Arquivos Mensais: janeiro \28\UTC 2018

Notas sobre filmes brasileiros recentes

boasmaneiras

– Três filmes brasileiros vistos em uma semana já longínqua de outubro me fizeram ter alguma esperança pela nova geração de realizadores. Primeiro foi Animal Cordial, de Gabriela Amaral Almeida, que ousa fazer um filme de gênero e chega até a incorporar alguns tiques contemporâneos, sem soar ridículo em momento algum. Pelo contrário: sua direção mostra um controle de ritmo que poucos atualmente têm. Conta ainda com dois grandes atores na condução: Murilo Benício e Luciana Paes. Depois vi Arábia, de Affonso Uchoa e João Dumans, que também lida com tiques contemporâneos, no caso, os do novíssimo cinema brasileiro, e os resolve de uma maneira a meu ver inédita. Esse cinema filhote do neorrealismo, que evita o melodrama muitas vezes por preconceito, chega a seu estágio máximo com esse filme pequeno, com protagonista que muda depois de uns quinze minutos e um dos flashbacks mais bem inseridos que vi no cinema brasileiro recente. Por fim, As Boas Maneiras (foto), de Juliana Rojas e Marco Dutra, é um desses raros filmes que não têm medo do ridículo, chegando à fábula via comentário social e resolvendo uma série de questões por um viés incrivelmente poético. A operação de dividir um filme em dois, aliás, é muito bem sacada. Sempre bom quando somos levados a um caminho e abandonados, tendo que retomar o caminho certo por conta própria. Isso é acreditar na sensibilidade do espectador. Amigos reclamam da segunda parte, mas acho que é nela que o filme realmente se afirma. Mas entendo: os que não comprarem essa segunda parte terão imensas dificuldades de curtir o filme no todo. Noves fora, Gabriela Amaral Almeida, Affonso Uchoa, Juliana Rojas e Marco Dutra realizaram, no sombrio 2017, seus melhores filmes.

Gabriel e a Montanha me interessa por um fator que me parece colateral: a vingança da natureza. Nos créditos, Fellipe Barbosa, o diretor, diz ter feito o filme em homenagem ao amigo, Gabriel, que desapareceu numa montanha durante sua viagem pela África. Acontece que, intencionalmente ou não, e não importa, Gabriel é retratado como um mimado à beira do insuportável, de modo que a montanha se vinga de seus caprichos, engolindo-o, mostrando quem manda de fato ali.  Além disso, Barbosa pretendeu retomar o diálogo didático que tanto me desagradou em Casa Grande (no caso, sobre as cotas), desta vez sobre uma questão mais ampla, e um tanto melhor colocada no filme, em parte porque conta com uma ótima atriz que é a Caroline Abbas. Ainda assim, Gabriel e a Montanha não passa de interessante, de modo que fico pensando se os franceses que o adoraram têm visto filmes munidos de alguma substância alucinógena.

– Percebi que alguns se incomodaram com meu texto sobre Bingo. O que posso dizer? Não faço textos para agradar a todos. Aliás, desconfio bastante quando algum texto alcança isso. Uma questão, porém, foi levantada, e acho que vale algum esclarecimento. Se a falta dos nomes e marcas reais não incomoda as pessoas, bom para elas. A mim, incomoda, ao menos nesse filme – e não incomoda, ou não incomoda tanto, em outros filmes; ou seja, é pessoal e vale para esse único filme. Mas hoje as pessoas se ofendem com pouco e fazem leituras apressadas. A combinação dessas duas coisas é terrível.

Bingo

bingo

Não sei como são essas coisas, se rola algum impedimento legal no Brasil, ou algo do tipo, mas imagino que não seria tão difícil que se assumisse tratar de Bozo, o palhaço, ao invés de inventar um nome que provoca associação imediata com um jogo. Sim, estou falando de Bingo: O Rei das Manhãs, o filme de Daniel Rezende que alguns críticos tentaram empurrar goela abaixo dos leitores como bom.

Em uma coisa o filme parece que vai acertar: no lugar comum alardeado por seu protagonista de que o Brasil não é para principiantes. Digo mais: especialmente nos anos 80 era um país alucinado. O estado de euforia provocado pela abertura e depois pelo fim da ditadura produziu um estado de quase demência coletiva que transformou a TV brasileira numa espécie de Babilônia dos tempos modernos. Muitos dos que hoje pregam a moral e os bons costumes estavam espocando a cilibrina em horário nobre ou até infantil, direto para nossa sala de estar. Existia o erotismo da Xuxa num programa infantil, a sessão de sexo explícito no Cinemania de Wilson Cunha (ok, isso veio um pouco depois, mas pertence ao mesmo espírito babilônico dos 80s), bailes de carnaval insanos sob o comando de Celso Russomano e outros guardiões da família brasileira. Como dar conta disso?

