Portugal – Parte 2

Nem tudo reluz em Portugal, eu dizia. Esse adorável país também é consumido pela corrupção e tem uma elite podre (é o que me disseram lá, mas custo a crer que seja tão podre quanto a brasileira). Coimbra funciona meio aos trancos, mas é uma cidade belíssima, com pessoas formidáveis e super atenciosas. Aveiro tem estrutura de cidade turística. É a Veneza portuguesa, dizem. Muito, muito bonita e charmosa.
No Porto, inicialmente nada parece funcionar. O Banco do Brasil é uma piada. Nos hoteis, a internet é ruim e não pega no quarto (nos dois hoteis que fiquei pelo menos foi assim, posso ter dado azar). Me deu uma má impressão desta vez, ao menos nas duas chegadas – na primeira, não havia taxis porque todos protestavam no centro contra o Uber, e um monte de turistas se amontoavam tentando entender o negócio das zonas do metrô- a viagem ao centro de metro é caríssima, aliás; na segunda, a rodoviária escura (que eu já conhecia) e a calçada toda esburacada na saída. Uma pena. As proximidades do Douro (a ribeira) são um show, e o Museu Serralves é fantástico. Os chopes (ou melhor, finos) do fim de tarde, tendo a vista do Atlântico ao pé da foz do Rio Douro me revigorou para voltar à luta no Brasil (aka Novo Afeganistão).
Mas passemos para o campo do cinema, que é o assunto deste blog. Em Aveiro, um sábado incrivelmente chuvoso me fez ficar parte do dia no circuito comercial. Era um complexo de sete salas, no Forum Aveiro (o shopping center mais bacana que conheci). O complexo é controlado pela NOS, que parece dominar a cadeia de distribuição e exibição em Portugal (terrível isso).
Vi Capitão América: Guerra Civil, mais um insuportável videogame da Marvel, para dar a cotação no Guia da Folha (cotação que só não foi mínima porque há no filme uma interessante discussão sobre a culpa pelos acidentes causados nas batalhas dos heróis contra o mal). Na metade do filme, a exibição é interrompida de maneira tosca. Era intervalo programado pela sala para que o público fosse buscar mais pipoca. Pensei: o filme é grande, vai ver é por isso. Mas na sessão noturna, do delicioso filme de Richard Linklater, Todos Querem o Mesmo (Everybody Wants Some!!), houve também um intervalo. Diacho. Pior: a onda estúpida dos lugares marcados está aqui em Portugal também (pelo menos em Aveiro, já que nunca vi exibição de circuito comercial em outra cidade portuguesa). Ou seja, lugares marcados e intervalo em todas as sessões. Aberração, pura e simplesmente.
Cinemateca. Um exemplo, todos sabem. Muitos de seus catálogos são essenciais. Mas porque não os encontramos em livrarias de outras cidades de Portugal? Na rede Bertrand, por exemplo, ou nas Fnacs (a melhor, por sinal, é a de Coimbra). Nem em alfarrabistas (os sebos daqui) é fácil encontrar, fora de Lisboa. Os livreiros aqui tem consciência desse problema, os alfarrabistas também. Mas não há nada que possam fazer. É assim estranho mesmo que uma maravilha de acervo seja exclusividade de uma só livraria, a da própria Cinemateca. E que os excelentes catálogos feitos no passado, incluindo três dos meus preferidos, John Ford, Luis Buñuel e Nicholas Ray, estejam raríssimos de se encontrar.
DVDs. Portugal é muito bem servido de DVDs. Vários filmes portugueses são lançados (João Canijo, Paulo Rocha, Joaquim Pinto, integral João Cesar Monteiro, Manoel de Oliveira, claro, Pedro Costa, e muitos outros; e muitos clássicos americanos, além de uma enormidade de filmes franceses e europeus em geral. Tem coleções apetitosas de Béla Tarr, Satyajit Ray, Éric Rohmer, Monty Python e outras coisas. Em Blu-ray eles ficam devendo para França e Espanha. Talvez para o Brasil também. Mas quem desconfia do excesso de limpeza desses discos em full hd pode se refestelar com os DVDs. Em Coimbra, a oferta era ótima. Mas deixei para comprar no Porto e me ferrei. A Fnac do Porto é fraquinha, coitada. Me ferrei, em termos: o bolso agradece.
Revistas. Não há mais revistas portuguesas de cinema. Na Espanha são muitas, mas aqui… A Première portuguesa acabou. As francesas não chegam mais como chegavam antes (a Cahiers tem em todo lugar, mas a Positif já não se acha mais com facilidade, infelizmente). Fui achar só no bairro rico, já perto do Atlântico (aqui no Porto). Curiosamente, as revistas espanholas também não chegam. Já a Caras tem em todo lugar.
