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Crônica dos Bons Malandros

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Uma das maiores vantagens em se ter a consciência do que se pode fazer ou não em cinema, ou seja, o saber conseguir a adequação necessária entre todos os meios de filmagens e o tipo de filme que se vai fazer, é que a invenção, uma vez acertada a forma, surge com maior facilidade. Claro que disso depende um diretor que tenha talento. Mas geralmente essa consciência, por ser rara, aparece em diretores talentosos, nunca em aventureiros. Quase tudo é planejamento, já dizia o mandamento do bom autor (se é que podemos acreditar em mandamentos).

Fernando Lopes planejou sua adaptação do livro de Mário Zambuja, Crônica dos Bons Malandros, como um filme de assalto farsesco, com alguma metalinguagem e uma liberdade que não estamos acostumados a ver no dia a dia cinematográfico, e com isso conseguiu criar algo incrivelmente novo a partir de uma mistura inusitada e ensandecida de Eternos Desconhecidos (Mario Monicelli), A Morte de um Burocrata (Tomas Gutierrez Alea) e Prenom: Carmen (Godard).

A invenção surge inesperada (mesmo; é daquele tipo de filme que faz com que seja impossível prever como será o próximo plano, a próxima cena): o narrador que aparece visualmente só na segunda metade do filme; a repetição no começo, com a explicação do narrador; os números musicais deliciosamente toscos; a maneira como ele pontua a narrativa com uma série de vinhetas afilhadas da videoarte, culminando com a sequência de assalto mais sui-generis da história do cinema, uma espécie de “Tron encontra a ópera”. Tem ainda a consequência do assalto, com a perseguição policial: uma aula de como contornar as dificuldades de se fazer filme de gênero fora de Hollywood e sem um grande orçamento.

Aquele desfile acrobático de carros de polícia inserido no clímax é das coisas mais geniais que vi em cinema ultimamente. Rimos em dois níveis: das acrobacias em si e do sentimento de que estamos vendo uma demência completa e assumida no que seria inicialmente do sub-gênero filme de assalto.

A doideira é tanta que alguns críticos ou cinéfilos, ou gente de cinema no geral têm (ou tiveram) certo pudor de colocar este filme nas alturas, embora, nas suas palavras, tal colocação possa ser percebida. Vejam a nota do crítico e cineasta Joaquim Leitão: “É um filme do qual não gosto todo, mas do qual gosto muito – que consegue fazer-me rir e comover-me no mesmo plano”. De certo modo, isso bate com Carlos Reichenbach, que amava filmes tortuosos, filmes que claramente tinham partes menos sucedidas, sendo ainda assim magníficos. Quase um guilty pleasure à sua época, talvez Crônica dos Bons Malandros seja melhor apreciado hoje, quando podemos ver que esse tipo de liberdade raros cineastas têm.

Portugal anos 70: Crime de Amor e Lerpar

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O nome é genérico, mas trata-se de uma raridade do cinema português: Crime de Amor (1972), de Rafael Moreno Alba, é uma co-produção com a Espanha graças à união do ator e produtor Américo Coimbra com o produtor Victor Zapata (de Tristana). É um melodrama gótico montado segundo o modernismo cinematográfico sessentista (Resnais, Godard, Antonioni) e com uma dupla de atores de fazer corar alguns amigos noveleiros.

Américo Coimbra, galã português com trabalhos principalmente na TV e nos anos 60, interpreta o poderoso empresário que trabalha muito e viaja com frequência, deixando sua esposa, a estrela catalã Núria Espert, sozinha na maior parte do tempo. Para driblar a solidão e a carência afetiva, ela se envolve com pintores boêmios de Lisboa, e cede às investidas de um playboy chegado ao nomadismo, mas que normalmente ancora seu barco em Faro, capital do Algarve.

Apesar de ausente, o marido desconfia das longas saídas da esposa, e contrata um detetive particular para seguí-la. Esse detetive é meio desajeitado. Corre pelas ladeiras de Lisboa, deixa cair seus aparatos e causa riso na pequena plateia da sala 3 do São Jorge. Mas flagra o romance extra-conjugal. Começa assim a porção El do filme de Alba. Como na obra-prima de Buñuel, o ciúme do marido é doentio. Aqui, leva igualmente a extremos.

O filme também é doente, tortuoso, como gostava Carlão Reichenbach. Crime de Amor parece um catálogo de escolas cinematográficas: barroco, maneirista, clássico, moderno, romântico, gótico, folhetim e, sim, horror psicológico, encontram-se de forma febril neste curioso exemplar do cinema moderno português.

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De poucos anos depois é Lerpar, longa de estreia de Luís Couto sobre um jovem, José, que está claramente desiludido com o que vê à sua volta, e tenta driblar essa desilusão com garotas. Uma forma de esquecer o mal ao redor é não se apegar a nada. Principalmente porque todas as garotas que passam por ele parecem ter alguma conexão com a riqueza. Mesmo a empregada está cercada de valores de posse dos patrões e parece fazer o jogo deles na tentativa de ascender financeiramente. Os sonhos de José, nos quais ele aparece de cabelo esvoaçante, sem camisa e num fundo onírico, me lembraram os momentos mais delirantes do belo longa argentino Nazareno Cruz y el Lobo, de Leonardo Favio, curiosamente, também de 1975. Mas o que o filme de Favio tem de sobra – imaginação – no filme de Couto aparece em doses muito econômicas. Couto foi crítico e publicitário antes da realização de Lerpar. De certo modo, a segunda faceta predomina neste longa.

 

São Jorge

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Leio que São Jorge, de Marco Martins, foi o filme português escolhido para tentar uma indicação na lista de filmes estrangeiros do Oscar. Escolha coerente, já que a lista de escolhidos para essa categoria tem sido deprimente há muitos anos, com um ou outro acerto em meio a dezenas de bombas. (um amigo costumava acompanhar esses indicados, e ultimamente confessou que era mesmo uma roubada)

Vi São Jorge logo que cheguei em Lisboa, no Nimas, numa retrospectiva do circuito comercial português no ano até então (uma dessas programações Mandrake de verão, que servem para novos habitantes, como eu, tirar parte do atraso). O outro filme que vi de Marco Martins, até onde lembro, não é grande coisa, mas também não é de se jogar fora. Mas o que Alice tem de instigante, São Jorge tem de óbvio. A começar pela câmera, decalcada de O Filho de Saul, que por sua vez é decalcada dos Dardenne, que por sua vez…

Depois tem a escuridão. Alguém aqui me falou que os filmes lisbonenses atuais tendem a ser escuros, que está se pintando uma Lisboa sombria, sem muita esperança. O simbolismo pode funcionar, uma vez que a gentrificação está em pleno vapor e os miseráveis continuam a ser empurrados, até sei lá onde e até sei lá quando. Mas parece já desgastado. Essa câmera trôpega, movendo-se na escuridão e enquadrando de perto a nuca do protagonista (o cúmulo do contemporâneo, a estética da nuca), talvez não impressione mais.

Vale, obviamente, pela interpretação de Nuno Lopes, um dos maiores atores portugueses da atualidade, embora sua interpretação seja parcialmente sabotada pela câmera, e vale para um brasileiro como eu ver que a vida em Lisboa (e em Portugal) não é nada fácil e que as mesmas injustiças existem aqui aos montes  (o dinheiro, afinal, manda em tudo). Curiosamente, a amada de Nuno no filme é uma brasileira, que pensa seriamente em se mandar. Talvez tenha desistido após ver que o Brasil chegou bem antes ao inferno.