É uma das coisas que faltam em Bingo: fazer valer a máxima de que o Brasil não era (não é) para principiantes. A narrativa é confusa, mas tratada pela direçao como se fosse do Resnais. A caracterização oitentista não convence em momento algum, apesar do esforço para ecoar alguns hits da época (Devo, Nena, Tokyo) e das luzes neon que se vê hora ou outra. A viagem pelas drogas não está restrita àquela época, obviamente, então isso só não adianta para caracterizar uma época. O retrato do personagem principal parece unilateral: ele é um molecão cafajeste e ousado e pronto, que depois encontrará a salvação na igreja, como outros malucos dos anos 80. Não tem maiores nuances (não é culpa de Vladimir Brichta, ao que me pareceu). Mas o que pega mesmo é: por que não usar o nome certo, as TVs certas, os nomes das pessoas?

Entendo que uma coisa ou outra teria de mudar para não haver processo, e também para respeitar minimamente a história (Arlindo Barreto não foi o primeiro Bozo, entre outros fatos que o filme não se obrigou a levar a sério e nem precisava, pois o principal já não foi feito). Mas se querem fazer cinema comercial como em Hollywood, com pretensões ao Oscar, que se faça direito. Porque lá eles costumam dar nomes aos bois. As pessoas reais aparecem em filmes, são retratadas, assim como as emissoras, as marcas. Digo isso tendo visto há pouco tempo The Founder, sobre o oportunista que transformou uma pequena hamburgueria chamada McDonalds num império. Imaginem se no filme eles mudassem o nome para McConners, McRonnies ou coisa parecida? Seria um fracasso na certa. E esse é só um entre inúmeros exemplos despejados pelo cinema americano há anos. Aqui é essa frescura de falsear tudo, tirando a Gretchen. Acaba que o próprio filme soa falso o tempo todo.

Autenticidade é um ingrediente que não podia ter faltado dentro desse tipo de filme, sob o risco de perder o que poderia haver de charme, além da parcela do público que foi criança nos anos 80 (e que não é pequena, visto que é um filme para adultos). Dez minutos no YouTube servem melhor a quem deseja lembrar ou saber como foram os malucos anos 80 no Brasil.

Girlfriends

girlfriends

De onde veio Claudia Weill, e para onde foi? Sabemos a resposta. É comum, e até certo ponto preguiçoso, falarmos do machismo do cinema clássico americano, mas nele as mulheres eram mais fortes e tinham mais poder do que no período da chamada Nova Hollywood, quando marmanjos fecharam as portas para elas, praticamente, dificultando bastante a carreira de talentos como Weill e Elaine May, por exemplo. A primeira foi mais prejudicada. Ela assina este Girlfriends (1978), que no Brasil se chamou Duas Mulheres em Nova York. É um filme adorável em todos os aspectos, mas principalmente pelo brilho de sua atriz principal.

E por falar nela, de onde veio Melanie Mayron, e para onde foi? A resposta é mais fácil. Essa atriz que foge dos burros padrões de beleza mas exala intenso carisma veio de alguns papeis pouco marcantes em filmes de segundo escalão e depois tornou-se atriz relativamente prolífica e também diretora, a partir dos anos 1990 e especialmente para a TV. Esse é um dos maiores trunfos da Nova Hollywood (do cinema moderno em geral): valorizar atores e atrizes que são gente como a gente, rostos comuns, sem glamour. No papel de Susan, uma jovem judia que vive de pequenos trabalhos, fotografando casamentos e bar mitzvahs, além de estar perdida nas questões do coração, Mayron encanta qualquer espectador com sensibilidade maior que a de um sapo. Ela é realmente demais. E não digo isso num sentido sexual, mas num sentido em que é uma pessoa que provoca em nós uma vontade de abraçá-la, de ajudá-la em seus problemas, de ouví-la, sobretudo.

Susan tem uma força específica e uma fragilidade específica. Essas características formam uma personalidade que requer um tipo de amor que poucas pessoas podem dar, raramente homens, e raramente na hedonista década de 70. Mas ela se recusa a tentar um relacionamento com outra mulher, como também não consegue com outro homem (a não ser que este seja casado, e por isso um pouco inatingível, caso do personagem de Eli Wallach). Em seu coração, só há espaço para Annie, e isso nem ela mesma parece entender, apesar de sentir avassaladoramente.

