Comentário sobre Elle e Verhoeven

Elle vem dando o que falar. Paul Verhoeven conseguiu dividir feministas. Algumas dizem que o filme é misógino, outras o consideram feminista. Acho que é o suficiente para que se estabeleça a dúvida, não? Ou ninguém mais quer ouvir o outro? Teve crítica dizendo que olhar masculino não pode mais no cinema. O que, sinceramente, eu não entendo. Todo olhar é válido.
Sempre entendi Verhoeven como um misantropo, que se revela mais em alguns filmes (Spetters, O Quarto Homem, Robocop, O Vingador do Futuro, Homem Sem Sombra) e parece ter recaídas humanistas em outros (Louca Paixão, A Espiâ). Em Elle, espécie de versão em reverso de O Quarto Homem, volta à misantropia que marcou boa parte de sua carreira e apresenta um filme cheio de personagens negativos, com uma única pessoa do bem: Anna, interpretada por Anne Consigny. Todas as demais são desprezíveis. Até mesmo quem, num primeiro momento, não parece ser.
Como bom misantropo, Verhoeven busca confundir mentes confortáveis com altas doses de ambiguidade, que fazem com que qualquer julgamento determinante (feminista, machista, misógino) possa ser desmentido com uma simples revisão atenta do filme. Tem alguns descuidos (personagens caricatos demais, situações que poderiam ser melhor desenvolvidas, peças mal colocadas num tabuleiro imaginário da transgressão – por um engano tinha escrito “transcrição” no lugar de “transgressão”, ainda quero entender por quê), não atingindo o nível de inteligência que Sniper Americano atingiu nesse sentido. Por isso gosto de Elle com ressalvas, apesar de uma cena antológica como aquela em que Michèle e o vizinho fecham as janelas (em compensação, os momentos de vulgaridade que funcionam tão bem em Instinto Selvagem e Showgirls aqui simplesmente não colam).
Além disso, parece que de repente Verhoeven virou queridinho da cinefilia. Desconfio bastante dessas reviravoltas do gosto. Alguns cineastas saem de moda com muita facilidade. Outros transformam-se em intocáveis. O diretor ainda está longe de ser aquele dos anos 80 e 90. Mas pelo menos se recuperou do sofrível Traição, e continua filmando, ainda que dê a impressão que qualquer coisa que ele fizer será defendido apaixonadamente por parte da crítica. Está na hora de ele fazer o seu Saló.
TOP 10 Verhoeven
1) Robocop (1987)
2) Tropas Estelares (Starship Troopers, 1997)
3) Showgirls (1995)
4) A Espiã (The Black Book, 2006)
5) O Quarto Homem (The Fourth Man, 1983)
6) O Vingador do Futuro (Total Recall, 1990)
7) Instinto Selvagem (Basic Instinct, 1992)
8) Louca Paixão (Turkish Delight, 1973)
9) O Amante de Katie Tippel (Keetje Tippel, 1975)
10) Soldado de Laranja (Soldaat van Oranje, 1977) + Spetters (1980) + Elle (2016)
Obs.:
– Do terceiro ao quinto temos praticamente um empate técnico. As posições poderiam ser invertidas com tranquilidade.
– O empate na décima posição foi uma solução fácil para a dúvida sobre qual escolher. Ainda não revi Elle, e nunca revi Spetters, mas Soldado de Laranja cresceu consideravelmente na revisão de alguns anos atrás.
Muitos sentimentos conflitantes

Fishermen at Sea, de Joseph W. Turner
A realização profissional segue impulsionando minha vida. Convites estimulantes para cursos e textos, projetos igualmente estimulantes com amigos muito queridos, olhos brilhando de alunos – não por eu ser um oráculo (longe disso), mas por uma paixão em comum: o cinema.
Contudo, impossível estar plenamente realizado, ou mesmo feliz, com o mundo ruindo ao redor. E além de todos os acontecimentos tenebrosos dos últimos meses, recebo agora a notícia do falecimento de Leonard Cohen, o grande trovador, o único capaz de se igualar a Bob Dylan e Lou Reed na arte de cantar poesias sobre a dor humana.
