Arquivos Mensais: junho \27\UTC 2017

Frantz

frantz

É curioso o último filme de François Ozon. Manda-nos sem muitas escusas a direções que não esperávamos, e quando adota um caminho mais seguro, o faz de maneira igualmente surpreendente, salvo por um ou outro momento de derrapagem que nunca chega a macular o todo.

Estamos em 1919. Adrien vai à Alemanha encontrar a família de Frantz, morto na Primeira Guerra Mundial. Anna, noiva de Frantz, o acolhe pensando tratar-se de um amigo de Frantz separado pelo front, até que Adrien conta a ela que é o assassino de Frantz. Ela inicialmente não o perdoa, mas quando o faz, ele já havia voltado a Paris, da qual, após algumas cartas sem resposta, sai para morar com a mãe rica num casarão no campo.

Com Ozon, contudo, é bom ter cuidado. A experiência nos convida a desconfiar de que em algum momento as coisas irão sair dos trilhos. É o que acontece em boa parte de seus filmes, ao menos naqueles que iniciam prometendo alguma coisa. Não o sair dos trilhos inconsequente e talentoso da Nouvelle Vague, mas uma perda total de noção da estrutura anteriormente esboçada, como vemos em filmes como Dentro de Casa ou Uma Nova Amiga.

O toque Xavier Dolan, por sinal, paira ameaçador. A concretização de alguma espécie de felicidade, por mais efêmera que seja, traz cores ao filme, efeito parecido ao usado naquela excrecência chamada Mommy (no lugar das cores pastéis de Ozon, a breve abertura da tela em Dolan, mas a intenção é semelhante). Mesmo esse efeito banal é trabalhado de maneira decente por Ozon, que procura sempre a suavidade, a ponderação, exceto em momentos um tanto equivocados: a Marselhesa entoada de maneira triunfalista por clientes de um café parisiense.

Curioso como a aproximação com a Alemanha faz bem ao diretor. Já havia acontecido em seu melhor filme anterior, Gotas D’Água Sobre Pedras Escaldantes. Mas ali havia o fator Fassbinder, autor original da peça que servia de base ao filme. Aqui, a Alemanha cerca o filme com a ambientação e o clima de derrotismo após a Primeira Guerra. Apesar disso, o melhor momento está na França, e pode ser resumido em uma fala. Quando Anna vai à procura de Adrien, já no quarto final do filme, a mãe é perguntada sobre o porque de Anna ter ido até lá, e ela responde: “ela veio nos roubar Adrien”, com o olhar malicioso de quem, com sua ociosidade, já percebeu tudo.

O filme ainda me provocou duas lembranças. A primeira é breve: O Grande Desfile (King Vidor, 1925), que mostra um rápido e emocionante encontro amistoso entre um soldado americano e um soldado alemão numa trincheira francesa. A segunda surge na metade do filme, numa virada que pouco depois adquire outro contorno: para poupar os pais de seu noivo morto da verdade revelada, Anna se vê obrigada a sustentar uma mentira, como em Adeus Lênin (Wolfgang Becker, 2001). Se o filme de Ozon está longe de alcançar a excelência do filme de Vidor (invoco Rivette e culpo a evidência), é forçoso reconhecer que, apesar de cenas derrapantes, é superior ao filme de Becker (o drama desculpa a mentira, enquanto a comédia a reforça com um cinismo que me incomoda nesse filme específico).

Finalmente, que bela interpretação a de Paula Beer no papel de Anna, a protagonista. Não a conhecia.

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Xanadu

xanadu

36 anos antes de La La Land, um outro filme já havia realizado a ponte entre a era de ouro dos musicais e o seu próprio tempo: Xanadu, de Robert Greenwald. Não é um grande filme. Sua estrutura flácida é contornada com alguns remendos típicos de roteiros hollywoodianos. Os conflitos se resolvem simploriamente (mais do que magicamente, o que seria compreensível) e os personagens parecem esboços. Mas a direção de Greenwald, que aprendeu algumas coisas com Stanley Donen, Vincente Minnelli, Busby Berkeley e George Sidney, e os atores, a despeito de uma certa canastrice de Michael Beck (de Warriors – Os Selvagens da Noite, 1979), seguram bastante o divertimento, que serve hoje também como uma máquina do tempo – de 1980, e de como se olhava para 1945 em 1980.

Desde o início, quando o ambicioso pintor Sonny Malone (Michael Beck) rasga seu esboço e os pedacinhos que jogou no ar despertam as nove filhas de Zeus, fazendo com que uma delas, a musa, entre em sua vida de maneira decisiva, uma retomada do balé imaginado por Gene Kelly no desfecho de Sinfonia de Paris (Vincente Minnelli, 1951), fica evidente que veremos uma junção entre duas épocas, dois sonhos separados em 35 anos. Mais adiante, Sonny leva a musa a um estúdio e reproduz uma sequência maravilhosa de Cantando na Chuva (dirigido por Stanley Donen e Gene Kelly, 1952).

