Representava, como cômico, um cinema que parece não existir mais, de diversão descompromissada e inteligente.

Esses foram os grandes. Peter Hutton era bom e também se foi, mas não estava à altura deles.

Para aliviar a dor, volto aos discos que embalaram minhas paixões juvenis. Música é a melhor droga que existe.

4 Respostas

  1. Sergio, e Cópia Fiel? o que acha?

    1. Gosto bastante.

  2. Lembrando a frase do – talvez fatalista – Godard, ” o cinema começa com D.W. Griffith e termina com Kiarostami”, e considerando a morte, aposentadoria ou velhice dos últimos gênios, estaríamos chegando no fim? Pessoalmente, ainda acho que essa coisa doida pela qual o mundo passa é algum tipo de catarse ou transição. Esperemos!

    1. Também acredito numa transição. Mas suspeito que não verei o momento de mudança. É coisa para 50 anos, no mínimo.

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