A dor pode inspirar, e por isso (graças a isso) este blog deve finalmente retornar aos eixos e ser mais alimentado por textos. A dor e os clássicos japoneses (Não Lamento Minha Juventude, que filme maravilhoso que se revelou na revisão, Setsuko Hara em interpretação inesquecível) e americanos para os cursos em andamento.
Um novo curso surgirá em dezembro, provavelmente o último que darei neste ano:
40ª Mostra SP

Muitos leitores e alunos me pedem indicações para a Mostra. Não pretendia fazer, pois não costumo esmiuçar a programação e tá cheio de dicas por aí. Mudei de ideia porque cada indicação tem seu valor independente, desde que não seja movida apenas por premiações ou elogios da crítica internacional (instituições cada vez mais lamentáveis).
A mostra chega aos quarenta ainda tentando driblar a regra do ineditismo que está sempre a ameaçando no quesito relevância. Os filmes mais badalados têm ido para o Festival do Rio, que sempre foi mais pop. Acontece que nem sempre os filmes badalados são os melhores. Diria até que não acontece com tanta frequência de serem mesmo bons. Mas o drible consiste em duas estratégias que se completam: apostas em filmes menos badalados, talvez secretos, o que, com a decadência da crítica, podem ter sido negligenciados em favor de bombas e filmes da moda; apostas em homenagens e sessões especiais como forma de justificar a inclusão de filme já exibido no Rio.
Divido este post em dois: os filmes novos e os filmes das retrospectivas.
Filmes novos
Kiyoshi Kurosawa surge com um de seus dois últimos flmes, O Segredo da Câmara Escura (o outro passou no Rio). Empata. O mais recente longa de Eugène Green não é bem badalado, mas é de um diretor que deveria ser badalado, e passou só no Rio, infelizmente. O novo do Johnnie To também.
Fazendo uma homenagem a Jim Jarmusch, a Mostra deu um jeito de também exibir seu comentado Paterson, e essa é uma estratégia que deveria ser mais usada. Sempre há a desculpa, muito válida, de que “não é inédito, mas passa aqui como parte de uma programação especial”. Vale ver ainda, de Jarmusch, Estranhos no Paraíso e Daunbailó. Pena que seu melhor longa, Ghost Dog, esteja ausente. Não sei se é possível considerar que há uma retrospectiva Jarmusch. Me parece mais um meio termo indefinível. Não importa o pretexto para que se exiba seus primeiros filmes.
Elle, de Paul Verhoeven, é uma das maiores atrações da Mostra, mas deve estrear, com muito menos filas, logo após o término do evento. Melhor se concentrarem, nesse caso, na exibição de O Quarto Homem, melhor filme holandês do diretor (a se lamentar não ter uma retrospectiva completa de Verhoeven, como foi dito à boca miúda).
A seleção portuguesa está melhor que a do ano passado. Não tem filme póstumo (e genial) de Manoel de Oliveira, mas tem o belo O Cinema, Manoel de Oliveira e Eu, de João Botelho. Tem ainda o imperdível Correspondências, último de Rita Azevedo Gomes, uma das diretoras mais importantes deste século, e o ainda não visto, mas já recomendado, pelos outros filmes da diretora, Eldorado XXI, de Salomé Lamas. Porto, de Gabe Klinger, uma coprodução Portugal/EUA, vale ser conferido também. E já li coisas boas de Cartas de Guerra, de Ivo M.Ferreira. Vamos ver.
Deste lado do Atlântico, o interesse maior deve ficar com Beduíno, de Júlio Bressane, Martírio, de Vincent Carelli, e Guerra do Paraguay, de Luiz Rosemberg Filho. E também com os curtas do grande Aloysio Raulino (e com outros antigos que serão exibidos, vá lá). Há outros (longas de Rodrigo Grota e Cristiano Burlan, curta do Bodanzky, além de alguns recentes do novíssimo), mas nada que não seja possível ver em outra ocasião, com mais calma. Decepcionei-me com A Cidade do Futuro, de Cláudio Marques e Marília Hughes, os diretores do excelente Depois da Chuva. Idem com O Último Trago, dos irmãos Pretti mais Pdro Diógenes. Mas diria que vale arriscar os dois, para saber a quantas anda nossa produção jovem em sua frente mais animadora.
