Eu, Daniel Blake

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Não são muitos os filmes de Ken Loach de que gosto. Devem ser contados nos dedos de uma mão, talvez uma e meia, e de nenhum deles eu gosto de maneira especial (não tendo visto alguns importantes como Family Life, Black Jack ou Riff Raff). Loach é sempre acadêmico, dirige como se seguisse um manual e depende demais da força do drama e dos atores para que seus filmes funcionem (acontece algo parecido com Mike Leigh; esses ingleses são meio duros para o cinema). Mas sejamos sinceros: do nível que a coisa anda, talvez seja melhor seguir um manual do que ficar tremendo a câmera como se fosse operada por um bebê. Eu, Daniel Blake é mais um de seus bons filmes (contei aqui, é o sexto de que gosto). Não é especial; seria querer demais de Loach, e provavelmente o prêmio máximo em Cannes tenha sido exagerado. Mas é um filme digno, como disse o Inácio Araujo. E dignidade, hoje em dia, como Loach reforça a cada cena, está meio fora de moda.

Daniel Blake é um carpinteiro digno que sofre um ataque cardíaco e fica impedido de trabalhar pela médica que o atendeu. Mas para conseguir o auxílio financeiro ele deve andar pelas ruas o dia inteiro procurando emprego, ou enfrentar os indignos burocratas, o que para o coração é muito pior que trabalhar. Convenhamos, mesmo o mais safado dos liberais deveria achar uma crueldade submeter um cardíaco a um troço desses. Mas o mundo está se voltando para o “cada um por si”, e o que Loach faz é protestar contra esse sentimento. Falar que se trata da Inglaterra do Brexit é um tanto óbvio. Falar que aqui no Brasil, país muito mais distante do socialismo que a Inglaterra, é pior, seria óbvio também. De certas obviedades, na verdade, já estamos bem cheios, mas fugir delas não vai fazer com que desapareçam.

Estão no filme de Ken Loach: a gente simples de Newcastle, com o sotaque carregadíssimo e o frio quase escocês; o vizinho negro que busca vencer na vida vendendo pares de tênis importados da China; a londrina que teve de emigrar com seus dois filhos por não conseguir arcar com o alto custo de vida na capital; os assistentes sociais incapazes de sair do script imposto por quem quer se ver livre de pobres; a prostituição e as imensas filas da cesta básica.

O melhor, sem dúvida, é a relação de Daniel com Katie e os filhos dela, Daisy e Dylan. Daniel é como um pai para eles, sem que haja uma atração sexual entre ele e Daisy. A coisa se dá em outro nível, mais espiritual, e talvez por isso mesmo mais necessário nestes tempos de egoísmo e arrivismo. A presença de Daniel traz leveza, conforto. Nesse sentido, o filme ameaça degringolar quando Daniel vai surpreender Katie em seu novo trabalho. A presença ali não era bem-vinda, por motivos que o espectador entende muito bem. Mas logo os trilhos são retomados para um final que, como no restante do filme, chega perto do piegas, sem ultrapassar a delicada barreira (como na cena em que Katie se desespera de fome na sala da cesta básica, ou quando Daisy conta para a mãe que na escola as outras meninas zombam de seu sapato com sola descolada). Não vira piegas graças ao tempo preciso no corte (dois segundos a mais, em alguns casos, já seria chantagem sentimental, dois a menos o recado não seria passado), e à direção sempre sóbria, atenta a uma possível invasão da intimidade do personagem. Às vezes há vantagem no academicismo.

10 Respostas

  1. Sérgio, sobre isso de um determinado diretor ser por demais acadêmico já lí algumas criticas, sobretudo do Luiz Carlos Merten do Estadão, de que o Fred Zinnemann padece de “mal”, digamos assim.

    Não leio o Merten há algum tempo, desde que a Dilma foi apeada da presidência o cara tá num chororô de dar pneumonia em pedra pome. Um chato.

    Mas o que você acha do Zinnemann ?

    1. Zinnemann é praticamente o criador do academicismo no cinema. Mas veja bem… ser acadêmico, hoje, já é um avanço. A média é pior que isso.

  2. Rodrigo Alberto Teixeira | Responder

    Sergio já vistes O Ornitologo, do João Pedro Rodrigues?

    1. ainda não.

  3. O mais recente de que gostei foi o “Sweet Sixteen”.

  4. Sérgio,
    Desculpe-me por mudar um pouco de assunto, mas voltando à Amy Adams. Vi Animais Noturnos. Ela tá uma beleza, um espetáculo, toma conta da tela interpretando só com o olhar. Coisa rara hoje em dia, hein? Também gostei do filme. Achei o roteiro interessante, até parece que temos dois filmes completamente diferentes dentro de um só.

  5. Oi Sergio. Estou muito ansioso para ver esse Daniel Blake. O fato de ter ganho a Palma de Ouro o torna quase obrigatório.
    Sergio, você já disponibilizou sua lista de melhores de 2016? Pergunto por que sempre procuro ver os filmes citados. Abraço.

    1. ainda não, Tadeu. Sempre coloco no decorrer de janeiro. Deve ser o próximo post.

  6. quais os outros 5 vc gosta, sergio?

    1. Kes, Ladybird Ladybird, Meu Nome é Joe, Jimmy’s Hall e o episódio de 11’09’01, que eu nem lembro. Acho o episódio de Tickets simpático, assim como À procura de Eric. E deu.

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