Fazendo um longa-metragem

godardfilmando

Peço que o leitor perdoe a autopromoção. É por uma boa causa.

A Inspiratorium criou um novo curso que, até onde sei, é inédito no Brasil. Nesses moldes, talvez seja inédito no mundo todo (mas aí já seria afirmar no escuro).

Trata-se da elaboração de um longa-metragem no período de um ano. Começa em março.

No processo, todo o primeiro semestre será para pensarmos cinema, estudarmos mise en scène, estilo, história, linguagem, dramaturgia, e será dividido entre mim, Joel Yamaji, coordenador dos cursos longos, e Bruno Primor, o dono idealista da escola.

Divido com eles a paixão pelo cinema e uma sintonia rara.

Pretendemos entender, durante o curso, com os alunos, o que é cinema, como está o cinema, por que certos procedimentos são escolhidos para filmar determinadas cenas ou planos, entre outras coisas pertinentes ao entendimento de cinema.

Estudaremos problemas e virtudes do cinema contemporâneo, e, claro, muito do que o cinema em toda sua história pode nos ensinar.

Bruno argumenta que pretende fortalecer o pensamento e o imaginário dos alunos, o que é fundamental para a realização de um bom filme.

Entendo que essa é a aposta correta. Um curso maior, que contemplasse mais aulas práticas, seria como quase todos os outros do Brasil (exceto que este seria para fazer um longa).

E entendo que saber técnica é importante, mas menos, bem menos, do que saber o que se faz com a técnica, e, sobretudo, o que se quer exprimir por meio de um filme.

Joel começará a trabalhar com o roteiro, então o final do primeiro semestre será já uma introdução à parte prática do curso (eu e Bruno também ajudaremos nesse processo).

Em agosto e setembro, os alunos levarão o roteiro às áreas técnicas, tais como fotografia, arte e som, quando serão realizados os desenhos específicos de cada arte.

Em outubro teremos a pré-produção e a filmagem do longa.

Em novembro e dezembro as imagens captadas serão encaminhadas à finalização, onde serão coordenadas pelos professores de montagem, edição e mixagem de som, e correção de cor.

Importante: o curso não terá mais do que dez alunos. O que significa que cada aluno será essencial ao curso, e terá, por isso mesmo, uma experiência única.

Mais informações: https://www.inspiratorium.com.br/completo-de-cinema

Tarkovski – Eterno Retorno (BH)

tarkovski

Fui convidado para acompanhar, por três dias, a Mostra Tarkovski, no Cine Humberto Mauro, Belo Horizonte. Os três dias viraram dois, uma vez que o domingo foi dedicado a trabalhos daqui de São Paulo, aproveitando que iriam exibir três longas que eu tinha acabado de rever, um deles, o que estava no melhor horário, em DCP (o que me fez desistir de revê-lo, não porque o DCP fosse ruim, mas porque já o tinha revisto num mkv majestoso em casa e há não muito tempo em película).

O que me leva a explicar que revi esses e os outros filmes feitos por Tarkovski para escrever um dos textos do enorme catálogo (466 páginas). Sou, assim, suspeito por tudo que vou escrever aqui, uma vez que trabalhei para a mostra e este texto, assim, ganha ares publicitários (no blog, espaço mais livre e descompromissado, menos mal). Confio na minha capacidade de separar as coisas e perceber problemas e carências da mostra, e todas os têm (ainda que, nos dois dias, não foi possível detectar nada de muito sério), mas entendo que o leitor não é obrigado a confiar, afinal, há um conflito de interesses em jogo. Feito o aviso, vamos em frente.

Quase todas as cópias passaram em película e quase todas as sessões tiveram lotação esgotada. A sala Humberto Mauro, com seus pouco mais de 100 lugares e sua projeção decente, parece pequena nessas ocasiões. Ou Tarkovski é que de uma hora para outra virou cineasta de salas stadium com mais de 200 lugares? A propaganda gratuita que lhe fez O Regresso, de Iñarritu, deve ter servido ao menos para isso (Robert Bird fez uma menção que me pareceu elogiosa ao embuste mexicano).

