Ranking Steven Spielberg

Dias atrás, Roberto Sadovski organizou todos os longas de Spielberg em sua ordem de preferência, do pior ao melhor. Ontem foi a vez de Gabriel Carneiro. E de Ronald Perrone (a lista menos diferente da minha). Mais gente deve ter feito isso, mas não vi. Para movimentar este blog e respirar um pouco depois do genial Oscar Wilde (que voltará em breve), resolvi brincar também. Só que eu não irei rever os filmes. Vai de memória. Eles gostam muito mais de Spielberg do que eu, afinal. E ainda não vi o último, nem sei quando verei, então minha lista terá 29 longas.
29. Hook
28. A Cor Púrpura
27. Cavalo de Guerra
26. Amistad
25. A Lista de Schindler
24. As Aventuras de Tintin
23. Além da Eternidade
22. Parque dos Dinossauros
21. O Império do Sol
20. Ponte dos Espiões
19. Lincoln
18. O Terminal
17. O Resgate do Soldado Ryan
16. Guerra dos Mundos
15. Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal
14. Parque dos Dinossauros 2
13. Munique
12. Indiana Jones e o Templo da Perdição
11. Minority Report
10. 1941
09. Prenda-me se For Capaz
08. Louca Escapada
07. E.T.
06. A.I. Inteligência Artificial
05. Tubarão
04. Encurralado
03. Os Caçadores da Arca Perdida
02. Indiana Jones e a Última Cruzada
01. Contatos Imediatos do Terceiro Grau
observações:
– Gostar mesmo, com a boca cheia, só dos seis primeiros. Dos demais, gosto com reservas (7 a 11), gosto com muitas reservas (12 a 16), gosto e desgosto na mesma medida (17 a 25) ou não gosto de jeito nenhum.
– Sim, meu Indiana preferido é o terceiro, a meu ver, aquele em que o tema da ausência do pai, burilado em Contatos Imediatos, volta com maior força.
– Não gostei dessa ideia de colocar os títulos do pior para o melhor. Agora já foi, mas espero me lembrar no futuro de não fazer mais isso.
– Contrariamente a maior parte dos críticos que admiro, vejo algumas qualidades em A Lista de Schindler, o que não anula aquele catártico mergulho final no esterco artístico, infelizmente.
Oscar Wilde

Trechos do essencial ensaio em forma de diálogo “O Crítico como Artista” (tradução de João do Rio, de 1911, adaptada para o português atual para a edição da Imago, 1992):
Sem o espírito crítico não há criação artística alguma digna deste nome.
—
Em uma época que não possui crítica de arte, a arte não existe, ou então é hierática, confinada à reprodução de tipos antigos. Certas idades da crítica não foram criadoras no sentido usual do termo; bem o sei: o espírito do homem buscava nelas inventariar os próprios tesouros, separar o ouro da prata e a prata do chumbo, avaliar as jóias e nomear as pérolas. Porém, todas as idades criadoras foram também críticas. Pois que é o espírito crítico que engendra as formas novas. A criação tende a repetir-se. Ao instinto crítico é que se deve cada nova escola que se ergue, cada fôrma que a arte encontra pronta para seu pé.
—
Para conhecer o valor de uma colheita e a qualidade de um vinho é inútil beber toda a pipa! Em meio pode-se com facilidade dizer se um livro é bom ou não presta. Se se tem o instinto da forma bastam dez minutos.
—
Mais difícil fazer alguma coisa que falar dela? Absolutamente não! Isto é um grande erro habitual. É muito mais difícil falar de uma coisa que praticá-la. Na vida, nada de mais evidente. Quem quer que seja pode fazer história, mas somente um grande homem poderá escrevê-la.
—
Quando um homem se agita é um títere. Quando descreve é um poeta.
—
[Gilberto] Porém a crítica é também uma arte! E, assim como uma criação artística implica o funcionamento da faculdade crítica, sem o que ela não existiria, assim também a crítica é na verdade criadora na mais elevada acepção do termo! Ela é afinal criadora e independente.
