Críticos de cabeceira

morangos

O leitor Emerson me incentivou a criar uma lista de críticos que admiro e que, de alguma forma, são responsáveis (ou culpados) pela minha formação. Farei então uma lista, sem ordem de preferência, de críticos, cinematográficos ou não, que me influenciaram de alguma maneira, começando por aquele que eu mais lia no início da cinefilia (e que hoje é amigo e parceiro de oficina).

– Inácio Araujo

Na Folha, foi quem me fez ir atrás de diretores como Sergio Sollima, Vittorio Cottafavi e Peter Yates. Defendia, contra todos os críticos da época, os filmes malditos de Paul Verhoeven: Showgirls e Tropas Estelares. Do segundo eu gostei logo que vi. Do primeiro levou algum tempo até eu concordar com o mestre.

– François Truffaut

Também do início da cinefilia (1990, mais ou menos). Lia o livro Os Filmes de Minha Vida e ficava encantado com a paixão demonstrada por Truffaut. O livro de entrevistas com Hitchcock então era praticamente um travesseiro. Só muitos anos depois, já na segunda metade dos anos 90, descobri os outros jovens turcos. Gostava deles, mas não gostava da Cahiers da época. Lia Première e Studio, mesmo discordando do gosto de quase todos os críticos dessas revistas. Mas eram ideais para praticar leitura em francês (as revistas eram mais baratas e mais fáceis de ler que a Cahiers).

– Jairo Ferreira

Quando Juliano Tosi montou um blog com textos antigos de Jairo, pude ler com mais atenção esse crítico extraordinário e ainda pouco conhecido. Altamente recomendável também o livro com críticas para o jornal São Paulo Shimbun, lançado pela Imprensa Oficial.

– João Benard da Costa

Obrigatório crítico português que, no tom e no estilo cronista, lembra muito o Inácio Araujo. Dá para achar diversos textos dele espalhados pela internet (o de Cassino é sensacional, mas tem diversos outros geniais). Os diversos catálogos que editou para a Cinemateca Portuguesa são um tesouro inestimável. Pena que é difícil comprá-los à distância (talvez menos difícil agora, não sei).

– Tag Gallagher

Gallagher é meu segundo crítico cinematográfico preferido entre os que escrevem em inglês. Seu estilo anti-acadêmico pode chocar os críticos atuais, mas ele tem uma visão muito particular do cinema, não cai em modismos e desenvolve ideias como poucos. Este texto (em arquivo Word), por exemplo, é obrigatório.

– Robin Wood

Não tem pra ninguém. Crítica de cinema em inglês é com Robin Wood. Obrigatório é seu livro sobre o cinema americano dos anos 70, Hollywood from Reagan to Vietnam… and Beyond – melhor o relançamento, que tem esse “and Beyond”, porque vem com textos sobre filmes do final dos anos 80 até o início dos anos 2000, quando ele defendia coisas como As Horas (defendia muito bem, mas continuo achando o filme uma bomba). Obrigatório também é seu livro sobre Rio Bravo, da coleção da BFI. Obrigatório lerem tudo de Robin Wood.

– Clement Greenberg

Grande crítico de arte norte-americano, sobre o qual escrevi no finado blog.

– Northrop Frye

Tinha lido coisas dele, desordenadamente, na época da faculdade 1989-1993). Se não me engano, mais para o final desse período. Mas na época não fez minha cabeça. Ao reler a “Introdução Polêmica” no relançamento de Anatomia da Crítica, pela É Realizações, tornou-se leitura constante e parte obrigatória de minhas oficinas de crítica. É crítico literário, mas serve perfeitamente para nós, críticos de cinema, porque cinema é arte, poxa.

– Jean Douchet

Atualmente tenho discordado bastante do que ele diz. Tenho um livro recente dele em que ele parece detestar ele próprio nos anos 60 (seu melhor período, a meu ver). No começo dos anos 2000, editou um catálogo maravilhoso sobre a Nouvelle Vague para a Cinemateca Francesa. O jovem Douchet escreveu A Arte de Amar, outro texto fundamental que uso em aula.

– Jacques Lourcelles

Além do dicionário que escreveu durante anos, publicado no início dos anos 90, vale a pena ir atrás de seus textos para a Présence du Cinéma, muitos deles traduzidos para o português (na Foco e no blog dicionários de cinema).