Bebidas. Esta é para encerrar com nota positiva, claro, porque não tinha como ser diferente. Cervejas muito melhores que as do Brasil, que não me deixam estragado no dia seguinte (como as da Ambev). Vinhos fantásticos (mesmo os mais baratos) e as deliciosas ginjinhas (a de Óbidos, principalmente, mas a de Albergaria é boa também). Me arrependi de não ter comprado o Licor de Merda, flagrado na foto que ilustra o post, de uma vitrine no bairro da Boavista. Que diabos de gosto deve ter isso? Não me surpreenderia se fosse uma delícia também.
Portugal – Parte 1

Preparo uma lista dos meus 100 filmes brasileiros de cabeceira. Lista pessoal, como todas que faço (não vejo graça nem propósito em listas ditas responsáveis, que se pretendem representativas). Listas são partes de minha autobiografia, seguindo a ideia de Tag Gallagher em “Narrativa Contra Mundo”. Nessa lista, de 2000 para cá, considero três as obras-primas (ou seja, os filmes para os quais dou cinco estrelas no sistema de cotações da Interlúdio): O Signo do Caos, Serras da Desordem e Já Visto Jamais Visto. São obras de dois diretores – Sganzerla e Tonacci – que começaram nos anos 60.
Agora atravessemos o Atlântico. Vamos a Portugal, esse país minúsculo na entrada do continente europeu, onde felizmente agora estou. Noto as seguintes obras-primas desde 2000:
No Quarto de Vanda (Pedro Costa, 2000)
Palavra e Utopia (Manoel de Oliveira, 2000)
Porto de Minha Infância (Manoel de Oliveira, 2001)
Frágil Como o Mundo (Rita Azevedo Gomes, 2001)
O Princípio da Incerteza (Manoel de Oliveira, 2002)
Vai e Vem (João Cesar Monteiro, 2003)
O Quinto Império (Manoel de Oliveira, 2004)
Espelho Mágico (Manoel de Oliveira, 2005)
Juventude em Marcha (Pedro Costa, 2006)
Wolfram – A Saliva do Lobo (Joana Torgal e Rodolfo Pimenta, 2010)
O Estranho Caso de Angélica (Manoel de Oliveira, 2010)
O Gebo e a Sombra (Manoel de Oliveira, 2012)
A Vingança de uma Mulher (Rita Azevedo Gomes, 2012)
João Bénard da Costa: Outros Amarão os Filmes que Amei (Manuel Mozos, 2013)
Cavalo Dinheiro (Pedro Costa, 2014)
15 filmes cinco estrelas. E olha que eu vi muito mais filmes brasileiros do que portugueses nesse mesmo período (e foram feitos muito mais filmes brasileiros também). Mesmo se tirarmos os filmes de Oliveira, um caso extraordinário, restam oito obras-primas no período. Quase o triplo do que tivemos no Brasil. E se pegarmos o número de filmes que se aproximam dessa excelência, Portugal continua dando um banho. No Brasil do século XXI temos tido muitos bons filmes, mas pouquíssimos grandes filmes.
A que se deve essa discrepância? Nós, que até os anos 70 (ou 80) fazíamos grande cinema, com uma imensidão de obras essenciais, ainda estamos longe de recuperar a boa forma, enquanto os amigos portugueses estão provavelmente em um de seus melhores momentos (junto do cinema novo português dos anos 60 e 70, decerto). Bruno Andrade cantou a bola anos atrás: isso se deve à Cinemateca Portuguesa, a melhor formação que se pode ter. Claro que tem mais: a própria formação escolar européia, muito mais rica do que a nossa, além de uma ideia de civilidade que é quase ausente por aqui (e será ainda mais ausente, percebemos pelos ares obscurantistas que dominam nossa sociedade).
Mas o que mais quero com este post não é criar uma rivalidade boba como a que sempre fazem entre o cinema argentino e o brasileiro. Quero apenas que atentem para a grande lição que nos dá o cinema português: pode-se filmar com pouco e chegar a muito. Um grande filme não precisa de 4 ou 6 milhões de reais para ser feito. E também pode-se exigir mais do espectador. Tonacci, Sganzerla e Bressane (e Joel Yamaji e Luiz Rosemberg) entenderam isso há muito tempo.
Claro que nem tudo reluz em Portugal. A terra de meus avós é maravilhosa, mas também tem seus problemas. Sigam os próximos capítulos.