[Ernesto] Independente?
[Gilberto] Sim, independente. A crítica não deve ser, assim como a obra do poeta ou do escultor, julgada por não sei que baixas regras de imitação ou semelhança. O crítico ocupa a mesma posição em relação à obra de arte que o artista em relação ao mundo visível da forma e da cor, ou o invisível mundo da paixão e do pensamento.
—
Sim, da alma. Porque a crítica elevada é na realidade a exteriorização da alma de alguém! Ela fascina mais que a história pois que não se ocupa senão de si própria. É mais deliciosa que a filosofia, porque o seu assunto é concreto e não abstrato, real e não vago. É a única forma civilizada da autobiografia, pois se ocupa não dos acontecimentos, porém dos pensamentos da vida de alguém, não das contingências da vida física, porém das paixões imaginativas e dos estados superiores da inteligência. Sempre achei graça na tola vaidade desses escritores e artistas da nossa época que acreditam ser a função primordial do crítico o discorrerem sobre suas medíocres obras. O melhor que se pode dizer da arte criadora moderna em geral é ser ela um pouco menos vulgar que a realidade, e assim o crítico, com a sua fina distinção e sua delicada elegância, preferirá olhar no espelho argênteo ou através do véu e desviará os olhos do tumultuoso caos da existência real, se por acaso o espelho estiver embaciado ou dilacerado o véu. Escrever impressões pessoais, eis o seu escopo único. Para ele é que são pintados os quadros, escritos os livros e cinzelados os mármores.
(…)
… alguém de quem nós reverenciamos todos a graciosa memória (…) declarou que o fim da Crítica consiste em ver o “objeto” como na realidade ele é. Mas é grave erro; a crítica, na sua elevada forma, na forma perfeita, é essencialmente subjetiva; busca revelar o próprio segredo e não o segredo de outrem: serve-se da Arte não pela deterioração, mas pela emoção.
—
E é por esta mesma razão que a crítica à qual fiz alusão é a mais elevada; porque trata a obra de arte como um ponto de partida para uma criação. Não se limita-pelo menos assim supomos –a descobrir a real intenção do artista e a aceitá-la como definitiva. E o erro não se acha nela, pois o sentimento de toda a bela obra criada reside pelo menos tanto na alma que a contempla como na alma que a criou.
—
A obra de arte serve ao crítico simplesmente para sugerir-lhe uma nova obra pessoal, que pode não ter semelhança alguma com a que ele critica. A característica única de uma bela coisa é que pode emprestar-se a ela, ou nela ver aquilo que se deseja; e a Beleza, que dá à criação seu estético e universal elemento, faz do crítico um criador a seu turno, e segreda mil coisas que não existiam no espírito daquele que esculpiu a estátua, pintou a tela ou gravou a pedra.
De Bazin para Truffaut

A Vida de Oharu (Mizoguchi, 1952)
“Lamento não ter podido rever com vocês, na Cinemateca, os filmes de Mizoguchi. Coloco-o tão alto quanto vocês e acho que o amo ainda mais amando também Kurosawa, que é a outra vertente da montanha: pode-se conhecer o dia sem a noite? Detestar Kurosawa para amar Mizoguchi não passa de um primeiro estágio de compreensão. Por certo, quem preferisse Kurosawa seria um cego irremediável, mas quem só ama Mizoguchi é um caolho. Há em toda a arte um veio contemplativo e um veio expressionista…”.
Carta de 1958, no alto da polêmica Kurosawa vs Mizoguchi na redação da Cahiers du Cinéma. Bazin morreria pouco depois, em novembro do mesmo ano.
Está no prefácio do livro O Cinema da Crueldade, que alguma editora deveria relançar.
Top 10 Kiarostami e Babenco

Através das Oliveiras (no alpendre)
Para retomar uma prática que me diverte (e, descobri, serve para muitos como um guia pela obra de determinados diretores), e ao mesmo tempo homenagear dois diretores que se foram, seguem dois tops 10 de supetão.