Claro que não se pode esquecer Paul Vecchiali, que voltou aos holofotes nos últimos anos com Noites Brancas no Píer e É o Amor, e agora chega com O Ignorante (que era O Cancro, nome mais divertido, mas acho que ficou só para Portugal). Nem os irmãos Dardenne, representados por A Garota Desconhecida. O novo de Valérie Donzelli é mais arriscado. Gosto de A Guerra Está Declarada, mas desconfio de suas preferências formais. A ver seu recente Marguerite e Julien.
Lav Diaz chega com um longa de oito horas muito bem cotado, mas não recomendo. Para mim, Diaz é um embuste. Veja por sua conta e risco. Quase o mesmo posso dizer dos filmes do casal Nicolas Klotz e Elizabeth Perceval. Não são um embuste, mas não recomendo. Brillante Mendoça não dá.
Dos americanos, eu apostaria em Animais Noturnos, pois Tom Ford é um diretor interessante. E nos filmes do já mencionado Jim Jarmusch (bom reforçar).
Tem filmes de diretores irregulares que vale conferir, caso estejam com tempo para ver muitos filmes. Jodorowski, Asghar Farhadi, Bahman Gobadi, Kore-eda. Vai que desta vez acertaram.
Fora esses todos, não recomendo seguirem premiações em festivais X ou Y ou indicações ao Oscar de filme estrangeiro. Não confio em premiações e por isso nem tomo conhecimento delas. Mesmo quando certas, não sei ao certo se foram movidas pelos critérios mais nobres, seja lá quais forem. E acredito que as premiações justas serão sempre minoria.
Retrospectivas
De Marco Bellocchio, vale destacar não só sua retrospectiva, com os essenciais De Punhos Cerrados, A China Está Próxima, A Hora da Religião e Vincere, como os dois últimos que realizou, Sangue do Meu Sangue e Belos Sonhos, que, aliás, deveriam estar no primeiro bloco, mas coloco aqui para fortalecer a recomendação em Bellocchio.
Na retrospectiva Andrzej Wajda, gosto particularmente de Kanal, Cinzas e Diamantes, Cinzas e O Homem de Mármore, com o senão de que não os revejo há mais de vinte anos. Vale programar, se possível, Geração, Terra Prometida, O Casamento, Os Inocentes Charmosos, Os Possessos e Paisagem Após a Batalha. Inácio Araujo fala maravilhas do Katyn, que eu nunca vi. Mas vi Sem Anestesia, e posso dizer: fujam. Também não sou muito chegado em Danton – O Processo da Revolução. Dos outros filmes da retrospectiva, ou não vi (dos anos 90 pra cá) ou acho bons, mas longe de imperdíveis (com o mesmo senão dos vinte anos).
Krzysztof Kieslowski era bom em sua terra natal, a Polônia, antes de concorrer com perfumarias francesas. Dele vale ver ou rever a série Decálogo, feita para a TV. Se não der pra ver tudo, deixe aqueles que foram alongados para cinema, Não Amarás e Não Matarás (que, entretanto, são muito bons), e veja pelo menos os dois últimos episódios. Além disso, terá uma sessão de curtas com o sensacional Sete Mulheres de Diferentes Idades.
Finalmente, de William Friedkin, necessário rever principalmente Operação França e Parceiros da Noite, mas também O Exorcista, O Comboio do Medo e Viver e Morrer em L.A.. E passar longe de Possuídos e Killer Joe. Se pelo menos exibissem Caçado… Acho que é o único pós Viver e Morrer que recomendo sem titubear.
Eterno retorno

Muito trabalho é bom, não me queixo. Mas este blog sofre um pouco com isso. Os cursos se aproximam, os prazos de textos idem, e o blog permanece sendo menos atualizado do que eu gostaria. No futuro, voltarei aos posts à moda Chip Hazard, ou seja, tops e brincadeiras como a do gosto/não gosto. É uma maneira de deixar a porta sempre aberta. Por enquanto, no velho estilo de atualizações, mantenho o leitor informado de meus últimos passos nesse terreno cada vez mais árido da cinefilia.