É o próprio Gene Kelly, como Danny McGuire, envelhecido e menos sapateador, que provoca esse reencontro dos tempos, pois a musa que o inspirava em 1945 agora inspira Sonny (e, por tabela, o inspira também). Essa musa é Olivia Newton John. Músico e pintor se encontram, não mais na mesma pessoa, como no filme de Minnelli, mas como dois representantes de gerações distantes, mas não tão distintas, já que ambas se abrem à fábrica de ilusões hollywoodiana, remédio para crises e expectativas. Não há competição pela musa. Por algum motivo, Danny pensa que seu tempo para as mulheres já passou, e só quer saber de abrir sua casa noturna. Mas será que essa musa é a mesma? Sabemos que as duas musas, a de Danny, no passado, e a de Sonny, em 1980, tempo do filme, são a mesma Olivia Newton John. Nós a vemos assim. Nada indica que eles a enxerguem da mesma maneira. O olhar apaixonado produz ilusões, idealizações, e por esse motivo Sonny reencontrará sua musa vestida agora de garçonete, mais, talvez, porque ele precisa reencontrá-la (ou a sua substituta) do que por uma materialização da musa. Para Sonny, um apaixonado enfeitiçado, não existe mais a possibilidade de solidão, uma vez que a musa lhe concedeu o dom de se apaixonar, abrindo seu coração para outras mulheres. Essa fantasia é a mais potente, porque é a que está no nosso querer. Basta querermos nos apaixonar, que nos apaixonamos. Somos potencialmente apaixonados. (por outro lado, talvez ele só consiga se apaixonar por mulheres muito parecidas com a musa, o que será uma prisão para ele)

Tem mais: a música genial de Jeff Lynne, líder da Electric Light Orchestra, casou tão bem com o filme que fica difícil imaginarmos outras canções no lugar de “I’m Alive” ou “All Over the World”, e mesmo “Xanadu”, canção de Lynne com voz de Olivia Newton John, é soberba. As outras músicas cantadas por ela, compostas por John Farrar, não ficam muito atrás. E o mínimo que um musical precisa ter é um punhado de belas canções. Fora o visual oitentista, que projeta algo futurístico nos neons e nos efeitos visuais, um mundo eletrônico que se descortina cada vez mais, de vocoders e sintetizadores. E também um mundo de patins (moda que chegou ao Brasil), da ressaca da Disco music, da new wave, das cores que revisitam o início dos sixties, e da iminência de uma direita conservadora no poder. Na construção dessa ponte entre 1945 e 1980, Xanadu é muito feliz, também por entender que, nas duas épocas, o pior já tinha passado, e a maior tensão era saber como seria o amanhã.

Portugal, maio de 2017

tavira

uma rua na bela Tavira

Uma viagem de 23 dias a Portugal me tirou deste espaço. Não precisava, mas assim aconteceu. E voltar é sempre difícil (ao blog, ao país e sua pobreza de pensamento, à insegurança de minhas andanças pelas ruas paulistanas, etc).

Ficarão para sempre comigo os jogos de sinuca com José Oliveira, João Palhares, Marta Ramos e Mário Fernandes (este último meio que fugiu após a primeira derrota, mas está perdoado… rs), as conversas com o sábio José Lopes, os jantares oferecido pelo casal Marta e José, a beleza das igrejas e as inúmeras andanças por uma sempre mágica Lisboa (cada vez menos mágica por conta da gentrificação e dos turistas, mas como é mágica à beça, ainda tem boa sobra para alguns anos mais, talvez muitos).

Para mim, foi uma viagem cinematográfica (e assim justifico o post). Conheci parentes distantes em Arrifana, freguesia da Guarda (agradeço ao meu primo Alexandre por ter desbravado anteriormente o caminho). Foram muito receptivos, acolhedores e simpáticos. Foi muito emocionante o encontro. Maria “São” Alpendre, prima de segundo grau que eu não conhecia, me levou para um ótimo restaurante nos arredores. Saí com a promessa de voltar. E voltarei.

Andar de carro pelo país é outra experiência inesquecível. Saindo de uma estrada que liga o Algarve ao Alentejo, depois de Alcoutin, caio numa estradinha pequena e fechada, que parece estrada de sonho, e nela levo cerca de uma hora (mais pela baixa velocidade necessária do que pela distância). Quando acabam as curvas e a estrada se abre, me deparo com o enorme castelo de Mértola. Deu vontade de conhecer melhor a cidade, mas existia ali alguma festividade de ocasião, o que dificultava encontrar uma vaga para deixar o carro. Resolvi então rumar diretamente para Évora, com a intenção de voltar a Mértola numa outra ocasião. Dizem que a vista da estrada no sentido oposto é também impressionante, porque se vê o castelo à distância, da planície, até que chegamos a ele.

Em Portugal, como já disse anteriormente, respira-se cinema de maneira mais saudável. Lá existe uma Cinemateca de Verdade, que passava Otto Preminger em película, com cinco dos filmes exibidos com apresentação e debate com Chris Fujiwara. Faltam só voltar aos catálogos. Vi The 13th Letter (no Brasil, Cartas Venenosas), uma bela refilmagem de O Corvo, de Henri-Georges Clouzot. Vi também, no circuito, o novo de James Gray, por aqui intitulado Z – A Cidade Perdida. É também um belo filme, num primeiro momento um tanto diferente em sua carreira, mas não tanto com o passar das sequências, e sobretudo com o cuidado formal, sua característica.

No Fundão, os Encontros Cinematográficos. Fui convidado pela segunda vez, agora para a homenagem ao Andrea Tonacci, com exibição dos curtas Olho por Olho e Blá Blá Blá, e do longa Bang Bang, em película, cortesia da Cinemateca Portuguesa, que cedeu o projetor e o projecionista, cópia da Cinemateca Brasileira. Teve também homenagens a Michael Cimino e Alberto Seixas Santos, e um livro que reúne textos publicados ou republicados pela Foco, coroando o trabalho estimável da revista.