Mais pensamentos corriqueiros

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– Nunca entendi direito a grita contra a decadência da TV Cultura. De que decadência falam? Nunca vi muita TV, mas hoje, sempre que passo pelo canal, vejo algo minimamente interessante. Anos atrás eu passava e via, com frequência, Castelo Ra-Tim-Bum, que pode até ter suas qualidades, mas nunca me interessou muito. Me pergunto então se a grita não é uma espécie de protesto automático contra o horrível governo do PSDB. Se for, é tolo demais, mas não me surpreenderia. Se não for, e a decadência existir de fato, me desculpem. É que realmente não vejo muita televisão.

– Revendo Superman II num dos canais Cinemax me deparo com algo que costuma fazer rir os espectadores de hoje, a precariedade dos efeitos especiais. Capaz que numa sessão desse filme no cinema as pessoas dessem mais risadas disso do que do humor que existe na vilania caricatural de Lex Luthor e de seu ajudante, ou das caras de enfado que faz Zod, o supervilão interpretado por Terence Stamp, cada vez que um de seus comparsas se deleita com os superpoderes que ganharam na Terra. O filme tem muitas breguices, mas a direção de Lester mostra seu apuro visual (raro em filmes de super-heróis deste século), o que compensa bastante.

– Outro dia lembrei de um diálogo digno do cinema clássico americano. Reproduzo de memória. Uma menina pergunta para o pai se ele é comunista. Ele diz que provavelmente sim, e pergunta o que ela faria se tivesse em sua lancheira um delicioso sanduiche e sua amiga não tivesse nenhum e estivesse com fome. Ela responde que compartilharia seu sanduíche com a amiga. Ele sorri e diz: “temos então uma pequena comunista na família”. Ela sorri também. Claro que esse diálogo não seria possível num filme dos anos 50, e seria improvável num dos anos 40 (dos anos 30 até poderia). Acontece que é de um filme recente, Trumbo, de Jay Roach. Não é um bom filme por causa da maneira como se desencadeia a trama. Mas tem cenas fortes como essa, a nos lembrar da fórmula mágica que Hollywood no todo perdeu, mas resgata vez ou outra, como que por acidente, em partes de seus filmes recentes.


P.S. Sandra Mara Bombicino e Alfredo Sternheim fizeram comentários pertinentes ao meu tópico sobre a TV Cultura. Reproduzo ambos aqui:

Sandra Mara Bombicino:

Eu sinto muita falta do jornalismo de qualidade do 60 Minutos apresentado ao meio dia por Madeleine Alves e Carlos Henrique Correia e do Jornal da Noite apresentado pelo na falecido Rodolfo Konder e Valeria Grillo.
Era um jornalismo diferente… Nada burocrático ou previsível… Parece que tinha “alma”…
E a programação infantil então… Tinha o Glub Glub que mostrava várias formas de animação de várias partes do mundo, algumas inesquecíveis, como ” Os Amigos”… Pura delicadeza!
E tinha também o Caillou, muito “pedagógico” para pais e filhos, o X-Tudo,
Som Pop, Mundo da Lua, Confissões de Adolescente…
E o Roda- Viva! Ótimos apresentadores, entrevistadores e entrevistados…
Era certamente mais plural!
Enfim, acho que houve sim uma perda considerável de qualidade na programação.
E acho que faz muita falta, ainda mais sendo uma TV pública.
Alfredo Sternheim:
É decadência, sim, considerando o alto custo pago pelo povo, pelas leis do mecenato oficial e (ainda) as receitas de publicidade que, pelos estatutos de sua criação, não deveriam existir dessa maneira. É decadência considerando o farto espaço que dá para a produção estrangeira, para seriados como Sherlock, Mad Men e Downtown Abbey, já exibidos a exaustão em canais pagos e existentes em DVD (Enquanto isso, nada de dramaturgia brasileira). É decadência pelo pouco espaço que dá ao cinema nacional do passado; é decadência pelo amplo espaço que dá para achismos políticos (quase sempre tendenciosos), quando deveria manter a neutralidade. É decadência pela pouca atenção que dá a cultura do interior de SP. ; é decadência visível no site da emissora. Procuro saber o repertório e os integrantes do programa Clássicos, o site nunca informa assim como quem fez os filmes brasileiros jogados para a meia noite de sábado. Um site preguiçoso como a a emissora atual que precisa de revisão e transparência. Enfim , Sérgio Alpendre, uma decadência que a mídia não aponta, apesar de sair do bolso dos paulistas.

 

 

 

3 Respostas

  1. Avatar de Cleb Santiago

    E aí, Sergio! Que tal uma breve aula de cinema por aqui, faça isso para seus leitores distantes (sou do Pará). Que tal uma análise de “Alice’s Restaurant”, de 1969. Você o considera um “Filme de Cabeceira”, não? Gostaria muito de ler algo seu sobre essa pequena grande obra de Arthur Penn. Abraços!

  2. Avatar de Chico Fireman

    Sergio, você já viu a versão do Richard Donner?

    1. Avatar de Sérgio Alpendre

      Nunca vi, Chico. Tenho receio, porque não tem como existir, de fato, uma versão só dele. Mas imagino que possa ser curioso, e até instrutivo.

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