– O Silêncio do Céu é uma surpresa. Marco Dutra deu um passo essencial para o cinema de gênero no Brasil: lidar com as coisas sem firulas, diretamente, incisivamente. A atmosfera é preparada para que algo aconteça, e algo acontecerá. Algo decisivo, para todos os envolvidos no estupro de uma mulher. O marido, que viu parte do estupro, mas não foi rápido e corajoso para agir enquanto era tempo. Os estupradores, que despertaram a fúria do marido e passam a ser perseguidos por ele. A esposa, que não sabe que o marido sabe do estupro e prefere manter-se em silêncio, como ele. Esse silêncio ameaça romper a relação e é o ponto nodal de um filme cheio de complexidades. Se mal filmado, tudo estaria perdido. Felizmente, Dutra revela um claro progresso na direção. Fez um filme maduro, cheio de não ditos e hesitações, além de uma bela homenagem a De Palma no clímax.
– Um dos maiores benefícios da internet é possibilitar que vejamos filmes em casa, em boa qualidade, antes até do que em suas estreias comerciais ou festivaleiras. A diferença da tela grande, convenhamos, é cada vez menor, uma vez que o DCP tende a igualar tudo e um mkv numa tela de computador ou TV bem calibrada produz uma imagem fantástica. Claro que alguns filmes precisam da dimensão da tela, mas a qualidade das cópias que têm saído compensam bastante essa defasagem, quase a anulam. Ou seja, o cinéfilo de uma pequena cidade no interior de Tocantins pode ter a mesma experiência que o cinéfilo de São Paulo ou Rio de Janeiro, embora este possa sempre se gabar, um tanto tolamente na maioria das vezes, de ter visto o filme numa tela grande. Sempre achei que ver filme do lado de pessoas desconhecidas, que não prezam pelo mesmo amor que eu por cinema e por isso não têm o menor respeito pela ideia de ver um filme em silêncio, atrapalha muito mais a experiência do que uma tela pequena, residencial. Agora, com a maturidade forçada pelas quatro décadas e meia de vida me trazendo também mais irritações com pessoas mal-educadas, digo sem pestanejar que prefiro, normalmente, ver uma boa cópia na minha casa do que uma boa projeção de um DCP. Como as projeções de DCP que tenho visto, na maior parte, tendem a ser lavadas ou muito saturadas, a disputa fica um tanto injusta para o lado de minha casa (já fiz essa experiência diversas vezes com filmes recentes, e quase sempre a cópia doméstica é melhor que a projetada).
– Disso vem um outro pensamento. Os cinéfilos de São Paulo ou Rio de Janeiro que mantêm a curiosidade de ver as estreias cinematográficas da semana ou ver o maior número possível de filmes nos festivais de cinema só conseguem uma coisa com isso: poluir cada vez mais o olhar, deixando-o despreparado e afeito a aceitar qualquer coisa que lhe chega. O cinéfilo de uma cidade que não tem cinema, e por isso não está sujeito às más escolhas de nossas distribuidoras, pode se concentrar, se tiver discernimento para isso, nos filmes que realmente importam.
– O Lar das Crianças Peculiares segue a toada de Tim Burton há pelo menos uns 10 anos: fazer filmes bons e esquecíveis. A projeção em DCP estava esquisita, com uma moldura irritante nas laterais. Vi numa sessão vespertina, com umas dez pessoas na sala. Três delas, super barulhentas, conversando o filme inteiro como se estivessem nas casas delas (não eram jovens), sentaram na mesma fileira onde eu estava. Teria visto melhor se o filme estivesse disponível já para ver em casa.
– Encerrando com uma música de um dos meus discos favoritos. Prog italiano na cabeça.
49º Festival de Brasília – 1º dia

Ver Cinema Novo, o mais recente longa de Eryk Rocha, na abertura do 49º Festival de Brasília, pode ser uma experiência bem melancólica. Não só pelo uso das imagens de grandes filmes do cinema novo, mas também pela retomada de contato com o que os principais diretores da época falavam. Eles iam muito além do “fora, Temer” que parece dominar as mentes pensantes atuais. Tinham uma visão muito crítica do Brasil e do mundo, e tinham também autocrítica, como fica claro numa fala de Joaquim Pedro sobre O Padre e a Moça. Sabiam conviver com o diferente. Walter Hugo Khouri, chamado de alienado na época, estava com eles num encontro, e não parecia deslocado (o que não impede que a maior parte deles tivesse senões bem destacados a respeito de seus filmes). Tinham também uma ideia muito clara de como se comunicar com o espectador.