Na programação, aliás, alguns diálogos interessantes com o universo de Tarkovski: A Cor da Romã (Sergei Paradjanov), Paisagem na Neblina (Theo Angelopoulos), Morangos Silvestres (Ingmar Bergman), Contos da Lua Vaga (Kenji Mizoguchi), Mouchette (Robert Bresson), O Quarto (Chantal Akerman), O Intruso (Claire Denis), Nazarin (Luis Buñuel), Novo Mundo (Terrence Malick). Oito longas e um curta, o de Akerman, que ja valeriam uma ótima mostra, e valorizam-se ainda mais em contato com as obras do grande cineasta russo. (Novo Mundo está um tanto deslocado aí, mas vá lá).

Acompanhei o debate multilingue, resolvido com incrível habilidade pela produção, com várias línguas sendo faladas ao mesmo tempo, pois tiveram a feliz ideia de colocar tradutores ali, do lado dos debatedores, e não em cabines, com tradução simultânea por fones de ouvido (situações em que, já reparei, não consigo entender nem a língua original, mesmo quando a conheço, nem a tradução). O crítico e professor Robert Bird e Michal Leszczylowski  (montador de O Sacrifício) falaram um inglês claro, perfeitamente compreensível sem tradução. A italiana Donatella Baglivo (diretora de três documentários sobre Tarkovski) também pronunciava de forma clara, fazendo-me pensar que meu italiano não é tão terrível assim. Com os russos não tinha jeito, e a tradutora fez milagre no meio deles. Nem tanto com Evgeny Tsymbal (assistente de direção de Tarkovski e diretor de mais de 30 longas), que falava pausadamente, mas certamente com Dmitry Salynskly, cujo humor é tão lépido quanto as palavras que saem de sua boca. Uma metralhadora verbal, como há muito eu não via. Mas certamente o membro mais carismático de todo o debate. Tirando uma ou outra curiosidade de bastidores dos que trabalharam diretamente com Tarkovski, Michal e Evgeny, nada de novo foi dito para quem já leu algo sobre ele (sobretudo os livros de Michel Chion e Antoine De Baecque, e os Diários e Esculpir o Tempo, do próprio Tarkovski). Falaram dos planos longos, das panorâmicas reveladoras e dos travellings cuidadosos, da maneira como ele domina o tempo, e tentaram, em vão, combater o clichê da espiritualidade em seus filmes (alguns clichês existem porque são difíceis de serem quebrados). Mesmo Bird, que ameaçou polemizar, não saiu muito do beabá tarkovskiano.

Na segunda-feira, vi Retorno à Zona, de Nicolai Alhazov, no qual Evgeny Tsymbal leva um grupo de curiosos à locação que serviu como a Zona de Stalker. Nada mais que um extra de DVD projetado em tela grande. Mas para os curiosos, um programa leve, de 53 minutos, que não deixa de ter seu interesse. Vários outros documentários foram exibidos, dos quais só conheço Tempo de Viagem, que o próprio Tarkovski dirigiu com Tonino Guerra, e Dirigido por Andrei Tarkovski, de Michal Leszczylowski, que tem como extra do DVD brasileiro de O Sacrifício.

Vi o seminário ministrado por Robert Bird e intitulado “Modelo, Testemunha e Dissidente”, em que ele explica porque não acha Tarkovski um dissidente, preferindo se referir a ele como um auto-exilado por motivos artísticos, não por motivo político. Atencioso e didático, Bird não recuou diante de perguntas estranhas da plateia, nem diante das perguntas fora de hora (há professores que não gostam de serem interrompidos). Ele também não disse nada de novo, mas para o público que estava sendo formado ali (que não era pequeno), que tomava conhecimento da obra de Tarkovski pela primeira vez e em cujos olhos se via o brilho de uma rara descoberta, penso que foi bem valiosa toda a experiência. Que façam mais mostras desse tipo, de formação de público, que ofereçam a oportunidade de rever e pensar uma obra grandiosa em vinte dias.