Lamento duplo

(Em primeiro lugar, peço desculpas pelo sumiço. Viajei para Portugal, onde estou no momento, e antes da viagem o ritmo de trabalho no Brasil foi intenso, o que me impediu de pensar neste blog, que voltará agora a sua programação normal).
Reinicio com um duplo lamento. No dia 3 de maio morreram dois amigos. Dois apaixonados por cinema. Duas pessoas que eu via pouco, apesar de uma delas ter sido muito importante em minha formação. De cá, recebi a dupla notícia com tristeza e um pouco de choque. Não soube o que dizer, e talvez não o saiba jamais.
Christian Petermann era um crítico de outra escola. Não era um admirador de seus textos, mas o conheci o suficiente para saber de sua paixão por cinema e de sua inteligência. Perdi também um aliado na luta incessante pelo ar condicionado no máximo, pois Christian era, como eu, muito calorento. Nunca conversamos muito, mas era sempre agradável reencontrá-lo em festivais ou cabines de imprensa.

Francisco Conte era professor e curta-metragista (fez dois curtas em Super 8 que me agradaram bastante quando os vi, no começo dos anos 90, época em que o conheci). Desde então pedia para ele cópias desses filmes e até hoje não as tenho. Mas tenho um roteiro que ele fez e nunca filmou, do qual gostava bastante (não entendi porque ele o abandonou). Lia esse roteiro e me vinham imagens de Fassbinder. Mas essa é a menor das tristezas. Perder Conte foi como perder um mestre, mesmo que eu o visse muito menos do que gostaria (visitei-o no hospital, pouco antes de vir para Portugal; nunca imaginei que seria uma despedida). Era uma pessoa inteligente e espirituosa, cheia de frases brilhantes. Quando perguntavam sua idade, dizia que era “qualquer coisa entre o desespero e a morte”. Quando o conheci, costumava se anunciar de uma maneira bem curiosa: “eu sou aquele professor de etiqueta da Belle Époque que todo mundo achava que era francês, mas não passava de um argentino”. Não gostava muito da Nouvelle Vague porque essa geração de jovens inconsequentes troçava de um cinema que ele amava – melodramas alemães e franceses dos anos 50, sobretudo, mas muitas outras coisas. Foi ele que me deu o toque da influência da Nouvelle Vague em A Noviça Rebelde, e obviamente ele tinha razão. Aprendi muito com ele, sobretudo porque seu gosto não era nada trivial. Frequentemente discordava de meus gostos, mas quando concordava, era 100%.. Gostava de umas coisas que parece que só ele (Sissi: A Imperatriz e suas duas continuações) ou só eu e ele (Evita, do Alan Parker) gostávamos. Era um dos maiores apaixonados por cinema que eu conheci. Que encontre seus maiores ídolos no além, e que esse além tenha uma tela bem grande exibindo Marianne de ma Jeunesse em looping.
A Lente do Amor

Vi os dois primeiros filmes de Griffin Dunne no cinema. O primeiro, A Lente do Amor, porque na época, 1997, via qualquer coisa com a Meg Ryan. O segundo, Da Magia à Sedução (1998), sei lá por qual motivo, já que não tinha gostado de nada do primeiro.
Outro dia peguei A Lente do Amor passando na HBO. Tinha começado há uns dez ou quinze minutos, e eu precisava trabalhar em um texto. Vez ou outra dava uma olhada para a tela, e numa dessas olhadas peguei a cena curiosa em que Matthew Broderick pinta uma parede que projeta a imagem de sua ex-namorada, Kelly Preston, captada sei lá como (e também não lembro) de outro apartamento. Após essa cena curiosa passei a olhar com mais frequência para a TV, até a aparição de Meg Ryan (que a esta altura eu já nem lembrava mais que estava nesse filme).
Aos poucos comecei a entender o que se passava e deixei o texto para depois (fui dormir bem tarde nesse dia). O filme simplesmente me fisgou. A direção era eficiente o bastante para me segurar, assim como a crueldade desses dois rejeitados, Ryan e Broderick, na tentativa de separar Preston de Tchéky Karyo, o francês garanhão que havia roubado ela do Milky Way man Broderick.
No final, fiquei me perguntando o que me levou a rejeitar o filme na época, e querendo rever Da Magia à Sedução. O ator dos maravilhosos Um Lobisomem Americano em Londres e Depois de Horas revelou-se, para mim, após quase duas décadas, um diretor no mínimo interessante, a ser seguido mais de perto. Quem diria?
Talvez Hollywood tenha regredido tanto que não seja mais capaz de entregar filmes bem dirigidos dentro de uma fórmula batida como a da comédia romântica. Hoje, quando é possível ver um desses filmes até o fim, normalmente é por causa do desempenho dos atores. Talvez eu estivesse, em 1997, rodeado de tantos belos filmes que esse, em comparação, pareceu-me frágil. Claro, o mais provável é uma conjunção dessas duas hipóteses.