* brincadeira da legenda: meu nome completo é Sérgio Eduardo Alpendre de Oliveira
ABBAS KIAROSTAMI
1) Gosto de Cereja (1997)
2) Através das Oliveiras (1994)
3) Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1989)
4) E a Vida Continua (1992)
5) Dez (2002)
6) Five (2004)
7) O Vento nos Levará (1999)
8) Close Up (1990)
9) Cópia Fiel (2010)
10) Shirin (2008)
Gosto muito de todos os dez filmes, e também de alguns que ficaram fora (ABC África, o curta O Coro, os trabalhos anteriores à aclamação da crítica). Os cinco primeiros me deixaram estatelado na poltrona do cinema, o oitavo eu admiro muito, mas com certa distância, algo mais racional mesmo.
HECTOR BABENCO
1) Lúcio Flávio – Passageiro da Agonia (1977)
2) Brincando nos Campos do Senhor (1990)
3) Ironweed (1988)
4) O Beijo da Mulher Aranha (1985)
5) Pixote (1980)
6) Carandiru (2003)
7) Coração Iluminado (1998)
8) O Passado (2007)
9) Meu Amigo Hindu (2016)
10) O Rei da Noite (1975)
Aqui acontece algo diverso dos meus tops costumeiros. Há uma clara divisão entre a metade de cima da lista, formada por cinco filmes bem fortes (senão no todo, ao menos em alguns momentos) e dois que se aproximam da excelência, e a metade de baixo, com quatro filmes de força similar que se enquadram na qualificação “interessante”, ou, se preferirem, gosto com reservas (às vezes muitas ou grandes reservas), e um de que não gosto.
Cimino, Spencer, Kiarostami

O Gosto da Cereja
2016 caminha a passos largos para ultrapassar 2015 como um ano de perdas terríveis. Fico aqui pensando se essas grandes perdas não estariam relacionadas a uma frustração enorme com o que o mundo está se tornando, que faria com que alguns entregassem os pontos e desistissem de lutar pela vida. Não suicídio, mas um deixar-se levar.
Conheci o cinema de Michael Cimino por meio de O Ano do Dragão, visto num VHS que não me impediu de achá-lo um dos grandes policiais que pude ver até então. Era começo de cinefilia e logo depois eu veria, no cinema, Horas de Desespero, que na época considerei frustrante. Thunderbolt and Lightfoot passava na TV e sempre me pareceu coisa de diretor de peso. O Franco Atirador e O Portal do Paraíso foram gostos adquiridos, filmes alcançados com revisões, insistências de minha parte, e assim aconteceu também com Sunchaser. Hoje considero esses três últimos, mais O Ano do Dragão, verdadeiras obras-primas do cinema. Falta rever O Siciliano, do qual nunca gostei muito. Cimino, enfim, foi um cineasta que descobri depois, nunca enquanto ele fazia milagres.
Com Kiarostami foi diferente. Lembro de um texto do Inácio Araujo que apresentava Kiarostami ao espectador paulistano na época em que Kiarostami não era ninguém. Fui ver o filme – E a Vida Continua – no Belas Artes, durante uma edição da Mostra SP, se não me engano com legendas em inglês ou espanhol, e os filmes do diretor passaram imediatamente a serem esperados ansiosamente por mim, e os que vieram nas mostras seguintes, Através das Oliveiras, O Gosto de Cereja e também o anterior, Onde é a Casa do Meu Amigo?, de 1989, me trouxeram ainda mais admiração. Estava descobrindo um gênio, junto de um monte de outros frequentadores da Mostra (bem, alguns torciam o nariz para o que entendiam como neo-realismo requentado). E as pauleiras continuariam, sempre na Mostra SP: O Vento nos Levará, Dez, ABC África, Five. Um gênio, um dos últimos.
A admiração por Bud Spencer vem da infância. De ver os filmes da série Trinity (ele e Terence Hill) na televisão e morrer de rir, com a cumplicidade salvadora (aos meus olhos infantes) dos meus pais. Muito mais tarde, já nesta década, é que vi o belo filme que fez com Ermanno Olmi, Cantando Dietro i Paraventi. Representava, como cômico, um cinema que parece não existir mais, de diversão descompromissada e inteligente.