O filme de Eryk Rocha é fácil. Um amontoado de cenas de filmes melhores sem muita estrutura. As cenas se juntam meio a esmo, a não ser em alguns poucos momentos (as correrias das pessoas, as influências). Fazer um filme de colagem de grandes filmes é fácil. Difícil é dar organicidade à coisa, dar um aspecto crítico. Nesse sentido, Eugenio Puppo se saiu melhor com seu filme sobre Ozualdo Candeias. De certo modo é fácil também, mas ao menos é mais didático em sua ode a um mestre. O de Rocha não é desprezível, longe disso. Mas senti falta de maiores atritos, de uma espinha que desse conta das contradições da época. Pelo que lemos, eram muitas.
Na abertura do Festival, um ponto altamente positivo deve ser destacado. Não houve discursos intermináveis, nem babação de ovo para políticos. Foram direto para a apresentação dos filmes, que é o que mais importa, sempre.
O balanço completo aparecerá depois. Por enquanto, comentários rápidos surgirão por aqui.
Panorama do cinema japonês

Começa em outubro, no dia 11, e segue quase todas as terças rumo a dezembro meu curso Panorama do Cinema Japonês. São oito aulas dedicadas a 10 diretores (mais, na verdade, porque acrescentarei alguns outros no caldeirão).
As primeiras quatro aulas são dedicadas aos chamados mestres. Cada um capitaneará uma das aulas: Kenji Mizoguchi, Yasujiro Ozu, Mikio Naruse e Akira Kurosawa. Falarei também de outros diretores que brilharam entre os anos 20 e os anos 50: Tomu Uchida, Sadao Yamanaka, Heinosuke Gosho, Takashi Shimizu, Daisuke Ito, Minoru Murata, Masaki Kobayashi, Kaneto Shindo, entre outros, devem aparecer, pelo menos em menções, porque em oito aulas não dá para falar de todos.
As quatro últimas aulas são dedicadas à Nuberu Bagu, ou Nouvelle Vague japonesa. Nelas entram também diretores importantes dos anos 60, mas que não se consideravam pertencentes à Nuberu Bagu (caso de Imamura e Suzuki, por exemplo). Os principais diretores estudados são Nagisa Oshima, Shohei Imamura, Seijun Suzuki, Kiju Yoshida, Masahiro Shinoda e Hiroshi Teshigahara. Outros diretores entrarão na roda, sobretudo Masaki Kobayashi, Kaneto Shindo e Kon Ishikawa, nomes que, com Kurosawa, fizeram uma ponte entre a geração dos mestres e os jovens que tomaram de assalto as telas nos anos 60. O curso passa também por Masumura, Okamoto, Fukasaku, Wakamatsu, entre muitos outros. Não teremos filmes completos, como nas outras edições do curso. Isso dará mais tempo para contextualizações e para estudarmos melhor os percursos desses diretores.
Alguns autores que estudaram o cinema japonês também estão no curso: Tadao Sato, Audie Bock, Donald Richie, André Bazin, Max Tessier, Mark LeFanu, Jean Douchet, Noel Burch, Lucia Nagib, Jairo Ferreira, Carlos Reichenbach, Rogério Sganzerla, João Bénard da Costa, Robin Wood, Darrell William Davis, Noel Simsolo, Jean Narboni e muitos outros.
Sejam bem-vindos:
http://www.itaucinemas.com.br/pag/curso-panorama-do-cinema-japones
Aquarius

“Melhor dar um câncer do que ter um”. “Nós exploramos elas e elas nos roubam de vez em quando”. Com diálogos assim, que viraram meme no facebook, me espanta que o filme esteja sendo tão adorado (embora esteja longe da quase unanimidade de O Som ao Redor). O fato de que o filme foi transformado num cavalo de batalha por esperteza de seu diretor e irresponsabilidade de muitos críticos criou um clima em que a pessoa vai ao cinema, ouve um ou vários “fora, Temer”, e se sente imbuída da obrigação moral de adorar o filme, seja quais forem as imagens que surgirem em sua frente.