A Bruxa

– (para ser lido por quem já viu o filme, ou por quem não se importa com spoilers)
Em seu obrigatório livro Hollywood From Vietnam to Reagan… And Beyond, Robin Wood passa pela teoria psicanalítica segundo Gad Horowitz (após Freud, Marcuse e Reich), para indicar que o cinema de horror americano, a partir da década de 1960, exemplificava à perfeição a tese do eterno retorno do reprimido. O que é reprimido, nos diz a psicanálise, tende a retornar sempre. Os diretores do gênero a partir dessa década passaram a construir filmes em que o mal não pode ser destruído, ao contrário do horror predominante até então, em que o mal é destruído e um par romântico é formado e consolidado em seu final.
Lembrei disso ao ver o curto, direto e eficiente A Bruxa, longa de estreia de Robert Eggers. Na metade do filme, até mesmo antes, já percebemos que os personagens estão diante de algo invencível, uma força que os rege e os leva ao caminho da discórdia. A trama se passa em 1630, mais ou menos 60 anos antes do julgamento do famoso caso das bruxas de Salem, também ali, na Nova Inglaterra, costa leste dos EUA.
Pensando em cinema, e só nele, a trama que Robert Eggers costura com alguma habilidade não tem nada de nova. Vemos uma bela garota na puberdade, idade em que ela já pode conscientemente tomar contato com o mal. Ela é Thomasin, a mais velha dos cinco filhos do casal William e Katherine. O mais novo, Samuel, ainda bebê, desaparece sob seus cuidados. Katherine, principalmente, começa a suspeitar da culpa da menina. Outras coisas estranhas começam a acontecer, mas Thomasin é sempre poupada. Não acreditamos que ela tenha alguma culpa, mas suspeitamos de que ela é escolhida para algum tipo de feitiçaria ou seita satânica, provavelmente por sua beleza e seu poder de sedução não exatamente sexual, mas quase (bem, Polanski nos anos 70 certamente cairia por ela). Caleb, o segundo filho, tem seu despertar sexual observando o volume dos seios por baixo da blusa da irmã. Logo, ela introduz inocentemente o pecado na família. E se pode introduzir o pecado no seio de uma família religiosa, pode também ter contato com o tinhoso.
É um aspecto inteligente do filme deixar essas coisas meio enevoadas. Percebemos claramente o interesse sexual de Caleb. Mais tarde ele será atraído pela bruxa da floresta em sua personificação mais bela e sensual. Mas o filme não explicita o que acontece com seu desejo, com seu corpo, e mesmo porque ele virá a falecer. Apenas indica que o conflito interno que passou a fazer parte de sua constituição, o velho conflito entre o Bem e o Mal, é que o matou, porque intensificado, turbinado pela magia da bruxa. No mais, todos temos esse conflito, e a própria conversão de Thomasin no final só é facilitada porque ela não encontrou no pai e nos demais familiares um possível apoio contra o mal que cercava a casa e a plantação de milho da família. Abandonada, ela aceita a companhia do único ser vivo que sobrou, o bode Black Philip, e vende sua alma ao demônio.
O terço final lembra mesmo o horror dos anos 1970, sobretudo O Homem de Palha e Salem’s Lot, de Tobe Hooper (ou o que lembro deste último), possíveis referências para Eggers. A fotografia do até então pouco conhecido Jarin Blaschke aproveita ao máximo a luz natural e compõe imagens de baixa saturação, quase descoloridas; é um ingrediente importante na construção do clima de terror.
O filme foi rodado no formato 1.66:1, talvez para reforçar o aspecto horror europeu (ou europeizado) dos anos 70. Mas tenho minhas dúvidas de que o 1.66 seria mais efetivo nesse caso do que o 1.33:1, que reforçaria a composição na vertical e a estranheza dos enquadramentos. Para Blaschke, o 1.66 é suficientemente retangular para enquadrar a família toda junta. Mas não são muitos os momentos em que todos aparecem juntos no mesmo plano, de modo que a escolhe me pareceu um tanto arbitrária.
Ainda assim, se no ano passado tivemos o surpreendente Corrente do Mal em nossos cinemas, este ano somos brindados com um outro filme forte de horror, ainda que não possamos falar em surpresa, já que o hype em torno de A Bruxa é alto desde o ano passado, após passagens por Sundance, Karlovy Vary, Sitges e outros festivais.