Meus 20 preferidos do circuito em 2016

visita

Por que só do circuito? Porque diminuem os filmes elegíveis, diminuindo também a possibilidade de perguntas – “e tal filme?” – que mereceriam a resposta – “esse eu não vi”. Não que a pergunta me incomode, mas acho mais interessante limitar o escopo de filmes que pudessem ser escolhidos. É também a regra que utilizamos na Interlúdio, que soltará em breve a lista final da redação.

Por que um filme de 1982 em primeiro lugar? Porque esse filme só chegou ao público em 2015, tendo estreado comercialmente no Brasil em 2016.

Por que 20 filmes? Não sei. Confesso que desta vez 15 seria mais justo. Dos quatro ou cinco últimos eu não gosto o suficiente para entrar em lista de melhores. Mas sempre publiquei lista de 20 por aqui (e 10 na Interlúdio). A tradição falou mais alto.

Por que só em 19 de janeiro você solta essa lista? Porque não acredito na pressa com que as listas de melhores têm sido feitas. Sempre aproveito o fim de um ano e o começo do outro para ver alguns filmes que perdi. Neste ano foram muitos os filmes vistos só na reta final (Creepy, Certo Agora Errado Antes, Caprice, Francofonia, Academia das Musas, Invocação do Mal 2, Don’t Breathe, Dois Rémi Dois, Depois da Tempestade, entre vários outros menos interessantes).

Visita ou Memórias e Confissões (Manoel Oliveira, 1982)

Cavalo de Turim (Béla Tarr, 2011)

Os Campos Voltarão (Ermanno Olmi, 2015)

Sangue do Meu Sangue (Marco Bellocchio, 2015)

É o Amor (Paul Vecchiali, 2015)

Café Society (Woody Allen, 2016)

A Assassina (Hou Hsiao-Hsien, 2015)

Certo Agora, Errado Antes (Hong Sang-soo, 2016)

Creepy (Kiyoshi Kurosawa, 2016)

A Odisseia de Alice (Lucie Borleteau, 2014)

Jovens Loucos e Mais Rebeldes (Richard Linklater, 2016)

Caprice (Emmanuel Mouret, 2015)

Francofonia (Alexander Sokurov, 2015)

Incompreendida (Asia Argento, 2014)

Nossa Irmã Mais Nova (Hirokazu Koreeda, 2015)

O Ignorante (Paul Vecchiali, 2016)

Os Oito Odiados (Quentin Tarantino, 2016)

A Bruxa (Robert Eggers, 2015)

Sully (Clint Eastwood, 2016)

Elle (Paul Verhoeven, 2016)

 

 

Eu, Daniel Blake

idanielblake

Não são muitos os filmes de Ken Loach de que gosto. Devem ser contados nos dedos de uma mão, talvez uma e meia, e de nenhum deles eu gosto de maneira especial (não tendo visto alguns importantes como Family Life, Black Jack ou Riff Raff). Loach é sempre acadêmico, dirige como se seguisse um manual e depende demais da força do drama e dos atores para que seus filmes funcionem (acontece algo parecido com Mike Leigh; esses ingleses são meio duros para o cinema). Mas sejamos sinceros: do nível que a coisa anda, talvez seja melhor seguir um manual do que ficar tremendo a câmera como se fosse operada por um bebê. Eu, Daniel Blake é mais um de seus bons filmes (contei aqui, é o sexto de que gosto). Não é especial; seria querer demais de Loach, e provavelmente o prêmio máximo em Cannes tenha sido exagerado. Mas é um filme digno, como disse o Inácio Araujo. E dignidade, hoje em dia, como Loach reforça a cada cena, está meio fora de moda.