Gosto dos curtas de Kleber Mendonça Filho, principalmente de Noite de Sexta, Manhã de Sábado (nunca revisto). Mesmo Recife Frio, piada única que se esgota um pouco na revisão, ainda mantém certa força. Nos longas, os problemas de sua direção tornam-se mais evidentes. Desde o documentário Crítico se percebe uma estrutura frágil, mas ali não tinha muito jeito. Em O Som ao Redor também se nota essa fragilidade, ainda que melhor disfarçada pelos momentos de força vindos de uma certa estranheza da urbanidade caótica. Em Aquarius, a coisa degringola. E o maior problema, a meu ver, é tanto na estrutura (algumas cenas parecem de um outro filme, bem pior) quanto na direção de atores.
Os diálogos fracos, que sao muitos, talvez puxem as atuações do elenco para baixo, ou as atuações não melhoram os diálogos. Provavelmente as duas coisas. Kleber parece ter se preocupado tanto com o foco duplo e outras emulações de Altman e De Palma que se esqueceu de dirigir os atores apropriadamente, em adequação ao drama desenvolvido. Estão à deriva, como mostram bem as cenas de reunião familiar (exceto a de 1980) e, principalmente, a cena horrível na cozinha do apartamento (um pouco esquecida porque logo depois vem um dos momentos mais belos do filme, sobretudo pela maneira como é filmado: o da dedicatória no livro).
Mesmo Sonia Braga, de presença inegável como persona cinematográfica, dama do cinema brasileiro (melhores, contudo, são suas atuações em Dama do Lotação, Dona Flor e Seus Maridos e Eu Te Amo, e como vilã sensual em Rookie, de Clint Eastwood) está abaixo do que poderia. Ela começa o filme dando uma entrevista para um jornal (maneira de Kleber criticar a midia tendenciosa) e passa a atuar nesse modo o filme inteiro, salvo uma ou outra explosão dramática. A cena em que ela dança ao som de Roberto Carlos rivaliza em constrangimento com o rápido e entrecortado aquecimento do corpo, olhando para a câmera, antes de encontrar Irandhir na praia, logo no início. Alguém deveria ter avisado que estavam ruins demais essas cenas.
Já se falou muito do final inconcluso, e concordo com quem o considera decepcionante. Pareceu uma fuga do desfecho melodramático ou trágico que o filme parecia pedir. Ficou um anticlímax que de certo modo condiz com o tom baixo da maior parte das interpretações.
Curiosamente, o filme tem sido beneficiado por uma intensa propaganda: da Globo Filmes, poderosa coprodutora; dos jornais, que parecem estar apoiando efusivamente o filme; e da própria polarização política, utilizada por Kleber com destreza de bom marketeiro (e de quebra fez propaganda de Marcos Petrucelli também). Acho que só isso explica, de um lado, a supervalorização de muitos, de outro, a decepção de tantos outros com um filme que promete muito mais do que cumpre. Esses tantos outros, em sua grande maioria, não se manifestam publicamente. Não é a primeira vez que isso acontece. Não vejo esse silêncio como positivo para o cinema brasileiro.
P.S. No quadro de cotações da Interlúdio, duas cotações positivas mas não muito, três que estão mais para o negativo, uma totalmente negativa.
O crítico João Cesar Monteiro

Trechos da crítica de Monteiro sobre O Passado e o Presente, de Manoel de Oliveira, para o Diário de Lisboa em 1972 (é possível imaginar uma crítica assim publicada hoje?):
“Que dizer, agora, de O Passado e o Presente, a não ser que, aos 62 anos, o mais jovem dos cineastas portugueses acaba de fazer o seu maior e mais inteligente filme, precisamente numa altura em que assistimos à triste e senil decadência dos velhos senhores do cinema (vide o Visconti ou o Bresson ou o Losey, por ex.)?”
(…)
“Que o senhor tenha podido fazer o filme que fez, nas condições em que o fez, é talvez o menor dos seus méritos e o mérito maior de um esforço coletivo que, de um modo ou de outro, acaba por englobar todos aqueles que se tem batido por uma dignificação do coitado do cinema português.
Sinto-me perfeitamente à vontade para dizer isto, pela simples razão de o meu contributo, nesse sentido, ter sido absolutamente nulo. Nunca quis, nem quero, dignificar coisa nenhuma e, muito menos, o cinema português.