Os 20 filmes de cabeceira (de hoje)

Vários leitores me pedem uma lista dos meus filmes preferidos, impulsionados pela minha declaração de que A Noviça Rebelde provavelmente seria um deles. Mal sabem eles que sei desse e de mais alguns poucos, mas fechar em dez, quinze ou vinte, deixando tantos outros de fora, não sei. Então faço a lista de hoje, com prazo de validade de apenas 24 horas (vá lá, 48 horas). E com 20, um de cada diretor, porque com 10 seria impossível. E no fluxo da memória, sem substituições de última hora. Mesmo assim, muitas ausências me incomodam: Godard, Chabrol, Lubitsch, Welles, Vidor, Rohmer, Eastwood, Scorsese, Aldrich, Fuller, Imamura, Ozu, os dois Kurosawas (Akira e Kiyoshi), Naruse, Peckinpah, Coppola, Syberberg, Straub, Erice, Oliveira (lamentável ausência), Monteiro, Glauber, Bressane, Tonacci, Pasolini, Zurlini… Tantos outros não lembrados de pronto. Uma lista de 100 ou 200 seria mais justa. Mas isso só dá para fazer com patrocínio.
Aurora (Sunrise, 1927), de F.W.Murnau
No ano retrasado, formulei a ideia de que nenhum aluno poderia tocar numa câmera antes de ter visto este filme monumental em que Murnau chuta a porta da Fox e de Hollywood.
Peregrinação (Pilgrimage, 1933), de John Ford
Ford, herdeiro de Griffith, aqui demonstra clara influência de Murnau. Há historiadores que dizem que Ford só se tornou grande após ter tomado contato com a obra de Murnau.
Um Dia no Campo (Une Partie de Campagne, 1936), de Jean Renoir
Cinema moderno é isso. O filme incompleto de Renoir não parece na verdade incompleto. A câmera no balanço iria inspirar outro filme desta lista: Charulata. O final é de causar síncopes.
Com um Pé no Céu (One Foot in Heaven, 1941), de Irving Rapper
Já valeria pela cena em que noivo e noiva concordam em seguir uma nova vocação, religiosa. A luz se faz por trás deles, na rua, mas iluminando todo o quadro. Tem muitas outras, tão inspiradas quanto essa.
A Sombra de uma Dúvida (Shadow of a Doubt, 1943), de Alfred Hitchcock
Hitchcock dizia ser este o melhor entre seus filmes. Acho isso também, empatado com Um Corpo Que Cai e Os Pássaros.
Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, 1950), de Billy Wilder
Um filme perfeito, de estrutura magnânima, sobre a crueldade da indústria cinematográfica. Pude vê-lo no cinema, na antiga Sala Cinemateca, em Pinheiros.
Laços de Sangue (Hard, Fast and Beautiful, 1951), de Ida Lupino
Entre quatro ou cinco obras-primas dirigidas pela grande Lupino, escolho este filme, um dos mais inusitados e bem dirigidos entre todos os filmes que vi. E também aquele que não deixa dúvidas: ela era craque da mise en scène.
O Intendente Sansho (Sansho Dayu, 1954), de Kenji Mizoguchi
Poderia ser Conto dos Crisântemos Tardios, Senhorita Oyu ou A Vida de Oharu. Mas Sansho sempre se impõe, revisões a fio.
No Silêncio de uma Cidade (While the City Sleeps, 1956), de Fritz Lang
O cinema da crueldade. Lang extremamente coerente com sua carreira, desembocando neste filme em que ninguém presta (mas torcemos para Thomas Mitchell, como não?).
A Herança da Carne (Home From the Hill, 1960), de Vincente Minnelli
O ocaso dos grandes estúdios. Hollywood à deriva. Cai a família de sangue, patriarcal. Surge uma nova configuração familiar.
O Anjo Exterminador (El Angel Exterminador, 1962), de Luis Buñuel
O filme que representa o nascimento de minha cinefilia. Nunca tive tanta sintonia com nenhum outro diretor.
O Leopardo (Il Gattopardo, 1963), de Luchino Visconti
Faz tempo que não revejo, mas as duas vezes que o vi no Cinesesc, naquela tela gigante, quando a primeira versão restaurada chegou ao Brasil, me deixaram marcas profundas. Nunca mais fui o mesmo cinéfilo.
A Esposa Solitária (Charulata, 1964), de Satyajit Ray
Lembro do Ruy Gardnier olhando para mim e rindo de minha cara de extasiado com este filme mágico, visto pela primeira vez numa Mostra Internacional de São Paulo, na Sala Cinemateca (se não me engano, logo depois de ter mudado para o matadouro).
A Noviça Rebelde (The Sound of Music, 1965), de Robert Wise
A cada revisão se revela maior. Onde isso vai parar? Wise sempre subestimado. Rodgers e Hammerstein geniais.
