Straight Outta Compton

nwa

Em meados dos anos 90, tive uma fase em que só escutava música negra. Claro que eventualmente outras coisas entravam na roda, mas normalmente eu pirava com vinis ou cds de bandas como Commodores, Earth, Wind and Fire, Tramps ou gênios como Stevie Wonder e Curtis Mayfiled, entre muitos, muitos outros.

Agora estou em uma nova fase dessas, revisitando muitas das coisas que eu ouvia muito há vinte anos e esporadicamente (como quase tudo que tenho) de lá para cá. Essa fase começou no final do ano passado, e continua firme e forte, com o parliafunkadelicment thang de George Clinton numa posição máxima em meus auto-falantes já massacrados por tantos graves poderosos.

Por isso tinha grande curiosidade para ver Straight Outta Compton, a cinebiografia do NWA feita por F. Gary Gray, diretor que sempre me interessa. Nem sabia que o filme tinha estreado em São Paulo no fim de outubro. Estrear durante a Mostra Internacional é judiação para qualquer filme.

A primeira sensação que tive ao finalmente ver o filme de Gray é que deram a câmera para alguém com abstinência alcoolica. Entendo a tensão que se quer imprimir, mas em muitos momentos essa tremedeira é falsa, parece existir unicamente pelo efeito câmera na mão, que está na moda (aliás, já está ficando fora de moda, pelo que tenho notado em filmes americanos recentes). Mas uma coisa é a câmera na mão de Pasolini, Glauber Rocha ou Sganzerla. Outra é essa de 99% dos filmes atuais: a tremedeira fabricada.

NWA nunca foi das minhas bandas preferidas. No hip hop prefiro Public Enemy, LL Cool J ou De La Soul (o pessoal de NY e imediações). Mas é inegável o poder de suas bases e letras, o discurso raivoso de quem tomou muita geral de policiais, principalmente no primeiro disco, de 1988, intitulado justamente Straight Outta Compton.

O filme dá conta disso e de outras coisas. Numa cena, pessoas quebram centenas de unidades do disco de estreia deles com o argumento de que rap não é música. O comentário deles, dentro do carro que os leva a uma passagem de som é “que façam o que quiserem com os discos, eles os compraram mesmo”, seguido de uma série de risadas. Antes, na geral da polícia, um dos policiais, acusado por eles de vendido por ser negro, argumenta a mesma coisa dos quebradores, que rap não é música.

Com o sucesso do disco de estreia do NWA no final dos anos 80, poucos anos antes dos tumultos raciais de 1992 (tematizados no filme), nascia o gangsta rap, para desespero dos religiosos, certinhos, puristas musicais e feministas. Straight Outta Compton, o filme, documenta esse fenômeno oriundo do gueto e causado sobretudo pela violência policial. Dá conta também que os primeiros discos solo de Ice Cube são melhores que os do NWA, assim como Dr.Dre seguiu uma carreira brilhante nos anos 90. A sequência em que vemos Cube respondendo às provocações do NWA com provocações ainda mais fortes é bem boa. Cube abria sua boca e metralhava para todos os lados, com uma base poderosa e claramente mais produzida que a de seu ex-grupo.

O que é tratado muito de passagem é a briga entre o rap da Costa Oeste e o da Costa Leste (forte sobretudo na gravadora em que Dr.Dre meteu uma grana, a Death Row). Se bem que isso é assunto para um filme inteiro, que talvez até já tenha sido feito. O filme de Gray acaba pouco antes da morte de 2Pac, com Dr. Dre anunciando sua nova empresa: Aftermath (meses depois morreria Notorious B.I.G., da Costa Leste).

No fim, o filme de Gray é até interessante, mas vale pela música mesmo. E os créditos sobem enquanto ouvimos uma das faixas mais geniais de todo a cena West Coast, “Talking to My Diary”, de Dr.Dre.

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2 Respostas

  1. Olá Sergio.
    Gosto muito do seu trabalho, principalmente no poeiracast.
    Como você vem falando bastante de “black music”, passo aqui pra recomendá-lo a comunidade The Funk and Soul Cave, bom lugar pra ouvir um som pra quem trabalha no computador.
    É mais ativa nas quartas-feiras pela noite, porém durante a semana também há gente pela tarde/noite.
    https://www.dubtrack.fm/join/the-funk-and-soul-cave

    O que você acha da Academia vir premiando bastante o trabalho do Inãrritu?

    Abraço

    1. acho que não dá para levar a sério a Academia. Obrigado pela dica, Lucas.

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