Daniel Blake é um carpinteiro digno que sofre um ataque cardíaco e fica impedido de trabalhar pela médica que o atendeu. Mas para conseguir o auxílio financeiro ele deve andar pelas ruas o dia inteiro procurando emprego, ou enfrentar os indignos burocratas, o que para o coração é muito pior que trabalhar. Convenhamos, mesmo o mais safado dos liberais deveria achar uma crueldade submeter um cardíaco a um troço desses. Mas o mundo está se voltando para o “cada um por si”, e o que Loach faz é protestar contra esse sentimento. Falar que se trata da Inglaterra do Brexit é um tanto óbvio. Falar que aqui no Brasil, país muito mais distante do socialismo que a Inglaterra, é pior, seria óbvio também. De certas obviedades, na verdade, já estamos bem cheios, mas fugir delas não vai fazer com que desapareçam.

Estão no filme de Ken Loach: a gente simples de Newcastle, com o sotaque carregadíssimo e o frio quase escocês; o vizinho negro que busca vencer na vida vendendo pares de tênis importados da China; a londrina que teve de emigrar com seus dois filhos por não conseguir arcar com o alto custo de vida na capital; os assistentes sociais incapazes de sair do script imposto por quem quer se ver livre de pobres; a prostituição e as imensas filas da cesta básica.

O melhor, sem dúvida, é a relação de Daniel com Katie e os filhos dela, Daisy e Dylan. Daniel é como um pai para eles, sem que haja uma atração sexual entre ele e Daisy. A coisa se dá em outro nível, mais espiritual, e talvez por isso mesmo mais necessário nestes tempos de egoísmo e arrivismo. A presença de Daniel traz leveza, conforto. Nesse sentido, o filme ameaça degringolar quando Daniel vai surpreender Katie em seu novo trabalho. A presença ali não era bem-vinda, por motivos que o espectador entende muito bem. Mas logo os trilhos são retomados para um final que, como no restante do filme, chega perto do piegas, sem ultrapassar a delicada barreira (como na cena em que Katie se desespera de fome na sala da cesta básica, ou quando Daisy conta para a mãe que na escola as outras meninas zombam de seu sapato com sola descolada). Não vira piegas graças ao tempo preciso no corte (dois segundos a mais, em alguns casos, já seria chantagem sentimental, dois a menos o recado não seria passado), e à direção sempre sóbria, atenta a uma possível invasão da intimidade do personagem. Às vezes há vantagem no academicismo.

Arrumem espaço nas prateleiras

coffy

Coffy, de Jack Hill

Os colecionadores de DVDs estão em polvorosa. Não me lembro de uma outra época com tantos lançamentos bons como os últimos dois anos. Principalmente porque a Obras-primas do cinema resolveu competir com a Versátil e tem lançado quitutes imperdíveis como as trilogias Guerra e Humanidade, de Kobayashi, e a Trilogia de Apu, de Satyajit Ray.

O último pacote que recebi da Versátil me chamou a atenção por ser especialmente apetitoso. 12 DVDs distribuídos em cinco títulos que custam uma merreca. São ao todo 21 filmes que provavelmente ultrapassam, em qualidade, todo o catálogo do Netflix (é uma provocação, não uma afirmação; a birra com o Netflix vem da constatação de que esse mercado de lançamentos de DVD tende a morrer ou ficar cada vez mais restrito por causa dessa mania maldita de streaming e os péssimos catálogos das empresas que lidam com video on demand, além desse nefasto algoritmo do gosto, uma praga a ser exterminada).