Quando o Amor é Cruel (L’Incompreso, 1967), de Luigi Comencini
O melodrama por excelência. Impossível ver sem chorar. Duas crianças, uma mãe doente, uma governanta desesperada, um casarão e um pai ausente.
Deixem-nos Viver (Alice’s Restaurant, 1969), de Arthur Penn
O comentário definitivo sobre a contracultura. Penn já mostrava seu ocaso antes mesmo de ele acontecer (vide a cena inesquecível do funeral). Finalmente saiu em DVD no Brasil. Poderei aposentar a cópia do americano que usava em aulas.
Satyricon (1969), de Federico Fellini
Sendo extremamente fiel a recentes revisões, coloco Satyricon no lugar de Roma (que seria a escolha até fevereiro deste ano), ou de A Doce Vida (escolha de 2013 e 2014), ou Oito e Meio (escolha antes de 2013) porque se confirmou em minha mente e meu coração como uma obra-prima definitiva sobre a decadência moral (no caso, do Império Romano). Palmas para a fotografia do grande Giuseppe Rotunno.
Sem Essa Aranha (1970), de Rogério Sganzerla
Poderia ter colocado algum do Glauber Rocha, diretor que sempre amei. Mas este alucinado longa de Sganzerla é meu filme brasileiro preferido já há dois anos, mais ou menos.
Num Ano de Treze Luas (In Einem Jahr mit 13 Monden, 1978), de R.W.Fassbinder
O maior filme de Fassbinder. O mais arriscado, o mais impactante (a cena do suicídio testemunhado por Elwira é inesquecível), o mais torto (a homenagem a Jerry Lewis, que diabos é aquilo?), o mais alusivo.
O Rio dos Vagalumes (Hotaru Gawa, 1987), de Eizo Sugawa
Filme raríssimo, que só vi uma vez, em prantos, no Cinesesc, graças à Mostra Internacional de São Paulo e à propaganda de Carlos Reichenbach, grande admirador do Sugawa. Foi em meados dos anos 1990, uma de minhas experiências mais marcantes numa sala de cinema.
A Intrusa

Resolvi rever alguns filmes do Carlos Hugo Christensen, diretor argentino radicado no Brasil que já havia me impressionado no passado. Não só revi, como vi um que nunca tinha visto: A Morte Transparente, um bom longa de 1978. Mas esses dias revi A Intrusa, o primeiro filme dele que conheci, muitos anos atrás. Na minha cabeça era uma adaptação quadrada de um conto de Jorge Luis Borges. Talvez porque eu estivesse descobrindo Glauber Rocha e Júlio Bressane no mesmo momento. Agora o considero bem inventivo, com uma maneira pouco comum de expor personagens e uns cortes belos porque inesperados. Pode-se dizer o que for de seus filmes, mas nunca que são previsíveis. As histórias que conta podem até conter uma série de soluções já esperadas, mas as maneiras como chegamos a essas soluções tendem a ser no mínimo malucas.
Em A Intrusa, Eduardo, o irmão Nilsen mais novo (Arlindo Barreto, que depois seria o Bozo), vê Cristiano, o mais velho (José de Abreu), passar com sua nova esposa Juliana (Maria Zilda) e fica visivelmente incomodado. A câmera então faz uma rápida panorâmica até dois velhos sentados num banco e um comenta para o outro, em tom galhofeiro: “sabe por que Cain matou Abel?”. Lembraremos disso mais tarde, quando ao ver uma cobra se aproximando do irmão mais velho, o mais novo hesita antes de avisá-lo.
Também o modo como entram os créditos, depois de alguns minutos, é impactante: assim que percebemos “ah, essa é a intrusa”, o nome do filme é estampado na tela. Essa mulher, aliás, é apresentada como uma aquisição de algum mercado – e depois veremos que ela é mesmo uma mercadoria nos pampas gaúchos do fim do século 19.
Em outro momento, vemos o mais velho dos Nilsen andando por sua cabana, a câmera a acompanhá-lo, até que ele abre uma cortina e o corte nos mostra a intrusa em sua cama, olhando fixo para ele. Mais tarde, o mesmo procedimento se repete com o irmão mais velho. Simples, mas com um tipo de sintonia muito precisa, difícil de se ver. Christensen dominava a tradição, e assim podia colocar pitadas de invenção com maior força, mesmo no que é aparentemente convencional.
Fora que é tão bom ver filme brasileiro bem encenado, com uma câmera sempre bem pensada, e com alguns dos zooms mais interessantes que se viu por aqui. Seria bom que nossos atuais cineastas voltassem aos filmes de Christensen.
