Arquivos Mensais: maio \26\UTC 2016

O horror que nos cerca

– Há sessões de filmes para jornalistas, normalmente de manhã, normalmente alguns dias antes da estreia. Essas sessões são chamadas de cabines. Cinéfilos são doidos para frequentar cabines, mas a verdade é que está cada vez mais difícil ver filmes nessas sessões. Minhas três últimas cabines, durante a projeção: pessoas falando alto, luzes de smartphones e até tablets acendendo, luzes da sala acendendo, assobios insuportáveis de mensagens chegando tocando em alguns momentos. Cabines de filmes brasileiros são sempre piores. Não existe educação no Novo Afeganistão. Engana-se quem acha que se pode ver melhor um filme nessas condições. Melhor ver em casa. E por isso eu digo: viva o link.

– Evito falar de assuntos extra-cinematográficos neste espaço. Quando falo, é sobre música ou alguma outra manifestação artística. Hoje, quarta-feira 25, resolvi quebrar um pouco essa regra implícita. Porque o panorama político deste Novo Afeganistão é o pior possível. Tragédias como o estupro da moça por 30 homens no Rio de Janeiro tendem a acontecer com mais frequência. Sempre fui contra a pena de morte, mas já que passamos da barbárie, não sei mais o que defender.

Anúncios

Cannes [e Portugal]

protestoemcannes

O Festival de Cannes é circo e mercado. Mas no Brasil é tratado como coisa séria, como se os filmes que lá estiveram representassem a nata da produção mundial, como se premiações em festivais tivessem a ver com a qualidade do filme. Pior é a turma que vai adorar ou odiar Aquarius pela posição política de seu diretor. Suspeito que esses serão a grande maioria. Se 10%, pelo menos, gostar ou desgostar por questões cinematográficas, acredito que será até uma surpresa positiva. Mas a porcentagem deve ser ainda menor.

– O texto de Pedro Butcher na Folha, aliás, me parece um mau sinal sobre o filme de Kleber Mendonça Filho. “Obviedade desconcertante”? “Brasil for dummies”? Isso não me cheira bem. “Discutir questões do país virou quase um tabu”? Como assim? É o que mais vejo em nosso cinema, desde os curtas. Eu realmente não entendi. Espero que não seja essa a maior qualidade do filme.

– Alguém me mandou a coletiva de imprensa do filme em Cannes, e resolvi ver alguns trechos. Notei que em certo momento a língua portuguesa dominou o evento. Acho isso mais positivo do que os protestos cheios de sorrisos (nova modalidade de protesto) e qualquer premiação que o filme pudesse receber (não recebeu, e logo mais poderemos saber se foi injusto ou não, e o fato de sair de mãos abanando obviamente não quer dizer que o filme seja ruim). Ouvir Sonia Braga se libertar do esforço de falar em outra língua que não a dela e o jornalista português começando tudo, e também o “obrigado” de Kleber, tudo isso me soou muito bem. Devia ser sempre assim. É uma língua muito mais bonita que a inglesa, a quinta mais falada no mundo, disse o jornalista português, então deveria ser mesmo mais difundida. Muita gente deve ter achado caipira. Acho bem o contrário.

– Sobre o emprego de Kleber na Fundaj, não entendi o que tem de escandaloso nisso. Sei que ele fez um bom trabalho e tal, então me parece que as reclamações nesse sentido aconteceram muito mais por suas posições políticas do que por uma eventual ilegalidade. Só que os que o defenderam publicamente meteram os pés pelas mãos ao dizer que 3.800 de salário por um emprego sem exigência de dedicação exclusiva é pífio. Não é, e está bem longe de ser, a não ser para quem tem a vida na sombra.

Portugal, novamente. Quando disse que eles têm muito a nos ensinar, devia ter deixado claro que isso diz respeito também a nós, críticos. Conheço críticos de lá que, tendo visto bem menos filmes que eu, são capazes de pensamentos brilhantes conjugando erudição e simplicidade.