Começando pela coleção Blaxploitation, gênero que rendeu muitas picaretagens e muitas maravilhas, além de uma série de trilhas sonoras fundamentais para o soul e o funk dos anos 70. Dos quatro filmes produzidos entre 1972 e 1974, conheço e gosto de três: A Máfia Nunca Perdoa (Barry Shear), com a maravilhosa música de Bobby Womack que Tarantino usou em seu melhor filme, Jackie Brown; Coffy, um dos melhores filmes de Jack Hill, diretor que vinha de dois filmes do subgênero exploitation WIP (Women in Prison), com a presença marcante da musa Pam Grier como a grande heroína que procura vingança, além das cores mais vistosas do período; e o melhor de todos, O Chefão do Gueto, dirigido pelo talentosíssimo Larry Cohen. A meu ver, não é só o melhor da coleção, mas de todo o Blaxploitation (afirmação contestada pelo Heitor Augusto, que conhece mais filmes do gênero). O quarto é Truck Turner, de Jonathan Kaplan, com protagonismo de Isaac Hayes, grande músico de um vozeirão ao mesmo tempo sussurrado e tonitruante. A ver se sua performance como ator tem força equivalente à de sua persona musical.

De um dos mais famosos diretores negros, vale destacar a edição dupla com o grandioso Malcolm X, talvez o filme mais ambicioso de Spike Lee. Lembro que na época em que estreou no Brasil o filme recebeu críticas mornas, quando não desapontadas (não lembro se houve sequer um elogio na imprensa). Era o segundo filme seguido de Lee mal recebido por aqui, após Mais e Melhores Blues. Como fã de seus filmes, fui conferir (salvo engano, no Belas Artes, onde já havia visto Febre da Selva) e gostei bastante. Nunca revi, mas imagino que ao menos parte de sua força (a presença de Denzel Washington no papel principal, por exemplo) permaneça intacta.

A ideia de lançar uma coleção com quatro filmes ingleses de Hitchcock (A Arte de Alfred Hitchcock) parece ainda melhor quando na escolha estão três dos melhores filmes dessa fase: O Inquilino (1926), seu melhor filme mudo (ao lado de The Manxman); O Marido Era o Culpado (1936 – “não se coloca uma bomba no colo de uma criança se não for para a bomba explodir”) e Jovem e Inocente (1937), meu preferido pessoal, o filme que tem o famoso travelling que atravessa todo o salão e termina num plano fechado no olho esquerdo do assassino. O quarto filme não fica muito atrás. trata-se de A Estalagem Maldita (1939), com Charles Laughton numa adaptação de Daphne du Maurier.

Outra coleção apetitosa é a Clássicos da Sci-Fi, que em seu terceiro volume oferece mais possibilidades de voltarmos ao tempo das matinês televisivas dos anos 80. Digo isso porque a maior parte dos filmes da coleção eu via nessas sessões. Não são grandes filmes, com a exceção de Daqui a Cem Anos, de William Cameron Menzies (ainda bem que não tiraram a preposição, porque hoje em dia se tornou desesperadamente comum falar “daqui cem anos”). Guardo boas lembranças de Pânico no Ano Zero, de Ray Milland, e O Emissário de Outro Mundo, de Roger Corman, mas não os lembro como especiais, apenas como filmes agradáveis e divertidos. A memória ainda diz que Fase IV: A Destruição (1974), de Saul Bass, vale pela bizarrice e por ser o único filme dirigido pelo mestre dos créditos de filmes de Hitchcock e Preminger, entre outros. Não lembro de ter visto Colossus 1980 (1970), de Joseph Sargent, e não achei bom, na época em que estreou na TV, o badalado Repo Man de Alex Cox. Mas voltar a esses filmes será diversão garantida.

Fechando o pacote temos o sétimo (?!?!?!) volume da bela coleção de Filmes Noir. Não constam em minhas anotações cheias de falhas que nunca serão corrigidas os quatro filmes que preenchem o segundo e o terceiro DVDs da coleção: Tensão é de John Berry, diretor de bons filmes que foi redescoberto após ter sido citado por Tarantino em entrevistas; A Taverna do Caminho é do artesão Jean Negulesco, e conta com a especial (como atriz e como diretora) ida Lupino; Justiça Injusta é de Cy Endfield, um dos diretores mais prejudicados pelo macarthismo; A Noite de 23 de Maio é de John Sturges, diretor que anos mais tarde ficaria conhecido pelos faroestes Sem Lei, Sem Alma (1957) e Sete Homens e Um Destino (1960) e pelo filme de prisioneiros de guerra Fugindo do Inferno (1963). A coleção valeria só por esses filmes raros, mas no DVD 1 tem Almas Perversas, de Fritz Lang (refilmagem americana de A Cadela, de outro gênio, Jean Renoir) e Cinzas que Queimam (dirigido por Nicholas Ray, que adoeceu numa parte das filmagens e teve de ser substituído pela estrela Ida Lupino, então já diretora de grandes filmes, que não ganhou crédito).