Esses foram os grandes. Peter Hutton era bom e também se foi, mas não estava à altura deles.
Para aliviar a dor, volto aos discos que embalaram minhas paixões juvenis. Música é a melhor droga que existe.
Mais pensamentos corriqueiros

– Nunca entendi direito a grita contra a decadência da TV Cultura. De que decadência falam? Nunca vi muita TV, mas hoje, sempre que passo pelo canal, vejo algo minimamente interessante. Anos atrás eu passava e via, com frequência, Castelo Ra-Tim-Bum, que pode até ter suas qualidades, mas nunca me interessou muito. Me pergunto então se a grita não é uma espécie de protesto automático contra o horrível governo do PSDB. Se for, é tolo demais, mas não me surpreenderia. Se não for, e a decadência existir de fato, me desculpem. É que realmente não vejo muita televisão.
– Revendo Superman II num dos canais Cinemax me deparo com algo que costuma fazer rir os espectadores de hoje, a precariedade dos efeitos especiais. Capaz que numa sessão desse filme no cinema as pessoas dessem mais risadas disso do que do humor que existe na vilania caricatural de Lex Luthor e de seu ajudante, ou das caras de enfado que faz Zod, o supervilão interpretado por Terence Stamp, cada vez que um de seus comparsas se deleita com os superpoderes que ganharam na Terra. O filme tem muitas breguices, mas a direção de Lester mostra seu apuro visual (raro em filmes de super-heróis deste século), o que compensa bastante.
– Outro dia lembrei de um diálogo digno do cinema clássico americano. Reproduzo de memória. Uma menina pergunta para o pai se ele é comunista. Ele diz que provavelmente sim, e pergunta o que ela faria se tivesse em sua lancheira um delicioso sanduiche e sua amiga não tivesse nenhum e estivesse com fome. Ela responde que compartilharia seu sanduíche com a amiga. Ele sorri e diz: “temos então uma pequena comunista na família”. Ela sorri também. Claro que esse diálogo não seria possível num filme dos anos 50, e seria improvável num dos anos 40 (dos anos 30 até poderia). Acontece que é de um filme recente, Trumbo, de Jay Roach. Não é um bom filme por causa da maneira como se desencadeia a trama. Mas tem cenas fortes como essa, a nos lembrar da fórmula mágica que Hollywood no todo perdeu, mas resgata vez ou outra, como que por acidente, em partes de seus filmes recentes.
P.S. Sandra Mara Bombicino e Alfredo Sternheim fizeram comentários pertinentes ao meu tópico sobre a TV Cultura. Reproduzo ambos aqui:
Sandra Mara Bombicino:
Era um jornalismo diferente… Nada burocrático ou previsível… Parece que tinha “alma”…
E a programação infantil então… Tinha o Glub Glub que mostrava várias formas de animação de várias partes do mundo, algumas inesquecíveis, como ” Os Amigos”… Pura delicadeza!
E tinha também o Caillou, muito “pedagógico” para pais e filhos, o X-Tudo,
Som Pop, Mundo da Lua, Confissões de Adolescente…
E o Roda- Viva! Ótimos apresentadores, entrevistadores e entrevistados…
Era certamente mais plural!
Enfim, acho que houve sim uma perda considerável de qualidade na programação.
E acho que faz muita falta, ainda mais sendo uma TV pública.
