Arquivos Mensais: março \19\UTC 2018

Clint Eastwood e Além da Vida

hereafter

Revi os dois últimos terços de Além da Vida, exibido aqui no canal CineMundo (um canal melhor, na proporção, que o Netflix, o que não é difícil). Após o término deste que pode muito bem ser seu melhor filme no século 21, ao lado de Menina de Ouro, não pude deixar de lembrar das recentes reações aos últimos filmes dirigidos por ele, principalmente American Sniper e 15:17 to Paris.

Belicista, patriótico, republicano, reacionário, conservador, disseram as pessoas sem o menor constrangimento (e geralmente acompanhado de um mais constrangedor ainda “ah, ele sempre foi assim, mas os defensores não querem ver”). E, no fundo, Eastwood realizou duas dezenas de filmes, no mínimo, demonstrando uma inteligência rara, e suas entrevistas revelam uma complexidade de pensamentos que desafia rotulações simplórias como as reproduzidas acima.

É muito fácil entender, mas não o fazem sei lá por qual motivo: qualquer pessoa inteligente (para não dizer qualquer pessoa que não seja totalmente estúpida) tem múltiplos lados, ela nunca é só conservadora, ou só progressista, ou só belicista, ou só pacifista. Ela é de muitas coisas um pouco. A não ser que aja e reaja como um perfil de facebook, e não como uma pessoa de fato. Mas aí não seria inteligente, se acompanham meu raciocínio. Entendo que Eastwood pode ser chamado de muitas coisas (não de reacionário, nem de belicista, o que a meu ver seria pura ignorância), mas nunca de um modo excludente. Sim, é conservador (o que nem sempre é negativo, pois trabalhamos e lutamos pela conservação de algo que amamos ou entendemos certo e benéfico) e progressista também, assim como tem muitas outras qualidades contraditórias. Mas as pessoas parecem viver num mundo de Reality Show em que é necessário encaixar as outras dentro de comportamentos previsíveis, eliminando, ou fingindo não ver, atos que impediriam qualquer associação a isto ou aquilo.

Além da Vida é um trunfo de inteligência e precisão. O roteiro de Peter Morgan ajeita muito bem o encontro entre os três personagens, mas é necessário um diretor com enorme senso de ritmo e construção de uma narrativa para fazer dar certo. Do contrário, bastaria um bom roteiro para garantir um bom filme, e sabemos que essa relação funciona só às vezes, e muitas vezes, quando não funciona, nem temos como determinar se o problema está no roteiro ou na direção.

A cena no curso de culinária entre Matt Damon e Bryce Dallas Howard é um primor, erótica e apaixonada, quase mágica. Mas tem várias outras que estão num nível altíssimo, do melhor que o cinema já nos deu: o encontro de Cécile de France com Marthe Keller no jardim do hospital com as montanhas ao fundo, o encontro de Matt Damon com o gêmeo sobrevivente e a paciente espera do menino na porta do hotel, o encontro amoroso final com sua bela antecipação. Tenho alguma pena de quem não se emociona com esse filme.

———————————————————————

Anteriormente, em Chip Hazard:

Mestre Clint Eastwood apronta de novo e nos entrega um belíssimo filme, Além da Vida (Hereafter, 2010). Apronta porque resolve pegar três histórias que correm em paralelo para depois se encontrar, e o faz de uma maneira que me fez lembrar o grande Resnais e seu Medos Privados em Lugares Públicos. Tanta gente já se estrepou fazendo isso, esse encontro improvável de vidas distantes, que nada melhor do que dois mestres para ensinar os pobres mortais a botar as coisas nos trilhos.

Eastwood fala de contatos com os mortos, mas permanece no plano terreno. Não há coloridos exagerados como em Amor Além da Vida (filme brega e bem agradável por sinal). Não há o espiritismo exacerbado que graça hoje em dia. É sóbrio, direto, e perfeito nas cenas de impacto (o tsunami do início, por exemplo).

Estreia nesta sexta-feira, a primeira de janeiro. Vale ser revisto, e certamente estará em ótima colocação na minha lista de melhores de 2011. Algo que Invictus, adiantando a de 2010 que sai logo mais, não conseguiu.

“Grande coisa”, brada Invictus, “eu sou maior do que você”.

