Oscar Wilde – Parte 2

wilde

Continuação de um post anterior, com trechos do essencial texto de Oscar Wilde sobre a crítica intitulado “A crítica e a arte” (em outras traduções, “O crítico como artista”).

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Toda a arte é imoral!

(…)

Sim. Porquanto, a emoção (pela) emoção é o fim da arte e a emoção para a ação é o fim de vida e dessa organização prática da vida, que chamamos sociedade. A sociedade, que é o começo e a base da moral, não existe senão para a concentração da energia humana; e, a fim de assegurar a sua própria duração e a sua sã estabilidade, ela pede a cada um dos seus cidadãos que contribua com qualquer labor produtivo para o comum bem-estar e desempenhe com fadiga a tarefa cotidiana.

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Parece-me que, com o desenvolvimento do espírito crítico, poderemos enfim compreender direito não somente as nossas vidas pessoais, mas ainda a vida coletiva da raça, e assim nos tornarmos absolutamente modernos, segundo a verdadeira significação da palavra modernidade. Pois aquele para quem o presente consiste exclusivamente no que é presente, nada sabe de sua época! Para compreender o 19º século, é necessário compreender cada um dos séculos que o precederam e contribuíram para a sua formação. Nada é possível conhecer de si sem saber tudo dos outros. Não deve haver humor com o qual não se possa simpatizar, nem gênero morto de vida que não possa ser ressuscitado.

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Lembre-se de minhas palavras: o crítico é criador como o artista, cuja obra pode ter apenas o mérito de sugerir ao crítico um novo estado de pensamento, de sentimento, que materializará em forma igual ou talvez superior em distinção, que tornará diversamente belo e mais perfeito, graças a um novo meio de expressão.

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Existe uma obra objetiva e uma obra subjetiva, a diferença é apenas externa, acidental e nada essencial. Toda criação artística é absolutamente subjetiva. A paisagem que Corot avistava não era mais, como ele disse, senão um estado de sua alma; e essas grandes figuras do drama inglês ou grego, que parecem possuir uma existência pessoal e independente dos poetas que as modelaram, são, em última análise, os próprios poetas, simplesmente, não tais como eles acreditavam sê-lo, mas tais como não se supunham e tais como, assim pensando, eram um instante! De fato, não podemos sair de nós mesmos e não [pode] haver na criação o que não existia no criador. Creio mesmo que, quanto mais uma criação nos parece objetiva tanto mais ela é, na realidade, subjetiva.

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GILBERTO – Os artistas se reproduzem, uns aos outros, fastidiosamente. A crítica, porém, avança e o crítico progride.

O crítico não está realmente limitado à forma subjetiva de expressão. O método do drama pertence-lhe, assim como o da epopéia. Ele pode empregar o diálogo, como aquele que fez falar Milton a Marvel sobre a natureza da comédia e da tragédia e fez Sidney discorrer com Lord Brooke sob os carvalhos de Penshurst. (…) Certamente, o diálogo, essa maravilhosa forma literária que, de Platão a Luciano, de Luciano a Giordano Bruno e de Bruno a esse velho grande pagão (*) que tanto deslumbrava Carlyle, os críticos criadores sempre empregaram, jamais perde, como meio de expressão, o seu atrativo para o pensador. Graças ao diálogo, o crítico pode revelar-se ou ocultar-se, dar uma forma a toda fantasia e realidade a qualquer estado de alma. Graças a ele, pode o crítico exibir o assunto ao redor e sob todos os aspectos, como um escultor nos mostra as imagens, conseguindo assim toda a riqueza e toda a realidade de efeito, provindas desse ladeamento sugerido pela marcha da ideia central, que mais aclara esta própria ideia, ou dessas felizes segundas miras que completam o tema central e acrescentam ainda um pouco do encanto delicado do acaso.

ERNESTO – Graças ao diálogo, pode o crítico inventar um antagonista imaginário e convertê-lo quando quiser por sofismas absurdos!

GILBERTO – Ah! é tão fácil converter os outros e tão difícil converter a si próprio! Para chegar-se àquilo em que se crê deve-se falar com lábios diferentes dos seus. (…) Ruskin faz a sua crítica em prosa imaginativa e brilha nas suas contradições e transformações; Browning faz a sua em versos brancos e expõe seus segredos ao poeta e ao pintor; Renan emprega o diálogo, Pater a ficção e Rossetti traduzia em música de sonetos a cor de Giorgione e o desenho de Ingres, o seu próprio desenho e a sua cor também, sentindo, com o instinto de quem possui muitas maneiras de exprimir-se, que a arte suprema é a literatura e que o [meio] mais belo e mais completo é o das palavras.