Portugal – Parte 2

licordemerda

Nem tudo reluz em Portugal, eu dizia. Esse adorável país também é consumido pela corrupção e tem uma elite podre (é o que me disseram lá, mas custo a crer que seja tão podre quanto a brasileira). Coimbra funciona meio aos trancos, mas é uma cidade belíssima, com pessoas formidáveis e super atenciosas. Aveiro tem estrutura de cidade turística. É a Veneza portuguesa, dizem. Muito, muito bonita e charmosa.

No Porto, inicialmente nada parece funcionar. O Banco do Brasil é uma piada. Nos hoteis, a internet é ruim e não pega no quarto (nos dois hoteis que fiquei pelo menos foi assim, posso ter dado azar). Me deu uma má impressão desta vez, ao menos nas duas chegadas – na primeira, não havia taxis porque todos protestavam no centro contra o Uber, e um monte de turistas se amontoavam tentando entender o negócio das zonas do metrô- a viagem ao centro de metro é caríssima, aliás; na segunda, a rodoviária escura (que eu já conhecia) e a calçada toda esburacada na saída. Uma pena. As proximidades do Douro (a ribeira) são um show, e o Museu Serralves é fantástico. Os chopes (ou melhor, finos) do fim de tarde, tendo a vista do Atlântico ao pé da foz do Rio Douro me revigorou para voltar à luta no Brasil (aka Novo Afeganistão).

Mas passemos para o campo do cinema, que é o assunto deste blog. Em Aveiro, um sábado incrivelmente chuvoso me fez ficar parte do dia no circuito comercial. Era um complexo de sete salas, no Forum Aveiro (o shopping center mais bacana que conheci). O complexo é controlado pela NOS, que parece dominar a cadeia de distribuição e exibição em Portugal (terrível isso).

Vi Capitão América: Guerra Civil, mais um insuportável videogame da Marvel, para dar a cotação no Guia da Folha (cotação que só não foi mínima porque há no filme uma interessante discussão sobre a culpa pelos acidentes causados nas batalhas dos heróis contra o mal). Na metade do filme, a exibição é interrompida de maneira tosca. Era intervalo programado pela sala para que o público fosse buscar mais pipoca. Pensei: o filme é grande, vai ver é por isso. Mas na sessão noturna, do delicioso filme de Richard Linklater, Todos Querem o Mesmo (Everybody Wants Some!!), houve também um intervalo. Diacho. Pior: a onda estúpida dos lugares marcados está aqui em Portugal também (pelo menos em Aveiro, já que nunca vi exibição de circuito comercial em outra cidade portuguesa). Ou seja, lugares marcados e intervalo em todas as sessões. Aberração, pura e simplesmente.

Cinemateca. Um exemplo, todos sabem. Muitos de seus catálogos são essenciais. Mas porque não os encontramos em livrarias de outras cidades de Portugal? Na rede Bertrand, por exemplo, ou nas Fnacs (a melhor, por sinal, é a de Coimbra). Nem em alfarrabistas (os sebos daqui) é fácil encontrar, fora de Lisboa. Os livreiros aqui tem consciência desse problema, os alfarrabistas também. Mas não há nada que possam fazer. É assim estranho mesmo que uma maravilha de acervo seja exclusividade de uma só livraria, a da própria Cinemateca. E que os excelentes catálogos feitos no passado, incluindo três dos meus preferidos, John Ford, Luis Buñuel e Nicholas Ray, estejam raríssimos de se encontrar.

DVDs. Portugal é muito bem servido de DVDs. Vários filmes portugueses são lançados (João Canijo, Paulo Rocha, Joaquim Pinto, integral João Cesar Monteiro, Manoel de Oliveira, claro, Pedro Costa, e muitos outros; e muitos clássicos americanos, além de uma enormidade de filmes franceses e europeus em geral. Tem coleções apetitosas de Béla Tarr, Satyajit Ray, Éric Rohmer, Monty Python e outras coisas. Em Blu-ray eles ficam devendo para França e Espanha. Talvez para o Brasil também. Mas quem desconfia do excesso de limpeza desses discos em full hd pode se refestelar com os DVDs. Em Coimbra, a oferta era ótima. Mas deixei para comprar no Porto e me ferrei. A Fnac do Porto é fraquinha, coitada. Me ferrei, em termos: o bolso agradece.