“Muito maior, caro Invictus, muito maior que eu e minha lista, como todos os bons filmes. Mesmo assim…”

07/01/2011

——————

Em Além da Vida, este milagre de Clint Eastwood, várias cenas me deixam boquiaberto. Uma delas: Bryce Dallas Howard chega atrasada no curso de culinária. Primeira aula. Ela é apresentada a Matt Damon, com quem deve fazer par. Faz um leve movimento no sentido de apertar a mão dele, um trivial rito de cordialidade entre estranhos. Ele se finge de distraído, pois sabe que se apertar a mão dela saberá coisas que não quer saber. Fica arregaçando as mangas da camisa, como se estivesse concentrado na aula (e ela naturalmente entenderia, já que, atrasada, estava ainda em sintonia anterior). Ela tem charme, ele logo fica interessado nela. É recíproco. Parte de sua vida é movida pela grande frustração de não poder tocar em quem lhe é atraente. Até que surge Cécile De France. É sua liberdade.

A cada revisão o filme se revela mais redondo, com maior justeza na descrição dos acontecimentos e no tom. Deveria ficar passando o ano inteiro, para iluminar nosso cada vez mais desinteressante circuito comercial.

17/05/2011

O Tempo e o Modo

quadro66

Uma parte importante de minha pesquisa para o doutorado consiste em entender um pouco melhor o contexto em que João Cesar Monteiro praticou a crítica de cinema à sua maneira mordaz, antes de se tornar o diretor de filmes celebrados como Silvestre ou Recordações da Casa Amarela. Para isso, vasculhei, entre inúmeras outras publicações, cada edição que a Cinemateca tinha da revista O Tempo e o Modo, uma publicação dedicada ao universo das letras, mas que falava de política, história e outras artes (incluindo aí cinema e música). Importantes críticos escreviam nela. Entre outros, podemos encontrar João Bénard da Costa, Antonio Pedro Vasconcelos, Lauro Antonio e nosso João Cesar Monteiro, abreviado J.C.M. no quadro de cotações que ilustra este post.

Não era comum ter esse quadro. Se não me falha a memória, essa foi a única edição em que o encontrei. Mas o que me espanta é a maneira como Barba Ruiva, filme de Akira Kurosawa que considero excepcional, foi recebido pelos seis críticos que o viram na época: todos deram a cotação mínima (como na Cahiers du Cinéma, as cotações iam de 0 a 4 estrelas). Claro que é possível argumentar que eles viram mal o filme. Mas os seis, incluindo aí o Alberto Seixas Santos, outro que depois se tornou um bom diretor? São críticos e historiadores importantes, que normalmente escreviam coisas profundas, demonstrando incrível entendimento do que é cinema. Não só, sobre a vida também. Aprendi e ainda aprendo muito com todos eles.

Creio que naquela circunstância, 1966, havia um clima ainda desfavorável a Kurosawa, sobretudo se pensarmos o que os jovens turcos influenciaram os críticos portugueses da época. Esse clima deve ter influenciado o olhar, levando a esse equívoco. Desconfio até que alguns deles mudariam de opinião depois que Kurosawa foi revisto e melhor entendido no ocidente, a partir dos anos 1970 e nos anos 80, principalmente.

Nota-se que o coração dos críticos portugueses, àquela altura, pertencia à turma da Nouvelle Vague, já que as melhores notas vão para Muriel, obra-prima desconcertante de Alain Resnais, e Alphaville, um Godard nem sempre muito amado, mas obviamente muito talentoso.

No mais, é curiosa a boa recepção ao brasileiro O Menino de Engenho, de Walter Lima Jr, assim como é decepcionante ver como Vidas Secas foi mal entendido na época aqui em Portugal. E são escandalosas as duas bolas pretas para Gertrud, obra-prima de Carl Th.Dreyer. De fato, não dar quatro estrelas para esse filme já é um escândalo. E os únicos que deram a cotação máxima são os críticos portugueses que mais gosto de ler: João Bénard da Costa e João Cesar Monteiro. Este último tem como uma de suas mais brilhantes críticas justamente uma sobre o último filme de Dreyer, que considerava o mais erótico já feito.

OBS – Integrantes do quadro:

Antonio Pedro Vasconcelos, Alberto Seixas Santos, Duarte Nuno Simões, João Bénard da Costa, João Cesar Monteiro, José Maria Torre do Valle, João Paes, Nuno de Bragança.