Mais um vazio

cid

Demoro para absorver as perdas de grandes amigos. Não consigo fazer como a maioria das pessoas, que logo correm para o facebook e postam suas memórias. Fico um pouco com vergonha de fazer isso, já que sempre achei o luto uma coisa solitária, necessária para aplacar um pouco a sensação de perda. Como se fosse necessário passar pela tristeza e pela solidão, e sem elas a perda continuaria ali, à espreita, e a alma do amigo não se iria em definitivo, não teria o merecido sossego. Sim, ainda acredito um pouco nisso. Por isso tendo a ficar silencioso, até na presença de amigos queridos. Ao mesmo tempo, gosto de ler o que as pessoas escrevem. Não sei, é um sentimento dúbio mesmo. Faz bem ver como outras pessoas o viam, como ele era importante neste mundo. Aconteceu o mesmo quando Francisco Conte e Andrea Tonacci se foram. Minha dor silenciosa encontrava algum conforto na dor de quem compartilhava a amizade deles comigo.

E o que dizer de Cid Nader que ainda não foi dito? Muita coisa, talvez. E ao mesmo tempo, pouquíssima coisa, porque não quero ser invasivo com um grande amigo. Muito do que nossa amizade nos deu, as brigas bobas e as alegrias intensas, as muitas risadas e cumplicidades, ficam guardadas para sempre. Não há necessidade de colocá-las no mundo.

Observei que quase todo mundo tem foto com ele. Eu não. É curioso, já que em festivais já cheguei a ouvir que um não existia sem o outro, e não achei injusto ouvir isso.

Foi-se, é certo, um grande cúmplice, de modo que acompanhar festivais se tornará bem sem graça sem ele (Anápolis foi uma exceção, já que ele engendrou a coisa, e de certo modo uniu eu, Joel e Rosemberg, e me possibilitou conhecer pessoas muito bacanas). Cobrir festivais já havia se tornado sem graça, na verdade, porque ele prometera se afastar, e tinha cumprido a promessa. Ia só àqueles em que ele trabalhava de algum modo, como jurado ou curador.

De vez em quando ele sentava-se mais no meio da platéia, como se quisesse lutar contra a ideia de que éramos, ele e eu, antissociais. Curiosamente, eu também fazia isso de vez em quando, mas quase nunca quando ele também fazia. A gente mudava de acordo com o nosso humor, e era raro coincidir. Nossa amizade era assim. E quando acabavam os filmes, mesmo quando sentávamos distantes, acabávamos nos encontrando para combinar onde jantar, ou quando escrever na sala de imprensa, ou quando sentar para falar besteiras enquanto o sono não vinha (e o dele parecia não chegar nunca). Celso Sabadin nos acompanhou em várias dessas, assim como o Heitor Augusto.

Vira e mexe o incansável Cid, nunca relapso com amizades (preciso aprender isso com ele), ligava para conversar, ou chamava para comer um pão que ele tinha feito. Eu teria de ir ao Itaim para isso, o que me dava preguiça. O bairro é ótimo, desde que não se saia dele. E uma vez fora dele, que não se entre. Se eu soubesse que teríamos pouco tempo…

Ele não gostava de ver filmes em casa, dvd ou link. Eu, ao contrário, sempre gostei. Agora mais ainda, porque não o verei mais nos cantos das filas, dando socos no ar para corrigir algum mau jeito no braço (eu o imitava como um código, e mesmo quando distante ele percebia minha imitação e ria).

No começo da amizade, ano 2000, até eu deixar a loja de discos com meu irmão para cuidar da Paisà, isso em final de 2005, ele costumava ir à loja no fim da tarde, onde quer que ela estivesse (mudou de endereço algumas vezes) e ficava esperando eu fechar para fazermos alguma caminhada. Às vezes eu ia ao cinema e ele me acompanhava. Às vezes era caminhar a esmo, como pretexto para a conversa rolar solta. Essas caminhadas foram substituídas pelas caminhadas dos festivais. Que, por sua vez, foram substituídas pelo whatsapp. Triste.

Se eu soubesse…

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