Revistas. Não há mais revistas portuguesas de cinema. Na Espanha são muitas, mas aqui… A Première portuguesa acabou. As francesas não chegam mais como chegavam antes (a Cahiers tem em todo lugar, mas a Positif já não se acha mais com facilidade, infelizmente). Fui achar só no bairro rico, já perto do Atlântico (aqui no Porto). Curiosamente, as revistas espanholas também não chegam. Já a Caras tem em todo lugar.

Bebidas. Esta é para encerrar com nota positiva, claro, porque não tinha como ser diferente. Cervejas muito melhores que as do Brasil, que não me deixam estragado no dia seguinte (como as da Ambev). Vinhos fantásticos (mesmo os mais baratos) e as deliciosas ginjinhas (a de Óbidos, principalmente, mas a de Albergaria é boa também). Me arrependi de não ter comprado o Licor de Merda, flagrado na foto que ilustra o post, de uma vitrine no bairro da Boavista. Que diabos de gosto deve ter isso? Não me surpreenderia se fosse uma delícia também.

Portugal – Parte 1

quartovanda

Preparo uma lista dos meus 100 filmes brasileiros de cabeceira. Lista pessoal, como todas que faço (não vejo graça nem propósito em listas ditas responsáveis, que se pretendem representativas). Listas são partes de minha autobiografia, seguindo a ideia de Tag Gallagher em “Narrativa Contra Mundo”. Nessa lista, de 2000 para cá, considero três as obras-primas (ou seja, os filmes para os quais dou cinco estrelas no sistema de cotações da Interlúdio): O Signo do Caos, Serras da Desordem e Já Visto Jamais Visto. São obras de dois diretores – Sganzerla e Tonacci – que começaram nos anos 60.

Agora atravessemos o Atlântico. Vamos a Portugal, esse país minúsculo na entrada do continente europeu, onde felizmente agora estou. Noto as seguintes obras-primas desde 2000:

No Quarto de Vanda (Pedro Costa, 2000)

Palavra e Utopia (Manoel de Oliveira, 2000)

Porto de Minha Infância (Manoel de Oliveira, 2001)

Frágil Como o Mundo (Rita Azevedo Gomes, 2001)

O Princípio da Incerteza (Manoel de Oliveira, 2002)

Vai e Vem (João Cesar Monteiro, 2003)

O Quinto Império (Manoel de Oliveira, 2004)

Espelho Mágico (Manoel de Oliveira, 2005)

Juventude em Marcha (Pedro Costa, 2006)

Wolfram – A Saliva do Lobo (Joana Torgal e Rodolfo Pimenta, 2010)

O Estranho Caso de Angélica (Manoel de Oliveira, 2010)

O Gebo e a Sombra (Manoel de Oliveira, 2012)

A Vingança de uma Mulher (Rita Azevedo Gomes, 2012)

João Bénard da Costa: Outros Amarão os Filmes que Amei (Manuel Mozos, 2013)

Cavalo Dinheiro (Pedro Costa, 2014)

15 filmes cinco estrelas. E olha que eu vi muito mais filmes brasileiros do que portugueses nesse mesmo período (e foram feitos muito mais filmes brasileiros também). Mesmo se tirarmos os filmes de Oliveira, um caso extraordinário, restam oito obras-primas no período. Quase o triplo do que tivemos no Brasil. E se pegarmos o número de filmes que se aproximam dessa excelência, Portugal continua dando um banho. No Brasil do século XXI temos tido muitos bons filmes, mas pouquíssimos grandes filmes.