Mostras, mostras e mais mostras

– Acabo de voltar de Curitiba, onde passei cinco dias acompanhando o 5º Olhar de Cinema. Fora os clássicos exibidos em DCP, ótima oportunidade para rever Mouchette, Como Era Verde Meu Vale e O Manuscrito de Saragoça, entre outros, tive ao menos três boas surpresas: o chinês Um Outro Ano, o paraguaio A Última Terra e o curdo/canadense Gulistan: Terre de Roses. Dois desses filmes, o primeiro e o terceiro, são dirigidos por mulheres. Gulistan, de Zaynê Akyol, tem sua força na maneira como mostra as soldadas que lutam contra o ISIS nas montanhas do Curdistão. Belas e fortes mulheres, brilhando num mundo ainda dominado pela brutalidade masculina. A Última Terra, de Pablo Lamar, é tudo que Lisandro Alonso tenta fazer desde o começo de sua carreira, chegando perto apenas em La Libertad. Um Outro Ano, de Shengze Zhu, é uma das raras felizes incursões pelo filme-instalação, porque parece instalação, mas nunca deixa de ser cinema. O balanço da edição virá em breve, na Interlúdio.
– Já está rolando em diversos cinemas a 5ª Mostra Ecofalante (outro festival em sua quinta edição, por coincidência). Suas duas principais atrações acontecem na Cinemateca, e são O Diabo Provavelmente, penúltimo filme do gigante Robert Bresson, e Le Joli Mai, o melhor filme de Chris Marker (com co-direção de Pierre L’Homme). Fora isso, os filmes naturistas de Jean Painlevé são ótimas pedidas, assim como duas raras pepitas de Jean Epstein.
– Em julho será a vez de Thom Andersen, que ganha retrospectiva de sua carreira no CCSP graças aos incansáveis Aaron Cutler e Mariana Shellard. Não sou muito entusiasta de seu filme mais famoso, Los Angeles Plays Itself. Parece coisa de Rosenbaum e Sadoul com seu desprezo ao Cecil B. De Mille (chamado de reacionário) e repete-se um tanto, como no longo trecho sobre Chinatown. Mas sua carreira é curiosa, com curtas interessantes e o inusitado e jornalístico Red Hollywood. Goste-se ou não, o que importa é que sua obra precisa ser vista e, se for o caso, questionada.
Pensamentos

– Roy Andersson amargou um terrível fracasso com seu segundo longa, Giliap, de 1975. Passou então a se dedicar a comerciais de TV, atingindo grande sucesso com a campanha para a seguradora Trygg-Hansa, depois para a Lotto, entre outras. Nesses pequenos filmes burilou o estilo que seria visto em seu esplendor no curta Mundo de Glória (1991) e no longa Canções do Segundo Andar (2000 – foto). Entre os fãs dos comerciais de Andersson, dizem, estava Ingmar Bergman. Será esse um caso raro de autoria, uma versão mais talentosa de Oliviero Toscani? Vendo os comerciais (muitos deles estão no YouTube), podemos dizer que sim.
– Li muita gente elogiando que Capitão América: Guerra Civil não tem vilão. Como assim? Tem um vilão óbvio no estilo Cai o Pano, o último mistério desvendado por Hercule Poirot, que só foi desvendado porque tornou-se o último mesmo (é um dos melhores livros, senão o melhor, da subestimada Agatha Christie). O pior vilão: aquele que incita a maldade, que provoca ressentimentos e divide grupos anteriomente coesos. Isso mais o sentimento de culpa que cai nos heróis pelas mortes causadas nas lutas homéricas fazem o filme crescer. Mas a insuportável roupagem de videogame joga o filme no chão.
– Irreversível, de Gaspar Noé, não é ruim por ter uma cena de estupro. É ruim pelo modo como é filmada essa cena e pelo modo como são filmadas quase todas as outras cenas. A luta é justa e necessária. Existe mesmo uma cultura do estupro e essa cultura precisa ser dizimada (sou pessimista: levará gerações para que isso aconteça, se vier a acontecer). Mas filmes que mostram exemplos de conduta e virtudes humanas apenas apaziguam, enquanto filmes que mostram toda a dimensão humana, com a podridão e o que tem de patológico nessa dimensão, nos perturbam, fazem-nos pensar e querer mudar as coisas, ao menos algumas coisas, mesmo que pequenas, aquelas que estão ao nosso alcance. Fassbinder sabia disso e realizou alguns dos melhores e mais fortes filmes sobre a crueldade humana, com absoluto destaque para o tortuoso e genial Num Ano com 13 Luas. E o que dizer de Noites de Circo, de Ingmar Bergman? Enfim, seria melhor não se fazer o que sempre se faz, misturar alhos com bugalhos.
