Oscar Wilde

oscarwilde

Trechos do essencial ensaio em forma de diálogo “O Crítico como Artista” (tradução de João do Rio, de 1911, adaptada para o português atual para a edição da Imago, 1992):

Sem o espírito crítico não há criação artística alguma digna deste nome.

Em uma época que não possui crítica de arte, a arte não existe, ou então é hierática, confinada à reprodução de tipos antigos. Certas idades da crítica não foram criadoras no sentido usual do termo; bem o sei: o espírito do homem buscava nelas inventariar os próprios tesouros, separar o ouro da prata e a prata do chumbo, avaliar as jóias e nomear as pérolas. Porém, todas as idades criadoras foram também críticas. Pois que é o espírito crítico que engendra as formas novas. A criação tende a repetir-se. Ao instinto crítico é que se deve cada nova escola que se ergue, cada fôrma que a arte encontra pronta para seu pé.

Para conhecer o valor de uma colheita e a qualidade de um vinho é inútil beber toda a pipa! Em meio pode-se com facilidade dizer se um livro é bom ou não presta. Se se tem o instinto da forma bastam dez minutos.

Mais difícil fazer alguma coisa que falar dela? Absolutamente não! Isto é um grande erro habitual. É muito mais difícil falar de uma coisa que praticá-la. Na vida, nada de mais evidente. Quem quer que seja pode fazer história, mas somente um grande homem poderá escrevê-la.

Quando um homem se agita é um títere. Quando descreve é um poeta.

[Gilberto] Porém a crítica é também uma arte! E, assim como uma criação artística implica o funcionamento da faculdade crítica, sem o que ela não existiria, assim também a crítica é na verdade criadora na mais elevada acepção do termo! Ela é afinal criadora e independente.

[Ernesto] Independente?

[Gilberto] Sim, independente. A crítica não deve ser, assim como a obra do poeta ou do escultor, julgada por não sei que baixas regras de imitação ou semelhança. O crítico ocupa a mesma posição em relação à obra de arte que o artista em relação ao mundo visível da forma e da cor, ou o invisível mundo da paixão e do pensamento.

Sim, da alma. Porque a crítica elevada é na realidade a exteriorização da alma de alguém! Ela fascina mais que a história pois que não se ocupa senão de si própria. É mais deliciosa que a filosofia, porque o seu assunto é concreto e não abstrato, real e não vago. É a única forma civilizada da autobiografia, pois se ocupa não dos acontecimentos, porém dos pensamentos da vida de alguém, não das contingências da vida física, porém das paixões imaginativas e dos estados superiores da inteligência. Sempre achei graça na tola vaidade desses escritores e artistas da nossa época que acreditam ser a função primordial do crítico o discorrerem sobre suas medíocres obras. O melhor que se pode dizer da arte criadora moderna em geral é ser ela um pouco menos vulgar que a realidade, e assim o crítico, com a sua fina distinção e sua delicada elegância, preferirá olhar no espelho argênteo ou através do véu e desviará os olhos do tumultuoso caos da existência real, se por acaso o espelho estiver embaciado ou dilacerado o véu. Escrever impressões pessoais, eis o seu escopo único. Para ele é que são pintados os quadros, escritos os livros e cinzelados os mármores.

(…)

… alguém de quem nós reverenciamos todos a graciosa memória (…) declarou que o fim da Crítica consiste em ver o “objeto” como na realidade ele é. Mas é grave erro; a crítica, na sua elevada forma, na forma perfeita, é essencialmente subjetiva; busca revelar o próprio segredo e não o segredo de outrem: serve-se da Arte não pela deterioração, mas pela emoção.

E é por esta mesma razão que a crítica à qual fiz alusão é a mais elevada; porque trata a obra de arte como um ponto de partida para uma criação. Não se limita-pelo menos assim supomos –a descobrir a real intenção do artista e a aceitá-la como definitiva. E o erro não se acha nela, pois o sentimento de toda a bela obra criada reside pelo menos tanto na alma que a contempla como na alma que a criou.

A obra de arte serve ao crítico simplesmente para sugerir-lhe uma nova obra pessoal, que pode não ter semelhança alguma com a que ele critica. A característica única de uma bela coisa é que pode emprestar-se a ela, ou nela ver aquilo que se deseja; e a Beleza, que dá à criação seu estético e universal elemento, faz do crítico um criador a seu turno, e segreda mil coisas que não existiam no espírito daquele que esculpiu a estátua, pintou a tela ou gravou a pedra.

2 Respostas

  1. Boa Sérgio Alpendre,

    Me chamo Jason Richardson e trabalho no departamento de cultura do SESC, tudo bem?

    Gostaria de convidá-lo a ministrar palestras no SESC.

    Qual seu email? (e em que cidade você mora?)

    Att.

    1. Olá, Jason. Sou de São Paulo. Aceito o convite. Meu email é sealpendre@gmail.com

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: