Xanadu

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36 anos antes de La La Land, um outro filme já havia realizado a ponte entre a era de ouro dos musicais e o seu próprio tempo: Xanadu, de Robert Greenwald. Não é um grande filme. Sua estrutura flácida é contornada com alguns remendos típicos de roteiros hollywoodianos. Os conflitos se resolvem simploriamente (mais do que magicamente, o que seria compreensível) e os personagens parecem esboços. Mas a direção de Greenwald, que aprendeu algumas coisas com Stanley Donen, Vincente Minnelli, Busby Berkeley e George Sidney, e os atores, a despeito de uma certa canastrice de Michael Beck (de Warriors – Os Selvagens da Noite, 1979), seguram bastante o divertimento, que serve hoje também como uma máquina do tempo – de 1980, e de como se olhava para 1945 em 1980.

Desde o início, quando o ambicioso pintor Sonny Malone (Michael Beck) rasga seu esboço e os pedacinhos que jogou no ar despertam as nove filhas de Zeus, fazendo com que uma delas, a musa, entre em sua vida de maneira decisiva, uma retomada do balé imaginado por Gene Kelly no desfecho de Sinfonia de Paris (Vincente Minnelli, 1951), fica evidente que veremos uma junção entre duas épocas, dois sonhos separados em 35 anos. Mais adiante, Sonny leva a musa a um estúdio e reproduz uma sequência maravilhosa de Cantando na Chuva (dirigido por Stanley Donen e Gene Kelly, 1952).

É o próprio Gene Kelly, como Danny McGuire, envelhecido e menos sapateador, que provoca esse reencontro dos tempos, pois a musa que o inspirava em 1945 agora inspira Sonny (e, por tabela, o inspira também). Essa musa é Olivia Newton John. Músico e pintor se encontram, não mais na mesma pessoa, como no filme de Minnelli, mas como dois representantes de gerações distantes, mas não tão distintas, já que ambas se abrem à fábrica de ilusões hollywoodiana, remédio para crises e expectativas. Não há competição pela musa. Por algum motivo, Danny pensa que seu tempo para as mulheres já passou, e só quer saber de abrir sua casa noturna. Mas será que essa musa é a mesma? Sabemos que as duas musas, a de Danny, no passado, e a de Sonny, em 1980, tempo do filme, são a mesma Olivia Newton John. Nós a vemos assim. Nada indica que eles a enxerguem da mesma maneira. O olhar apaixonado produz ilusões, idealizações, e por esse motivo Sonny reencontrará sua musa vestida agora de garçonete, mais, talvez, porque ele precisa reencontrá-la (ou a sua substituta) do que por uma materialização da musa. Para Sonny, um apaixonado enfeitiçado, não existe mais a possibilidade de solidão, uma vez que a musa lhe concedeu o dom de se apaixonar, abrindo seu coração para outras mulheres. Essa fantasia é a mais potente, porque é a que está no nosso querer. Basta querermos nos apaixonar, que nos apaixonamos. Somos potencialmente apaixonados. (por outro lado, talvez ele só consiga se apaixonar por mulheres muito parecidas com a musa, o que será uma prisão para ele)

Tem mais: a música genial de Jeff Lynne, líder da Electric Light Orchestra, casou tão bem com o filme que fica difícil imaginarmos outras canções no lugar de “I’m Alive” ou “All Over the World”, e mesmo “Xanadu”, canção de Lynne com voz de Olivia Newton John, é soberba. As outras músicas cantadas por ela, compostas por John Farrar, não ficam muito atrás. E o mínimo que um musical precisa ter é um punhado de belas canções. Fora o visual oitentista, que projeta algo futurístico nos neons e nos efeitos visuais, um mundo eletrônico que se descortina cada vez mais, de vocoders e sintetizadores. E também um mundo de patins (moda que chegou ao Brasil), da ressaca da Disco music, da new wave, das cores que revisitam o início dos sixties, e da iminência de uma direita conservadora no poder. Na construção dessa ponte entre 1945 e 1980, Xanadu é muito feliz, também por entender que, nas duas épocas, o pior já tinha passado, e a maior tensão era saber como seria o amanhã.

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