O horror que nos cerca
– Há sessões de filmes para jornalistas, normalmente de manhã, normalmente alguns dias antes da estreia. Essas sessões são chamadas de cabines. Cinéfilos são doidos para frequentar cabines, mas a verdade é que está cada vez mais difícil ver filmes nessas sessões. Minhas três últimas cabines, durante a projeção: pessoas falando alto, luzes de smartphones e até tablets acendendo, luzes da sala acendendo, assobios insuportáveis de mensagens chegando tocando em alguns momentos. Cabines de filmes brasileiros são sempre piores. Não existe educação no Novo Afeganistão. Engana-se quem acha que se pode ver melhor um filme nessas condições. Melhor ver em casa. E por isso eu digo: viva o link.
– Evito falar de assuntos extra-cinematográficos neste espaço. Quando falo, é sobre música ou alguma outra manifestação artística. Hoje, quarta-feira 25, resolvi quebrar um pouco essa regra implícita. Porque o panorama político deste Novo Afeganistão é o pior possível. Tragédias como o estupro da moça por 30 homens no Rio de Janeiro tendem a acontecer com mais frequência. Sempre fui contra a pena de morte, mas já que passamos da barbárie, não sei mais o que defender.
Cannes [e Portugal]

– O Festival de Cannes é circo e mercado. Mas no Brasil é tratado como coisa séria, como se os filmes que lá estiveram representassem a nata da produção mundial, como se premiações em festivais tivessem a ver com a qualidade do filme. Pior é a turma que vai adorar ou odiar Aquarius pela posição política de seu diretor. Suspeito que esses serão a grande maioria. Se 10%, pelo menos, gostar ou desgostar por questões cinematográficas, acredito que será até uma surpresa positiva. Mas a porcentagem deve ser ainda menor.
– O texto de Pedro Butcher na Folha, aliás, me parece um mau sinal sobre o filme de Kleber Mendonça Filho. “Obviedade desconcertante”? “Brasil for dummies”? Isso não me cheira bem. “Discutir questões do país virou quase um tabu”? Como assim? É o que mais vejo em nosso cinema, desde os curtas. Eu realmente não entendi. Espero que não seja essa a maior qualidade do filme.
– Alguém me mandou a coletiva de imprensa do filme em Cannes, e resolvi ver alguns trechos. Notei que em certo momento a língua portuguesa dominou o evento. Acho isso mais positivo do que os protestos cheios de sorrisos (nova modalidade de protesto) e qualquer premiação que o filme pudesse receber (não recebeu, e logo mais poderemos saber se foi injusto ou não, e o fato de sair de mãos abanando obviamente não quer dizer que o filme seja ruim). Ouvir Sonia Braga se libertar do esforço de falar em outra língua que não a dela e o jornalista português começando tudo, e também o “obrigado” de Kleber, tudo isso me soou muito bem. Devia ser sempre assim. É uma língua muito mais bonita que a inglesa, a quinta mais falada no mundo, disse o jornalista português, então deveria ser mesmo mais difundida. Muita gente deve ter achado caipira. Acho bem o contrário.
– Sobre o emprego de Kleber na Fundaj, não entendi o que tem de escandaloso nisso. Sei que ele fez um bom trabalho e tal, então me parece que as reclamações nesse sentido aconteceram muito mais por suas posições políticas do que por uma eventual ilegalidade. Só que os que o defenderam publicamente meteram os pés pelas mãos ao dizer que 3.800 de salário por um emprego sem exigência de dedicação exclusiva é pífio. Não é, e está bem longe de ser, a não ser para quem tem a vida na sombra.
– Portugal, novamente. Quando disse que eles têm muito a nos ensinar, devia ter deixado claro que isso diz respeito também a nós, críticos. Conheço críticos de lá que, tendo visto bem menos filmes que eu, são capazes de pensamentos brilhantes conjugando erudição e simplicidade.