Akira Kurosawa

naolamento

O blog precisa ser atualizado. Revi uma série de filmes de Akira Kurosawa. Não tenho tempo para comentá-los com maior profundidade. A união desses três fatos sugerem um Top 10 do diretor, uma vez que na última série de revisões de suas obras a ordem e até a presença de filmes no panteão mudou consideravelmente.

Cresceu demais, por exemplo, o quinto longa dirigido pelo diretor: Não Lamento Minha Juventude (que a Versátil lançou com o título menos poético Juventude Arrependida). É o filme que ilustra este post. Um primor de encenação, muita influência de Dovjenko e outros cineastas russos dos anos 20 e 30 além da facilidade para alcançar uma poesia que não é pré-fabricada.

Na série de revisões anterior, dois filmes que haviam subido imensamente continuam no pódio: Homem Mau Dorme Bem e O Barba Ruiva. Outro que havia subido caiu um pouquinho: Cão Danado. Kagemusha foi revisto no começo do ano para um texto da Folha e cresceu horrores também. Penso ser seu melhor filme de samurai, embora entenda as objeções de Donald Ritchie (atores muito teatrais, Tatsuya Nakadai exagerado).

Continuo achando Floresta Escondida um de seus filmes mais superestimados. Não sei se a boa vontade com esse longa vem da declaração de George Lucas, que se inspirou na dupla de fugitivos para compor C3PO e R2D2, mas entendo que a força do filme reside apenas na presença da atriz que faz a princesa, a novata Misa Uehara, que depois fez alguns poucos filmes, incluindo trabalhos com Hiroshi Inagaki e Kihashi Okamoto, e se retirou da carreira cinematográfica, infelizmente. Seria legal ver o que a geração da Nouvelle Vague aprontaria com essa presença de imensa força.

1) Não Lamento Minha Juventude (1946)

2) Homem Mau Dorme Bem (1960)

3) O Barba Ruiva (1965)

4) Kagemusha (1980)

5) Ran (1985)

6) Céu e Inferno (1963)

7) Yojimbo (1961)

8) Rashomon (1951)

9) Trono Manchado de Sangue (1957)

10) Viver (1952)

obs: Lamentavelmente ficaram fora deste top (mas poderiam entrar em outros dias), os longas O Idiota (1951) e Dersu Uzala (1975). Adoro alguns outros filmes dele, como o primeiro A Saga do Judô (seu primeiro longa), Os Sete Samurais e, ainda, Cão Danado, mas não a ponto de figurar entre os dez mais.

A Chegada é Amy Adams

arrivalamy

Se dependesse exclusivamente de Denis Villeneuve, A Chegada seria uma bobagem na linha de Interestelar. Villeneuve parece que só tem capacidade para fazer elipses, e ainda assim elipses óbvias. Quando não está apto a fazer seus malabarismos vazios, depende demais de bons roteiros e atores, como em Os Suspeitos, seu melhor filme.

Mas A Chegada tem Amy Adams, uma das raras atrizes capazes de impor seu ritmo à direção e com isso levar um filme inteiro nas costas. É sua respiração que acelera ou cadencia o filme. É por causa dela que nos emocionamos, pois quando a vemos em cena nunca vemos uma atriz desempenhando um papel, mas uma mãe, uma tradutora, uma cientista, em suma, uma mulher forte e dedicada no trabalho, com sensibilidade e inteligência para driblar as burrices e patadas dos brutamontes do exército ou dos pé-na-porta da CIA.

