Arquivos Mensais: fevereiro \16\UTC 2018

Cinco filmes americanos

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Vi The Post, que me pareceu ser o melhor do Spielberg em muitos anos. Mas não é sobre ele que falarei aqui. É que depois que o vi parece ter se instaurado uma maldição. Todos os cinco filmes americanos atuais que vi no cinema foram decepcionantes, mesmo quando deles se esperava muito pouco. Se acrescentarmos a eles Stronger, de David Gordon Green, visto em casa, temos então seis filmes americanos contemporâneos que não limpam as botas do Spielberg. Acho triste, nesse caso. Não pelo Del Toro, por quem não derramaria lágrimas. Mas por Clint Eastwood, um dos cineastas vivos que mais admiro. Talvez escreva alguma crítica sobre esses filmes na Interlúdio, mas por enquanto deixo aqui algumas breves impressões.

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O menos pior dos cinco é Molly’s Game, que se sustenta até certo ponto graças a Jessica Chastain. Essa atriz nunca me encantou, mas ela se tornou mais talentosa (e mais bonita também). O filme é dela, não há dúvida. Mas todo o vai e vem nas mesas de pôquer me deixaram um pouco entediado. Típico filme de roteirista – Aaron Sorkin, que estreia na direção com apetite, mas sem muito controle sobre o material que escreveu.

Sobre A Forma da Água disseram ser um Amélie Poulain encontra O Monstro da Lagoa Negra, mas o filme tem pouco desses dois. Lembra mais Ladrão de Sonhos (o único Jeunet que dá para ver) com uma deturpação de A Bela e a Fera. Tem algumas ideias interessantes como o dedo que insiste em apodrecer e a amizade entre a protagonista e o vizinho homossexual, e conta com uma atriz inglesa que sempre brilhou: Sally Hawkins. Mas Del Toro não consegue contornar a deficiência da trama, que se apóia em alguns símbolos para as plateias atuais (a masturbação feminina como momento de autossuficiência, o anti-racismo, a anti-homofobia e o anti-machismo), mas com as pontas muito mal amarradas.

Sobre Linha Fantasma não tenho muito a dizer, exceto que o tédio se apossou de mim com dez minutos e não me largou mais. A direção de Paul Thomas Anderson é tão pomposa que nem os atores conseguem escapar. O diretor tem muitos admiradores aqui em Portugal. Muitos dos quais são críticos que respeito. Mas não consigo compartilhar com eles esse amor por um diretor que se cansou de imitar o Robert Altman (depois de ter imitado Scorsese), e agora procura encontrar um caminho entre James Ivory e Joe Wright. Em sua filmografia, este ganha apenas de Vício Inerente, que é o horror dos horrores.

Todo o Dinheiro do Mundo é um Ridley Scott típico. Ou seja, que promete alguma coisa quando começa e não cumpre nada, ou cumpre muito pouco, ao terminar. Christopher Plummer está bem como o sovina cuja sede por dinheiro e poder o transforma em doente (já disse alhures o que penso sobre isso: a perseguição ao poder geralmente faz os homens se tornarem doentes mentais). O filme mostra também, mais uma vez, que idas e vindas no tempo já se transformaram em academicismo dos mais pobres, e pouco de interessante se tem feito nos inúmeros filmes que usam essa estratégia, incluindo o novo de Clint Eastwood.

