Arquivos Mensais: novembro \27\UTC 2017

A jovem Huppert e o fim do Leffest 2017

huppergoretta

Foi-se o 11º Leffest. Passou rápido. Dei preferência à revisão de filmes que conheci há muito tempo ou em cópias ruins, a alguns filmes atuais que me interessavam (Bartas, Allen, Garrel) e também ao preenchimento de algumas lacunas. Por isso abdiquei de rever Heaven’s Gate e alguns do Abel Ferrara, além de outros quitutes finos. Perdi muito, é certo, mas não se pode ter tudo, e no Leffest a maior parte dos filmes passa apenas uma vez.

Neste domingo, último dia, encerrei com a revisão do mais famoso filme de Claude Goretta, La Dentellière, do qual me lembrava pouco; depois vi o Der Rosenkönig de Werner Schroeter, que não me fala especialmente, mas que tem inegáveis momentos fortes, e dois filmes de José Vieira, documentarista português radicado, ou quase, na França: Le Drôle de Mai e A Ilha dos Ausentes. Antes, na sexta, conferi o novo de Woody Allen, Roda Gigante (Wonder Wheel). Pareceu-me um presente para Kate Winslet, que está extraordinária, confirmando a boa mão de Allen para interpretações femininas.

Mas queria encerrar a cobertura neste blog com algo que me impressionou um bocado, falando de interpretações femininas. Está no final de La Dentellière. É quando François (Yves Beneyton) vai visitar Pomme, a personagem de Isabelle Huppert, no hospital. Eles conversam e ela faz tudo para passar a impressão de que está bem, de que depois do fim da relação entre eles houve outro homem, e que ela conheceu a Grécia, e que estava feliz. Eles se despedem. Ele entra no carro e chora de desespero (praticamente choramos com ele), porque percebe que amou aquela mulher como nunca tinha amado ninguém, e que agora já não tinha mais volta, algo desandou por culpa dele, e com isso ela sofreu muito e terrivelmente.

Mas o que me impressionou vem antes desse choro dele no carro: ela sorri para ele enquanto se despedem ainda no corredor do hospital. Mas assim que ele se vira o semblante dela muda sutilmente, de uma alegria irresponsável para uma tristeza profunda, disfarçada por uma máscara de frieza que se tornou a marca registrada de Huppert. Uma máscara muito bem nuançada para percebemos que a personagem esconde, talvez até de si própria, sua desesperadora condição.

É um assombro o que ela, ainda uma jovem de 23 anos (mas parecia ter 18, como Pomme), consegue fazer nessa cena. Um dos momentos mais sublimes de uma atriz no cinema (como Teresa Wright em Shadow of a Doubt ou Deborah Kerr em An Affair to Remember ou Tea and Sympathy… raios, Kerr em vários filmes).

Quando alguém ficar em dúvida se Isabelle Huppert é uma das maiores atrizes que essa arte já viu, convém mostrar o final de La Dentellière para encerrar a discussão.

Buñuel e Douchet no Leffest 2017

belledejour

Na última terça-feira a sala 4 do Monumental recebeu uma cópia restaurada (infelizmente em DCP) de A Bela da Tarde, um dos filmes mais famosos de Luís Buñuel. O filme continua uma maravilha de liberdade e lucidez, como são todos os filmes finais desse cineasta essencial, e a cópia estava mesmo boa. Mas o que me chamou a atenção aconteceu no debate após o filme, com o mestre Jean Douchet. Um espectador perguntou como a sociedade recebeu esse filme naquela época. Senti na pergunta algo assim (e posso estar enganado): “como a sociedade em 1967, super atrasada, recebeu um filme que hoje, em nossa sociedade mais avançada, ainda causa espanto?”. Douchet falou da premiação em Veneza (Leão de ouro) e das rejeições ou aprovações igualmente entusiasmadas que costumam acompanhar os filmes de Buñuel, na altura um cineasta mais do que consagrado. Mas me causa espanto (ou causa espécie, para voltar a uma expressão bem usada naquela época), que um espectador realmente ache que em 1967 a sociedade receberia um filme desses com maior escândalo do que hoje, quando o público, seja português, brasileiro ou francês, é incapaz de separar personagens de criadores e confudem representações seja lá do que for com ideologias diversas (um filme que faz uma representação do machismo passa a ser machista, e por aí vai). Penso, aliás, que um filme desses, hoje, jamais seria feito, e que um gênio como Buñuel teria imensas dificuldades em conseguir fazer filmes, e se os fizesse, teria de fazê-los com inúmeras concessões.