A Noviça Rebelde

O post seria sobre A Intrusa, que revi por estes dias, mas tive de escrever este no lugar, de supetão, movido por uma nova revisão de A Noviça Rebelde, o filmaço de Robert Wise criminosamente adulterado pelo Telecine Cult – passou em 1.78:1, quando o formato certo é 2.35:1. Ou seja, a falta de tarjas em cima e em baixo faz com que às vezes uma ou duas das sete crianças fiquem fora do enquadramento em que deveriam estar. Antes do DVD, lamentávamos o full screen dos filmes passados na TV ou lançados em VHS. Mas entendíamos que ver na TV era uma perda muito maior, mas necessário para o aprendizado cinematográfico. Hoje, com as TVs grandes e os DVDs e Blu-rays no formato certo, parece-nos impensável ver um filme desrespeitado desse jeito.
O fato é que A Noviça Rebelde se aguenta muito bem, mesmo com os problemas no enquadramento televisivo. Impossível esquecer o chiaroscuro nas cenas do convento e o encontro final com a madre superiora, quando ela canta (foto) uma das mais belas canções já compostas por Rodgers e Hammerstein, “Climb Ev’ry Mountain”, e convence a noviça Julie Andrews a seguir o caminho de seu coração, preenchendo novamente com música a casa dos Von Trapp. Outro momento convidativo às lágrimas é quando Julie Andrews canta “My Favorite Things” (Rodgers e Hammerstein, gênios) para as crianças, que foram se proteger dos trovões em seu quarto.
Quando ela sai do convento rumo à mansão do Capitão Von Trapp temos Hollywood sendo influenciada pela Nouvelle Vague, com cortes absurdamente modernos, como bem observou o amigo Francisco Conte. E também quando se casa: corta da penumbra do jardim onde o capitão se declara para o véu de noiva já caindo no rosto dela. Depois um plano mais aberto no convento para vermos o vestido branco todo em contraponto ao preto das roupas das freiras. Depois o órgão da igreja, a caminhada até o altar, a câmera subindo até o alto do altar e, num corte, subindo aos céus como se tivesse quebrado o teto da igreja, os sinos badalando. A perfeição. Corta de novo, desta vez para a sombra do nazismo que introduzirá o terceiro ato.
Não é só uma obra-prima esse filme que mostra como Hollywood pode ressurgir das cinzas frequentemente com sua fábrica dos sonhos. No momento, provavelmente é um dos meus dez filmes de cabeceira.
O retorno do filho do post esquizofrênico

O Despertar da Besta, de José Mojica Marins
– Novo blog, velhos costumes. Bem, nem todos. Espero não deixar este blog abandonado como deixava o anterior. Mas eis a volta do post esquizofrênico, como nos velhos tempos de chip hazard.
– Oscar 2016. Meu lado jornalista viu todos os filmes que concorriam às principais categorias. Incrível como muita gente gosta de O Filho de Saul. Acham que é novidade, o que, sinceramente, me escapa. Não acho a trama abjeta, como alguns sugeriram. Meus problemas com o filme estão todos na esfera formal (e é justamente isso que tem conquistado as pessoas, pelo que percebo). Aquela câmera pernilongo não me convence em momento algum. Adoro Lili Marlene. E O Filho de Saul é o oposto de Fassbinder.
– A vitória de Spotlight ao menos serviu para tirar o principal Oscar do exibicionista O Regresso. Não é um mal filme, pelo contrário, embora esteja próximo demais do academicismo. Ainda assim, em tempos de direções indigentes (que já se tornaram a regra, logo, também acadêmicas), como a de A Grande Aposta, melhor um feijão com arroz do que um jiló estragado.
– O Cavalo de Turim (2011), último longa de Béla Tarr, estreou em São Paulo, numa sala pequena do Arteplex. É um grande filme, dos maiores do século.Escrevi sobre o filme para a Folha.
– Uma grande notícia é a mostra em homenagem aos 80 anos de José Mojica Marins, na Cinemateca Brasileira, de 10 de março a 04 de abril. Quem é de São Paulo precisa acompanhar (e quem não é, seria bom cogitar uma temporada por aqui). Serão exibidas suas obras-primas (Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver e O Despertar da Besta), filmes subestimados (Finis Hominis, Exorcismo Negro, Delírios de um Anormal), importantes por representarem uma guinada e um retorno (À Meia Noite Levarei Sua Alma, A Encarnação do Demônio), entre outros filmes que precisam de revisão (confesso que não gosto dos que realizou sob pseudônimo, e creio que não seja preconceito de minha parte). Nunca vi: Sexo e Sangue na Trilha do Tesouro e D’Gajão mata para Vingar.