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10 Respostas

  1. Alpendre, o que acha do livro de Robin Wood sobre Hawks? Tem aquela tese um pouco controversa da temática homossexual nos filmes do Hawks.

    abs

    1. Acho maravilhoso. Hawks é um dos diretores preferidos dele. Ainda melhor, se é que isso é possível, é o que ele escreveu sobre Rio Bravo para a BFI.

  2. Sérgio no post anterior, você mencionou o Tropas Estrelares. Antes da publicação deste novo post, onde você, novamente menciona o filme do Paul Verhoeven, já havia comprado o DVD, por culpa ou mérito seu. Consegui uma cópia original e lacrada americana. Só leio crítica de filmes após assistir. Nesse caso, como não recebi o dvd, diga-me, sinteticamente, as razões por você ter gostado do Tropas Estrelares. Vou ter em conta ao ver. Gosto muito do diretor, também.

    1. Teixeira, considero esse filme uma aula de direção. Além disso, ele tem um aspecto político muito forte. Deixo este texto escrito em 2004 pelo Inácio Araujo para defender o filme melhor do que eu poderia defender:

      “Em matéria de cinema, vivemos imersos em preconceitos (em outras matérias, também, mas não vem ao caso). Agora mesmo, o estigma do melodrama foi lançado sobre Valentin, o belíssimo filme de Alejandro Agresti em cartaz em São Paulo.

      Bem, é verdade que se engole um melodrama, desde que venha de Almodóvar. Mas aí é Almodóvar, não é melodrama – se é que dá para seguir o raciocínio. O critério de autoridade parece muitas vezes determinar nosso prazer.

      Um caso semelhante é o de Tropas Estelares. Alguém espalhou o boato de que o filme seria nazista, e a coisa emplacou. Talvez porque o diretor se chame Paul Verhoeven – nome suspeito. Talvez porque use imagens à la Leni Riefenstahl, logo no início.

      Não lhe ocorreu que essas imagens buscam um efeito humorístico? No entanto, é evidente. De modo que não se sabe mais onde termina a ignorância e onde começa a má-fé.

      O fato é que Tropas é um belo faroeste espacial, protagonizado pelo herói Johnny Rico. O filme não é espanhol nem mexicano. O fato é que Rico mora em Buenos Aires. Mas não existe diferença entre Buenos Aires e, digamos, Oklahoma. Sutil maneira de dizer, em 1997, auge da globalização, que o mundo e a América (os EUA) são a mesma coisa.

      Rico lidera os terráqueos no combate às hordas de insetos que buscam atacar nossos Fortes Apaches espaciais. Porque nessa luta de vida e morte entre homens e insetos, convém lembrar, os insetos somos nós.

      Nós, latino-americanos, africanos, talvez asiáticos – todos os que estragam a festa da globalização com sua miséria e eventuais insurreições.

      Em definitivo, Tropas Estelares é um filme político. Mas um filme de esquerda. Talvez represente o pouco de espírito de recusa que restou no mundo nos últimos anos.”

  3. Sérgio, Truffaut é melhor como diretor ou crítico? E quanto à Glauber Rocha crítico, o que achas? Obrigado pela lista!

    1. Gosto muito dos dois, como diretores e como críticos. Ainda que o Glauber historiador me interessa ainda mais. Se bem que não concebo a crítica sem história, então, a meu ver, todo crítico deve ser ou ambicionar ser também um historiador.

  4. Muito bom, parabens! Agora pergunto: e os textos de Paulo Emílio, de Jean Claude Bernardet e Pauline Kael? E os críticos da revista Senses of Cinema?

    1. Gosto bastante do Paulo Emílio. Do Bernardet só em algumas ocasiões e da Kael nunca cheguei a gostar, mas tenho os livros dela e de vez em quando consulto. Senses of Cinema, que eu lembre, não tinha críticos fixos, né? Tem texto do Tag Gallagher lá, e de outros feras. Enfim, gosto de mais gente que não coube no post…

  5. Godard ficaria em primeiro dos não citados (contando as críticas em forma fílmica também)?

    1. Gosto muito. Mas não ficaria em primeiro.

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