E falando dele, o trailer de 15:17 Trem para Paris (melhor o título português: 15:17 Destino Paris) já é desanimador. Mas Clint sempre ultrapassa as más impressões transmitidas pelos trailers em filmes minimamente dignos, quando não filmaços como Hereafter e American Sniper (duas obras que negam, a meu ver, a tese de que seu cinema deixou de ser grande após Gran Torino). Aqui, segundo filme em seguida a bater o récorde de curta duração em sua carreira, com seus meros 94 minutos (Sully tinha dois a mais), alguns elementos são interessantes: o elogio do brutamontes que se torna herói; a escalação dos próprios heróis para interpretarem eles mesmos; a união dos meninos pela inaptidão para seguir regras, que continua quando se tornam adultos; a religiosidade intensa que implica numa noção de predestinação; a tiração de sarro com Paris e a França (parece que Eastwood ficou realmente bravo com as críticas ao American Sniper e acentuou esse lado, se é que ele existia na história original). Bem, estava tudo razoavelmente interessante até a metade, mais ou menos, mas pouco para o talento de Eastwood. Esperamos o ataque terrorista, tão antecipado em flashforwards desnecessários. E quando chega o momento, a decepção aumenta. Parece que Eastwood não se empenhou muito em contornar as dificuldades de filmar num espaço fechado e o clímax perde bastante com isso. E depois surge a homenagem do encerramento, que se torna patética sem o contorno ambíguo que existia na homenagem que fecha American Sniper. E ambiguidade é algo que falta a poucos filmes de Eastwood. Talvez falte justamente aos piores. Desnecessário dizer que como é um filme de Clint Eastwood, melhor rever o quanto antes. Normalmente seus filmes menores se revelam melhores na revisão.

A Lenda da Flauta Mágica

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Quando vi A Lenda da Flauta Mágica pela primeira vez, se não me engano com um outro título (O Flautista de Hamelin, talvez, que é como a lenda e o conto são conhecidos no Brasil), provavelmente numa tarde na Bandeirantes, estava em início de cinefilia e não conhecia nada ainda de Jacques Demy. Pouco dessa visão resistiu na memória, mas ao menos uma cena foi inesquecível para mim: Donovan tocando sua flauta e uma massa uniforme de ratos indo atrás dele. Eu já sabia bem quem era Donovan, e conhecia a lenda de Hamelin que se tornou fábula nas mãos de escritores como os irmãos Grimm e Robert Browning, com citações em diversos lugares, incluindo gibis de Walt Disney. Conhecia também Jack Wild, o jovem ator com cara de moleque que já havia brilhado em Melody – Quando Brota o Amor, filme de Waris Husseim produzido pelo mesmo David Puttnam. Wild faz um jovem artista promissor em A Lenda da Flauta Mágica, e seu destino no filme é de imensa importância (o humanismo precisava fugir da barbárie do feudalismo, com suas queimações de pessoas em praças públicas e a dominação do clero, para ajudar a florescer a Renascença).

O filme era inglês, percebi. E se passava na Alemanha. Mas seu realizador não era Jack Demy, ou Joachim Demy, mas Jacques Demy. No início de cinefilia, eu atentava para essa discrepância: “como um filme passado na Alemanha e dirigido por um francês poderia ser dialogado em inglês?”. E no entanto, uma outra lembrança que tenho é que tudo isso se tornou secundário diante da poesia que eu via pela frente, ainda sem saber ao certo o que seria uma poesia cinematográfica e sem entender porque a câmera se mexia tanto.

Quase trinta anos depois, revejo o filme para um texto do catálogo editado para a mostra Jacques Demy e me espanto em ver que cada movimento de câmera é muito bem pensado e executado, e cada momento poético surge naturalmente, de uma estrutura que o possibilita, e não colocado à fórceps para conquistar pessoas que se esbaldam com qualquer tipo de poesia. A emoção, igualmente, surge do acúmulo de situações dramáticas movidas pela observação humana, do cuidado iconográfico, de uma respeitosa e cinematograficamente realista representação da Idade Média. Digo cinematograficamente porque tudo que temos de imagens da época nos levam a possibilidades diversas, como se fosse uma outra dimensão, não só uma outra época.

Não é preciso conhecer a lenda ou o conto. Também não é preciso conhecer Donovan, seus talentos de trovador, suas melodias e a voz celestial. Tampouco Jacques Demy, com seus movimentos de câmera herdados de Vincente Minnelli e dos musicais da Metro, exige do espectador que se depara com qualquer um de seus filmes um conhecimento prévio de suas obsessões. Sua grande força é a fruição.