Não haveria homem para lhe fazer par no filme, e não há de fato. Jeremy Renner não é um mau ator, mas perto dela fica parecendo uma biribinha. Seria preciso um ator de maior presença, não necessariamente beleza: um Hugh Jackman, um Benício Del Toro (se não estivesse tão associado a bombas fílmicas) ou algo assim. Melhor ainda um Clint Eastwood, se pudesse ser transportado dos anos 80. Ou seja, para contracenar com uma atriz como Amy Adams, uma vez que o roteiro impõe essa necessidade de contraponto masculino, seria preciso um ator igualmente raro, que no momento não me vem à mente (Jackman e Del Toro são bons, mas não raros).

O risco de desequilíbrio sem esse ator era grande. Mas mesmo esse risco ela conseguiu evitar. Seu gigantismo em cena é generoso o suficiente para permitir ao menos uma interpretação digna de Renner. A se notar que até o maravilhoso Forrest Whitaker fica pequeno perto dela, o que torna a cena em que há o primeiro contato entre os dois bem engraçada, com ela tremendo de medo de assumir a tarefa e ao mesmo tempo encarando e jogando uma charada para aquela presença inicialmente ameaçadora.

Enquanto houver atuações como as dessa atriz que parece melhorar a cada ano, Hollywood ainda não terá atingido o fundo do poço. Se o filme não é grande coisa é porque todo o resto não ajuda muito. Mas ela consegue ao menos fazer com que a sessão passe sem maiores dissabores. É a arte de Amy Adams que acompanhamos por quase duas horas.

Top 10 Nagisa Oshima

gishiki2

Na revisão de vários filmes de Nagisa Oshima, mudou consideravelmente o entendimento que eu tinha de seu percurso cinematográfico. Até este ano, considerava suas melhores fases as que compreendiam os anos de 1960 e 1961 e os anos de 1967 e 1968. Agora, considero que seu ápice se deu entre 1969 e 1971, principalmente pelos filmes das pontas, o primeiro e o terceiro que realizou nesse período: O Garoto e Cerimônias, tendo um belíssimo O Homem que Deixou seu Testamento em Filme no meio.

Muitos podem argumentar que esses dois filmes da ponta são mais palatáveis para um circuito de “cinema de arte” (não gosto da expressão, nem do conceito, mas uso aqui para facilitar o entendimento), que já começava a se fortalecer naquela época. É verdade. Mas esses filmes mostram uma maturidade que faltava nos períodos anteriores, mesmo nos melhores filmes. Cerimônias é impressionante, todo estruturado em flashbacks e cerimônias para entendermos o desfacelamento de uma família. Não encontrei nada sobre, mas poderia apostar que Oshima pirou em Os Deuses Malditos, de Luchino Visconti, que me parece ser a maior referência para seu maravilhoso filme.

O Império da Paixão é outro belíssimo filme e é ainda mais formatado para um circuito de arte já fortalecido em 1978. Mas continuo não engolindo Furyo (ainda mais formatado), apesar de reconhecer nele belos momentos.

Para aqueles que esperam ansiosamente, como eu, pelo novo longa de Scorsese, O Silêncio, vale ver ou rever o longa que Oshima fez em 1962 sobre o período de perseguição dos cristãos no Japão, durante a era Tokugawa. Chama-se O Rebelde, e é o décimo colocado em minha lista (e o responsável por deixar filmes belíssimos como Canções Lascivas do Japão, Túmulo do Sol fora dos dez mais, pelo menos nesta semana).