Além do mais, e para simplificar, antipatizo consigo. Se quiser, é uma antipatia de classe, feroz e desdenhosa. Irremediável. Há ainda o seu inconcebível catolicismo de catequista que (diga-se) se traduz num humanismo bolorento e charlatão sempre que o senhor sacrifica o discurso cinematográfico a uma verborreia pseudo-literária para se dar ares de carpideira filosófica preocupada com os pecados do mundo.”
(…)
“O Passado e o Presente não é o reflexo de um mundo; é um mundo que a si próprio se espelha e objectiviza. As personagens do filme são espelhos de si próprios (e só) e com elas o uso dos espelhos perde a sua habitual função de objeto de um “décor” para introduzir uma dimensão especular que só admite, todavia, o seu próprio espetáculo. “Não há dúvida que estamos aqui”, diz-se no começo do filme. Aqui, onde? Indubitavelmente, num filme.”
(…)
“Sistematicamente construído e organizado sobre a noção do duplo, O Passado e o Presente sutilmente se encerra no jogo de sua duplicidade. Jogo entre o que vê e o que é visto, entre o que mostra e o que esconde, O Passado e o Presente é, por excelência, o filme da festa do olhar. É, pois, a extensão e a qualidade do olhar que produz, regula e determina o movimento mais profundo e mais violento do filme: o movimento eminentemente erótico. Que me recorde, e se a memória não me trai, só encontro em toda a história do cinema um filme tão violentamente erótico como o filme de Manoel de Oliveira. Trata-se (curiosamente) do filme mais subestimado e incompreendido de Dreyer: Gertrud.”
(…)
“Resta dizer que, como todos os grandes e revolucionários filmes, também este tem o condão de desmascarar os imbecis e de propor uma lição de modernidade cinematográfica para quem quiser e puder entender.”
Fora do cinema

De vez em quando, gosto de escrever sobre outros assuntos. Quando isso acontece, busco alguma capa ruim de disco. Desta vez a escolhida foi a capa de um bom disco de 1979 da boa banda Riot. Feito o aviso, meu lado rabugento se impõe:
– Neymar vitorioso, medalha de ouro no pescoço, fala para Cícero Melo, da ESPN, que sabe ter sido muito criticado pelo canal, mas não paga “mal com mal”. Essa é a ideia que o brasileiro tem da crítica (e falo do brasileiro no geral, sabendo das exceções, porque o conheço bem, ando muito nas ruas, de ônibus, metrô, e ando sem fones de ouvido, ou seja, ouço o que as pessoas falam). Não entendem que na verdade só critica quem ama. Porque não existe crítica sem amor. Pode até se disfarçar de crítica, mas é só disputa de espaço, vaidade, vingança ou alguma outra coisa, se não tem amor. Quem critica filmes ama o cinema. Críticas constroem, adesões automáticas, elogios fáceis e bajulações destroem.
– Aliás, sempre que ouvi alguém falando em crítica da crítica o que veio a seguir é a mais pura besteira. Não que a crítica da crítica seja algo impossível. Mas é que normalmente é pleiteada por quem não tem a menor noção do que é a crítica.
– Ufanistas vão chiar, mas achei esse ouro no Volei bem esquisito. Em pelo menos dois momentos decisivos em que a Itália não tinha mais desafios a pedir a decisão do juiz, protestada pelos italianos, foi favorável ao Brasil. Até aí, normal. Mas não houve replay desses momentos, e isso me parece suspeito. O comentarista Maurício Jahu falou de invasão do Wallace, mas o desafio brasileiro se referiu ao toque dos italianos. Não entendo muito das regras do volei, mas tudo isso me pareceu um tanto tendencioso. Tenho birra com essa seleção desde que jogaram para perder num torneio poucos anos atrás. Com lances assim, não reprisados pela televisão em dois sets definidos em pequenos detalhes, fica um clima forte de ajuda exterior nessa vitória.