Esteticamente, Girlfriends me lembrou o igualmente sublime Return of Secaucus Seven, de John Sayles. O tom é o mesmo, ficção contaminada pelo documentário, fazendo com que os personagens todos atuem como se não fossem personagens. O velho procedimento da câmera que parece escondida, mesmo quando está a poucos centímetros do rosto dessas pessoas. Uma pena que Claudia Weill tenha feito só mais um longa depois desse.

Os espectadores portugueses, aliás, poderão ver o filme na Cinemateca Portuguesa em fevereiro (soube disso poucos dias depois de ter visto o filme em casa).

Apenas um garoto em Nova York

The Only Living Boy in New York

Com Apenas um Garoto em Nova York, Marc Webb atinge a maturidade, após o romance indie (500) Dias com Ela e a “contemporanização” do Homem-Aranha (que depois seria ainda mais “contemporanizado”, como se fosse possível). Não vi Gifted, o filme anterior, então não sei dizer exatamente se Apenas um Garoto é a confirmação da maturidade ou a maturidade enfim.

É um filme agradável, de todo modo, apesar de alguns clichês que, mesmo trabalhados como clichês, não representam um alento, como o da separação na chuva e os ambientes de editores chiques de Nova York – e sobretudo uma mesa de jantar que parece derivação barata dos filmes de Woody Allen, principalmente pela conversa sobre os rumos que a cidade (e a literatura) tomou (a presença de Wallace Shawn informa a possibilidade de ter sido proposital a semelhança).

Hoje em dia, a maturidade de um diretor vem quando o filme é passável, ou mesmo simpático. Reflexos de nossos tempos.

Webb deixou de lado qualquer pretensão autoral (ao contrário de Allen, que acertando ou errando pensa muito na câmera) e permite que os atores brilhem. Essa tem sido a tônica da maior parte dos filmes bem-sucedidos do cinema americano, de qualquer parte entre Sundance e Hollywood. Uma vez que atrizes e atores bons despencam de árvores, melhor que a direção não se arrisque muito. Melhor também que as coisas na trama não se encaixem demais. Elas se acertam de alguma forma, mas dentro de um limite em que os futuros dos personagens permanecem incertos e abertos a felicidades e infelicidades diversas, por mais que o pior tenha passado.

No campo da interpretação, o filme é de Jeff Bridges, embora ele esteja no mesmo papel que tem interpretado nos últimos 10 ou 15 anos, ou seja, o de Jeff Bridges. Seu carisma sustenta roteiros problemáticos e direções engessadas e levanta as interpretações de quem o rodeia. Mas há também Pierce Brosnan e Kate Beckinsale, que parecem donos de beleza eterna, um ator, Callum Turner, que, com óculos de aros grossos, reforça ainda mais a semelhança com um jovem Woody Allen, e uma das atrizes mais belas da nova geração: Kiersey Clemons. Como se não bastasse, a talismã Cynthia Nixon, que arrasa como a madura Emily Dickinson em A Quiet Passion, faz o papel da mãe do protagonista alleniano, à qual é reservada uma virada importante na história.

Saudades de quando filmes assim, a que se pode assistir sem grandes sobressaltos e sem tapar os olhos para situações grotescas, eram mais corriqueiros.

Além das Palavras

quietpassion

Título besta o brasileiro para A Quiet Passion, de Terence Davies. Mas talvez o título original seja tão intraduzível, em sua aparente simplicidade, quanto a própria poesia.

É um filme sobre a vida da poetisa norte-americana Emily Dickinson. Pensado e muito bem planejado para ser uma obra de arte digna da artista retratada. Geralmente, esse cuidado excessivo dá errado. Não quando temos um diretor que tem grande segurança, imensa habilidade na encenação e sabe o que fazer com seus atores. Lembra um pouco o caso da banda britânica Zombies. Cientes de que iriam se separar, resolveram encerrar a carreira com uma obra-prima chamada Odessey and Oracle. E fizeram, sim, a obra-prima que queriam fazer, num dos raros casos em que a consciência da precisão formal constrói uma peça de inabalável beleza.

Terence Davies é de Liverpool, como os Beatles. Como bom inglês, esse diretor ainda subestimado sabe muito bem o que extrair dos atores, no tom certo, mesmo quando à beira do explícito (os planos de epilepsia) ou quando exagera no witticism (as conversas com a audaciosa srta. Buffam). Graças a esse domínio, e a alguns achados formais que não conseguem contornar o que tem de calculistas (a panorâmica que revela a clausura dos costumes, a passagem do tempo nas fotos de família, o sermão do reverendo visto só por reflexo na janela do quarto, a desilusão com o amor em forma de um sonho tenebroso), e mesmo assim impressionam dentro do conjunto tão brilhantemente amarrado, Davies fez um dos melhores filmes de 2017 entre as estreias brasileiras, senão o melhor.