– Nesta nova fase de escutar muito, quase que somente, soul, funk e rap, tenho reouvido coisas maravilhosas como o primeiro do De La Soul, o segundo e terceiro discos do Public Enemy, discos do Ice T (incluindo Body Count), os dois primeiros do Ice Cube, os dois primeiros do NAS, enfim, muito rap, ritmo forte, impulsionador como um bom heavy metal.
– Órfão da NFL (o melhor esporte para se ver na TV). Chega logo, setembro. Órfão também da antiga ESPN Brasil. Órfão para sempre, nesse caso.
– Terminando com uma tardia homenagem ao gênio David Bowie, que nos deixou em 10 de janeiro, dois dias depois do lançamento de sua obra-prima de despedida, o LP Blackstar.
Straight Outta Compton

Em meados dos anos 90, tive uma fase em que só escutava música negra. Claro que eventualmente outras coisas entravam na roda, mas normalmente eu pirava com vinis ou cds de bandas como Commodores, Earth, Wind and Fire, Tramps ou gênios como Stevie Wonder e Curtis Mayfiled, entre muitos, muitos outros.
Agora estou em uma nova fase dessas, revisitando muitas das coisas que eu ouvia muito há vinte anos e esporadicamente (como quase tudo que tenho) de lá para cá. Essa fase começou no final do ano passado, e continua firme e forte, com o parliafunkadelicment thang de George Clinton numa posição máxima em meus auto-falantes já massacrados por tantos graves poderosos.
Por isso tinha grande curiosidade para ver Straight Outta Compton, a cinebiografia do NWA feita por F. Gary Gray, diretor que sempre me interessa. Nem sabia que o filme tinha estreado em São Paulo no fim de outubro. Estrear durante a Mostra Internacional é judiação para qualquer filme.
A primeira sensação que tive ao finalmente ver o filme de Gray é que deram a câmera para alguém com abstinência alcoolica. Entendo a tensão que se quer imprimir, mas em muitos momentos essa tremedeira é falsa, parece existir unicamente pelo efeito câmera na mão, que está na moda (aliás, já está ficando fora de moda, pelo que tenho notado em filmes americanos recentes). Mas uma coisa é a câmera na mão de Pasolini, Glauber Rocha ou Sganzerla. Outra é essa de 99% dos filmes atuais: a tremedeira fabricada.
NWA nunca foi das minhas bandas preferidas. No hip hop prefiro Public Enemy, LL Cool J ou De La Soul (o pessoal de NY e imediações). Mas é inegável o poder de suas bases e letras, o discurso raivoso de quem tomou muita geral de policiais, principalmente no primeiro disco, de 1988, intitulado justamente Straight Outta Compton.
O filme dá conta disso e de outras coisas. Numa cena, pessoas quebram centenas de unidades do disco de estreia deles com o argumento de que rap não é música. O comentário deles, dentro do carro que os leva a uma passagem de som é “que façam o que quiserem com os discos, eles os compraram mesmo”, seguido de uma série de risadas. Antes, na geral da polícia, um dos policiais, acusado por eles de vendido por ser negro, argumenta a mesma coisa dos quebradores, que rap não é música.
Com o sucesso do disco de estreia do NWA no final dos anos 80, poucos anos antes dos tumultos raciais de 1992 (tematizados no filme), nascia o gangsta rap, para desespero dos religiosos, certinhos, puristas musicais e feministas. Straight Outta Compton, o filme, documenta esse fenômeno oriundo do gueto e causado sobretudo pela violência policial. Dá conta também que os primeiros discos solo de Ice Cube são melhores que os do NWA, assim como Dr.Dre seguiu uma carreira brilhante nos anos 90. A sequência em que vemos Cube respondendo às provocações do NWA com provocações ainda mais fortes é bem boa. Cube abria sua boca e metralhava para todos os lados, com uma base poderosa e claramente mais produzida que a de seu ex-grupo.
O que é tratado muito de passagem é a briga entre o rap da Costa Oeste e o da Costa Leste (forte sobretudo na gravadora em que Dr.Dre meteu uma grana, a Death Row). Se bem que isso é assunto para um filme inteiro, que talvez até já tenha sido feito. O filme de Gray acaba pouco antes da morte de 2Pac, com Dr. Dre anunciando sua nova empresa: Aftermath (meses depois morreria Notorious B.I.G., da Costa Leste).
No fim, o filme de Gray é até interessante, mas vale pela música mesmo. E os créditos sobem enquanto ouvimos uma das faixas mais geniais de todo a cena West Coast, “Talking to My Diary”, de Dr.Dre.