– Que os ânimos estão exaltados não é novidade. E a maldita mania de se opinar sobre todos os assuntos parece ter contaminado 3/4 de mundo ou mais. Mas temo que os limites já tenham sido ultrapassados há um tempo nas redes sociais. Não conheço André Forastieri pessoalmente, mas conheço gente que o conhece. Nunca ouvi uma queixa sequer dele, pelo contrário, só coisas boas sobre sua índole, e para mim é isso que vale. Ele tem, sim, um lado polemista meio besta, e eu discordo de 90%, mais ou menos, do que ele escreve quando movido por esse lado. Mas por que ele haveria de escrever para que eu concordasse? Ou para que as pessoas concordassem com ele? Para isso já existem os inúmeros pregadores para convertidos que andam por aí, geralmente os mesmos que, na vida real, puxam tapete, ignoram presenças de trabalhadores que eles consideram inferiores, e outras coisas típicas desses falsos humanistas de facebook. Já li coisas absurdas ditas contra Forastieri; que é um lixo, que merece ter morte bem lenta e sofrida, e coisas afins. Não vou cometar o erro de achar que essas pessoas que agem como fascistas no facebook o são também na vida real. Mas se exibem na rede como fascistas e já passaram do ponto, sendo muito pior do que aqueles que elas condenam.
– Nas últimas rodadas do primeiro turno do Brasileirão, o Corinthians, meu time, foi ajudado, sim. Cássio devia ter sido expulso contra o Figueirense (muito longe do fim do jogo), e fez penalti no jogo seguinte, contra o Cruzeiro (mas ele não devia ter jogado, e em seu lugar jogaria o Walter, em melhor fase, vejam a ironia), mas o juíz ignorou a infração, que aconteceu ainda no primeiro tempo. O Palmeiras foi ajudado em dois jogos também. Conseguiu o empate contra o Chapecoense num penalti totalmente inventado nos últimos minutos do jogo. E a vitória contra o Inter porque o juíz não quis ver o salto no vácuo com joelhada dado pelo Zé Roberto no jogador colorado, aos 43 do segundo tempo. Na ESPN, canal que sigo e considero o melhor em matéria de esporte, as ajudas para o Corinthians, que renderam apenas dois pontos, foram muito lembradas e tratadas como um escândalo (até mesmo quando o assunto era outro), principalmente pelo Mauro Cezar, um dos meus comentaristas preferidos (porque sempre crítico), mas que têm revelado uma tendência assustadoramente parcial ultimamente. Enquanto isso, pouco se falou das ajudas ao Palmeiras, que renderam ao time três pontos, um a mais que as ajudas ao Corinthians. Parece não existir imparcialidade no jornalismo futebolístico.
“I’m back”

– De volta a este blog. Sou como o personagem de Paul Newman em A Cor do Dinheiro, filmaço de Scorsese. Ou seja, “I’m back”.
– Depois de um longo verão, nova edição da Interlúdio no ar, com mini-dossiê Sam Peckinpah, dois textos sobre o novo filme de Anna Muylaert, dois textos sobre o novo filme de Neville D’Almeida, mais Rita Azevedo Gomes, Guerin, Almodóvar, Metrópolis por Buñuel, Caça-Fantasmas, uma reflexão sobre a importância de ser arte e muitas coisas mais. Eis o link:
– No início de agosto ministrei três aulas sobre o cinema de Luchino Visconti. Foi ótimo retomar algumas leituras, descobrir outras e rever todos os filmes, incluindo curtas e episódios, rever mais uma vez O Leopardo e desta vez descobrir um filme ainda mais louco do que eu lembrava, enfim, retomar o contato com um dos maiores diretores do cinema. Devo publicar algo mais sobre Visconti nas próximas semanas, na Interlúdio. Aqui, por enquanto, um TOP 10:
1) O Leopardo (Il Gattopardo, 1963)
2) Ludwig (1973)
3) Rocco e Seus Irmãos (Rocco i Suoi Fratelli, 1960)
4) Morte em Veneza (Death in Venice, 1971)
5) Violência e Paixão (Gruppo di Famiglia in un Interno, 1974)
6) O Inocente (L’Innocente, 1976)
7) Sedução da Carne (Senso, 1954)
8) A Terra Treme (La Terra Trema, 1948)
9) Os Deuses Malditos (The Damned, 1969)
10) Um Rosto na Noite (Le Notti Bianche, 1957)
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obs: os oito primeiros são obras máximas do cinema.