Cannes [e Portugal]

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O Festival de Cannes é circo e mercado. Mas no Brasil é tratado como coisa séria, como se os filmes que lá estiveram representassem a nata da produção mundial, como se premiações em festivais tivessem a ver com a qualidade do filme. Pior é a turma que vai adorar ou odiar Aquarius pela posição política de seu diretor. Suspeito que esses serão a grande maioria. Se 10%, pelo menos, gostar ou desgostar por questões cinematográficas, acredito que será até uma surpresa positiva. Mas a porcentagem deve ser ainda menor.

– O texto de Pedro Butcher na Folha, aliás, me parece um mau sinal sobre o filme de Kleber Mendonça Filho. “Obviedade desconcertante”? “Brasil for dummies”? Isso não me cheira bem. “Discutir questões do país virou quase um tabu”? Como assim? É o que mais vejo em nosso cinema, desde os curtas. Eu realmente não entendi. Espero que não seja essa a maior qualidade do filme.

– Alguém me mandou a coletiva de imprensa do filme em Cannes, e resolvi ver alguns trechos. Notei que em certo momento a língua portuguesa dominou o evento. Acho isso mais positivo do que os protestos cheios de sorrisos (nova modalidade de protesto) e qualquer premiação que o filme pudesse receber (não recebeu, e logo mais poderemos saber se foi injusto ou não, e o fato de sair de mãos abanando obviamente não quer dizer que o filme seja ruim). Ouvir Sonia Braga se libertar do esforço de falar em outra língua que não a dela e o jornalista português começando tudo, e também o “obrigado” de Kleber, tudo isso me soou muito bem. Devia ser sempre assim. É uma língua muito mais bonita que a inglesa, a quinta mais falada no mundo, disse o jornalista português, então deveria ser mesmo mais difundida. Muita gente deve ter achado caipira. Acho bem o contrário.

– Sobre o emprego de Kleber na Fundaj, não entendi o que tem de escandaloso nisso. Sei que ele fez um bom trabalho e tal, então me parece que as reclamações nesse sentido aconteceram muito mais por suas posições políticas do que por uma eventual ilegalidade. Só que os que o defenderam publicamente meteram os pés pelas mãos ao dizer que 3.800 de salário por um emprego sem exigência de dedicação exclusiva é pífio. Não é, e está bem longe de ser, a não ser para quem tem a vida na sombra.

Portugal, novamente. Quando disse que eles têm muito a nos ensinar, devia ter deixado claro que isso diz respeito também a nós, críticos. Conheço críticos de lá que, tendo visto bem menos filmes que eu, são capazes de pensamentos brilhantes conjugando erudição e simplicidade.

2 Respostas

  1. Quem sabe essa “santificação” dos premiados no festival seja reavaliada depois de dois anos seguidos com premiações amplamente mal-recebidas. Aconteceu ano passado, e esse ano o júri foi vaiado pelos jornalistas ao chegar na sala da entrevista coletiva.
    Outra coisa que me incomoda é esse compadrismo de sempre se selecionar as mesmas cartas marcadas: os Dardenne, Nicole Garcia, Andrea Arnold, Brillante Mendoza, Nicolas Winding Refn, Sean Penn atuando e dirigindo (que, dizem, pagou um mico sem tamanho esse ano), os filmes cada vez mais ridículos de Atom Egoyan, e o próprio Ken Loach, recordista que já competiu 15 vezes. Um ar fresco sempre é bom!
    Pra finalizar, parece haver uma certa tendência, na minha opinião de amador, de se privilegiar mais a mensagem de um filme do que a forma como ela é contada.
    Mas no fundo tudo é lobby e espetáculo como você comentou! Esperemos os filmes nos próximos meses para tirarmos nossas próprias conclusões.

    1. tem também o lado de que não se pode confiar nessas impressões iniciais de quem esteve lá cobrindo. Não por causa dos que estavam lá especificamente, mas porque um festival cheio de coisas como Cannes tende a enganar mesmo. Muitas vezes é o cansaço que joga por terra um trabalho menos vistoso, ou a empolgação eleva algo menos forte a patamares exagerados.

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