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ERNESTO – Eu penso que um crítico deve ser, sobretudo, imparcial.

GILBERTO – Ah, não! nunca imparcial! Um crítico não pode ser imparcial no sentido ordinário do vocábulo. Não se podem emitir opiniões imparciais senão sobre as coisas que não interessam; é sem dúvida por isso que as opiniões imparciais são sempre sem valor. O que vê as duas faces de uma questão nada vê, absolutamente. A arte é uma paixão e, em matéria de arte, o pensamento deve colorir-se, inevitavelmente, de emoção; o pensamento é fluído e não coalhado; e, dependendo de belos estados de alma e singulares momentaneidades, não pode restringir-se na rigidez de uma fórmula científica ou de um dogma teológico. É à alma que fala a arte (…). Naturalmente, não se deveria ter prevenções; mas, como observara, há um século, um grande francês, é conveniência de cada um alimentar preferências, e quando se as alimentam, deixa-se de ser imparcial! Para admirar igualmente e imparcialmente todas as escolas artísticas, só há os agentes de leilões. Não: a imparcialidade não é uma das qualidades do verdadeiro crítico, nem mesmo uma das condições da crítica. Cada forma de arte com a qual andamos em contato nos domina então, com exclusão de qualquer outra. Devemos, para lhe obter o segredo, abandonar-nos inteiramente à obra, seja ela qual for. E, durante esse tempo, não podemos e não devemos pensar em nenhuma outra.

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Às vezes o mundo vozeia contra algum fascinante e artístico poeta, para usar a velha frase tola: “Ele nada tem a dizer”. Se tivesse, porém, qualquer coisa a dizer, provavelmente o diria, e o resultado seria enfadonho. É justamente por não ter nenhuma nova mensagem que lhe é possível fazer uma bela obra. Tira a sua inspiração da forma, e apenas desta, como deve fazê-lo um artista. Uma verdadeira paixão o perderia. O que sucede realmente [não serve mais à] arte. Toda a má poeria provém de sentimentos verdadeiros. Ser natural é ser óbvio, isto é, inartístico.

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(…) a forma cria não somente o temperamento crítico, mas também o instinto estético, este infalível instinto que revela tudo em condições de beleza. Conserve o culto da forma e os segredos da arte lhe serão revelados!

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A arte dirige-se a todo temperamento sensível e não ao especialista. Ela se pretende universal e uma em todas as manifestações. O próprio artista é tão pouco o melhor juiz em arte, que um artista realmente grande nunca pode julgar as obras dos outros, e dificilmente a sua. Mesmo esta concentração de visão, que faz de um homem um artista, nele limita, por sua extrema intensidade, a faculdade de apreciar.

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Os artistas inferiores, estes admiram reciprocamente as suas obras e tomam o fato como prova da própria largueza de intelecto e de superioridade ao preconceito. Um verdadeiro grande artista, porém, jamais compreenderá que a vida possa ser exposta, ou a beleza confeccionada em condições diversas daquelas escolhidas por si. A criação emprega toda a sua faculdade de crítica em sua própria esfera, e dela não pode servir-se na esfera dos outros. É justamente por não poder um homem criar uma coisa, que ele lhe serve de bom julgador.

(…)

A criação limita a visão, enquanto a contemplação a alarga.

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A técnica é a personalidade. Aí está porque o artista não pode ensiná-la, porque o discípulo não pode adquirí-la e porque o crítico de arte pode compreendê-la. Para o grande poeta só existe um método de música: é o seu. Para o grande pintor há uma única maneira de pintar: é a sua. O crítico de arte, e somente o crítico de arte, pode apreciar todas as formas e todos os sistemas. É para ele que a arte apela…

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O crítico de arte, como o místico, é sempre um revoltado. Ser bom, segundo o ordinário ideal de bondade? Nada mais fácil! Isso exige simplesmente uma certa soma de vil fraqueza, uma certa falta de imaginação e uma certa baixa paixão pela “respectability” da classe média. A estética é mais elevada que a ética; pertence a uma esfera mais intelectual. Discernir a beleza das coisas, eis o mais alto ponto que possamos atingir.

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A criação está sempre atrasada da época. É a crítica que nos guia. O espírito da crítica e o espírito do universo formam apenas um.

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