1) Cerimônias (Gishiki, 1971) – foto

    O Garoto (Shonen, 1969)

3) Noite e Névoa no Japão (Nihon no Yoru to Kiri, 1960)

4) O Enforcamento (Koshikei, 1968)

5) Duplo Suicídio Forçado: Verão Japonês (Muri-Shinju: Nihon no Natsu, 1967)

6) A Presa (Shiiku, 1961)

7) Três Bêbados Ressuscitados (Kaette Kita Yopparai, 1968)

8) O Homem que Deixou seu Testamento em Filme (Tokyo Senso Sengo Hiwa, 1970)

9) Conto Cruel da Juventude (Seishun Zankoku Monogatari, 1959)

10) O Rebelde (Amakusa Shiro Tosikada, 1962)

A arte do “como”

cameraman

Acredito que o cinema seja a arte do “como”, não a arte do “quê”. Isso quer dizer que não importa tanto o que se mostra, mas como se mostra. Ou seja, não importa a história, mas a maneira como ela é mostrada. Por outro lado, não importa tanto “como” se fez determinado plano (como, tecnicamente), mas “por que” se fez. Fiquemos, por enquanto, com a primeira formulação.

Revi O Homem das Novidades (The Cameraman, 1928), o primeiro filme de Buster Keaton para um grande estúdio, a MGM. Sabia que no clímax, quando ele abandona a manivela da câmera e vai salvar a moça sem ficar com o crédito pelo salvamento (todinho com o rival, que nadou de medo para a margem e só muito depois foi ver se ela estava bem), o macaquinho tinha filmado tudo. Só não lembrava “como” isso era mostrado. A câmera está em Keaton, enquanto ele está desiludido porque a moça foi embora com o que ela acreditava ser seu salvador. Sem corte, a câmera faz um travelling de recuo pela margem até enquadrar o macaquinho girando a manivela, mas mantendo no quadro o nosso herói, ajoelhado, destruído, numa bela composição.

Claro que essa revelação poderia ter sido filmada de outro jeito. Mas Keaton sentiu a necessidade de mostrá-la no mesmo plano, mantendo a relação da câmera do filme com a represa sem que um corte desse ao espectador a impressão de pulo. Sábia escolha.

Pensamentos rápidos sobre a qualidade da imagem

tumulodosol

Cena de grande violência em O Túmulo do Sol, de Oshima

Reparo que hoje a maior neurose entre os cinéfilos é a qualidade de imagem. “Não é 1080p? Puxa, ok, pelo menos dá para quebrar o galho com uma cópia 720p”. E no fundo esses pequenos “pês” indicam mesmo uma diferença, assim como o formato de compressão. É melhor ver um mkv do que um avi. O sistema de compressão do matrioska é muito melhor. Mais ainda se for 720p (HD) ou 1080p (Full HD) no lugar do 480p que é do DVD, ou menos, como a maioria das imagens no YouTube.

Mas penso que o maior ganho está na passagem do VHS para o DVD, e não só pela definição superior do último, mas principalmente pelo respeito da maioria dos DVDs (algumas majors e distribuidoras de fundo de quintal a parte) ao formato de tela, o velho e bom aspect ratio. Sempre pensei ser o mais importante nos filmes. Desde que, no início da cinefilia, uma fita em que tinha gravado A Queda do Império Romano do canal Mundo, que o exibiu em scope, acabou antes do fim e eu tive de terminar o filme com uma antiga gravação da TV aberta, em fullscreen. Virou outro filme, e muito pior.

Digo isso também porque revi trechos de O Túmulo do Sol (1960), terceiro longa de Oshima, numa cópia tirada de VHS, sem muita definição, mas com o formato scope preservado. E a grandeza do filme continua lá, intacta, com o quadro pensado por Oshima sendo respeitado o tempo todo. Claro que algumas cenas escuras sofrem com isso, mas o essencial pode ainda ser visto.

Então muitas vezes acho que todos nós andamos meio chatos com esse negócio da qualidade da imagem, quando vemos filme em casa. Justamente porque a vantagem da tela pequena é comportar qualidades diversas sem muita perda, ao passo que no cinema, se o projetor estiver descalibrado e a imagem muito estourada (raramente acontece) ou muito lavada (o que é mais comum), nossa experiência é bem mais prejudicada porque essas distorções irão gritar na tela grande. Sei, contudo, que sou minoria nessa questão.