—————————————————–

O ponto mais fraco do Leffest é a falta de informação do formato em que os filmes serão exibidos. DCP, arquivo mkv (como foi exibido Nostra Signora dei Turchi, de Carmelo Bene), blu-ray (como parece ter sido God’s Little Acre), beta (451 Forte?), algum outro formato digital ou 35mm. É algo que o Leffest tem a aprender com a Mostra SP, que de tanto os chatos (como eu) reclamarem, passou a colocar informação mais detalhada sobre os formatos de exibição.

LEFFEST 2017

godslittleacre

God’s Little Acre (1958)

Está aberta a cobertura do 11º LEFFEST – Lisbon & Sintra Film Festival de 2017, festival dirigido por Paulo Branco que promove um banquete de cinema em nove salas de cinema espalhadas por Lisboa, Queluz e Sintra. É minha primeira cobertura internacional, não por falta de oportunidade.

Quando surgiu a Revista Paisà, no final de 2005, muitos amigos me diziam que eu poderia cobrir o Festival de Cannes, que seria fácil porque eu editava uma revista impressa de cinema, coisa e tal. Pensei: “mas por que eu gostaria de cobrir um festival internacional? Nunca fui à Europa. Se for, não vou querer passar dias inteiros vendo filmes”. A ideia de estar numa cidade que não conheço e não ter a chance de conhecê-la melhor, caminhando por suas ruas e observando sua rotina, simplesmente me é terrível. Ou seja, nunca cobrirei o Festival de Cannes, a não ser que seja bem pago para isso. Simplesmente, não me apetece todo aquele circo.

Ainda penso da mesma maneira. Mas agora moro em Lisboa. Não é mais um destino distante e efêmero. E de certo modo, o Leffest, festival dirigido por Paulo Branco que acontece em Lisboa e Sintra, é um festival muito próximo ao que eu gostaria de fazer: filmes de todas as épocas, sem predomínio do contemporâneo. Tem retrospectivas bem amplas de Isabelle Huppert, Peter Brook, Alain Tanner, Abel Ferrara e João Mário Grilo, entre outras oportunidades de vermos um pouco do melhor que o cinema nos deu em seus 122 anos de existência. Mais: os filmes atuais são selecionados. Nada de 200 ou 300 títulos. No Leffest 2017 tem cerca de trinta longas contemporâneos, sem contar os filmes mais recentes dos homenageados, ou dos diretores que mereceram retrospectivas e ainda estão na ativa, caso de Ferrara e Grilo, por exemplo. É algo que a Mostra SP poderia ser, caso assumisse de vez uma seleção mais criteriosa no lugar da inflação de filmes recentes que não dizem nada. Decidi então cobrir esta edição do festival. Farei alguns posts aqui e um balanço mais completo na Interlúdio daqui a alguns dias.

Meu Leffest começou no sábado, com o segundo longa de João Mário Grilo, de quem eu só havia visto O Fim do Mundo, com o qual não posso dizer que me empolguei (vi há muito tempo, na Mostra SP de 1993 ou 1994). Mas A Estrangeira (1982) é ótimo, com um Fernando Rey inspirado como sempre e uma liberdade de trilhar caminhos poéticos sem amaciar para o público. Melhor ainda é O Processo do Rei (1989), seu terceiro longa, visto neste domingo à tarde para uma plateia infelizmente pequena. Uma senhora perguntou ao diretor, no debate que se seguiu ao filme, sobre o desinteresse das pessoas com o cinema português. Realmente é impressionante que um filme desses, com uma cópia maravilhosa em película, não tenha atraído mais pessoas. É de se lamentar. A cópia, aliás, não é nova, pelo que entendi. Trata-se de uma cópia sem legenda alguma (o filme é falado em português e francês), e por isso raramente foi usada, preservando-se praticamente sem uso. Grilo mencionou que não queria legendas porque pensou nos diálogos com as musicalidades específicas de cada idioma. Curiosamente, durante a projeção me lembrei da sessão de O Sapato de Cetim na Mostra SP de 2005, quando desisti de acompanhar as legendas eletrônicas em português ao perceber que o francês musicado de Paul Claudel era rico o suficiente para fazer da sessão um evento histórico, como de fato foi, independentemente do que eu poderia entender daquelas falas (meu francês nunca foi grande coisa, mas ouço e leio razoavelmente bem).

Vi ainda, neste domingo, o último Garrel, O Amante de um Dia, com comentários de Jean Douchet, e um clássico do Anthony Mann que há muito queria rever: God’s Little Acre (1958), que no Brasil chamou-se O Pequeno Rincão de Deus, e em Portugal, Tentação. Prefiro o título brasileiro. Impressionante o trabalho de Robert Ryan nesse filme, e mais impressionante ainda a maneira como Mann evolui de uma comédia matuta com alta dose de erotismo para um melodrama de muita classe.

Quatro filmes até agora, e o mais fraco foi um bom filme de Philippe Garrel. Dificilmente um festival poderia ter começado de maneira mais feliz.