A que se deve essa discrepância? Nós, que até os anos 70 (ou 80) fazíamos grande cinema, com uma imensidão de obras essenciais, ainda estamos longe de recuperar a boa forma, enquanto os amigos portugueses estão provavelmente em um de seus melhores momentos (junto do cinema novo português dos anos 60 e 70, decerto). Bruno Andrade cantou a bola anos atrás: isso se deve à Cinemateca Portuguesa, a melhor formação que se pode ter. Claro que tem mais: a própria formação escolar européia, muito mais rica do que a nossa, além de uma ideia de civilidade que é quase ausente por aqui (e será ainda mais ausente, percebemos pelos ares obscurantistas que dominam nossa sociedade).

Mas o que mais quero com este post não é criar uma rivalidade boba como a que sempre fazem entre o cinema argentino e o brasileiro. Quero apenas que atentem para a grande lição que nos dá o cinema português: pode-se filmar com pouco e chegar a muito. Um grande filme não precisa de 4 ou 6 milhões de reais para ser feito. E também pode-se exigir mais do espectador. Tonacci, Sganzerla e Bressane (e Joel Yamaji e Luiz Rosemberg) entenderam isso há muito tempo.

Claro que nem tudo reluz em Portugal. A terra de meus avós é maravilhosa, mas também tem seus problemas. Sigam os próximos capítulos.

Lamento duplo

conteopera

(Em primeiro lugar, peço desculpas pelo sumiço. Viajei para Portugal, onde estou no momento, e antes da viagem o ritmo de trabalho no Brasil foi intenso, o que me impediu de pensar neste blog, que voltará agora a sua programação normal).

Reinicio com um duplo lamento. No dia 3 de maio morreram dois amigos. Dois apaixonados por cinema. Duas pessoas que eu via pouco, apesar de uma delas ter sido muito importante em minha formação. De cá, recebi a dupla notícia com tristeza e um pouco de choque. Não soube o que dizer, e talvez não o saiba jamais.

Christian Petermann era um crítico de outra escola. Não era um admirador de seus textos, mas o conheci o suficiente para saber de sua paixão por cinema e de sua inteligência. Perdi também um aliado na luta incessante pelo ar condicionado no máximo, pois Christian era, como eu, muito calorento. Nunca conversamos muito, mas era sempre agradável reencontrá-lo em festivais ou cabines de imprensa.

conte

Francisco Conte era professor e curta-metragista (fez dois curtas em Super 8 que me agradaram bastante quando os vi, no começo dos anos 90, época em que o conheci). Desde então pedia para ele cópias desses filmes e até hoje não as tenho. Mas tenho um roteiro que ele fez e nunca filmou, do qual gostava bastante (não entendi porque ele o abandonou). Lia esse roteiro e me vinham imagens de Fassbinder. Mas essa é a menor das tristezas. Perder Conte foi como perder um mestre, mesmo que eu o visse muito menos do que gostaria (visitei-o no hospital, pouco antes de vir para Portugal; nunca imaginei que seria uma despedida). Era uma pessoa inteligente e espirituosa, cheia de frases brilhantes. Quando perguntavam sua idade, dizia que era “qualquer coisa entre o desespero e a morte”. Quando o conheci, costumava se anunciar de uma maneira bem curiosa: “eu sou aquele professor de etiqueta da Belle Époque que todo mundo achava que era francês, mas não passava de um argentino”. Não gostava muito da Nouvelle Vague porque essa geração de jovens inconsequentes troçava de um cinema que ele amava – melodramas alemães e franceses dos anos 50, sobretudo, mas muitas outras coisas. Foi ele que me deu o toque da influência da Nouvelle Vague em A Noviça Rebelde, e obviamente ele tinha razão. Aprendi muito com ele, sobretudo porque seu gosto não era nada trivial. Frequentemente discordava de meus gostos, mas quando concordava, era 100%.. Gostava de umas coisas que parece que só ele (Sissi: A Imperatriz e suas duas continuações) ou só eu e ele (Evita, do Alan Parker) gostávamos. Era um dos maiores apaixonados por cinema que eu conheci. Que encontre seus maiores ídolos no além, e que esse além tenha uma tela bem grande exibindo Marianne de ma Jeunesse em looping.